Honra ao mérito
Como valorizar o joelho?
Padecê-lo, ao dá-lo em conhecimento da
cadeira sólida, maciça e concreta. Que o útil da madeira estabeleça a
articulação. Ainda que irrite buscá-la, valha a constatação pra explicação que possa
calhar.
A doer, tomarei siso do joelho.
Se for pra ficar dizendo, já vou logo
falando: desde que o mundo é mundo, miséria e glória andam juntas, emparelhadas,
uma sombra da outra. Como se a separação proporcionasse-lhe algum lucro, não as
distingue relacionadas quem as afasta.
Achando-se movido pelo dinheiro, um
mundo corre apostar que a grana pode mais do que o prometido. Uma vez que o frustrado
não se compra, tal gente põe preso o ouvido à gaiola do canto escapulido do
saíra.
O que não passa de desfeita, discurso
de perdedor, de quem sofre da inveja, esta sereia que produz ostentação. Tendo
a morte na base, isso faz podre a vida. Pobrezinha.
É preciso agravar quem magoado pela topada
do poder. Afinal, dá de cara com o abismo, quem age à custa do herói, cuja fama
vem da alardeada notoriedade. São cupins, os tais atos sensatos que sobem à
cabeça. Contudo, mito que canta da boca pra fora não se sustenta.
Gota bate. Gota amolece. Gota liquefaz
o barro dos pés.
Cá entre nós, com o natural do ceticismo,
optemos pelo opróbrio. Diante de figura que abunda maior que a própria ferida,
ajamos sem a pressa dos afoitos. Se a vida tem por perpétua a luta enquanto dura,
tiremos por jazigo a glória que o nome diz representar-se.
Ê noite entrada no palco, madruguemos
levíssimos.
Sem lágrimas.
Que o olho não ilumine, ilumine-se
pelas coisas.
Uma vez que herói late ao cão e não o contrário,
queiramos saber das coisas, e que coisas elas falam.
Dizem que nem ralando a vida inteira a
pessoa consegue pagar o que julgam que deve. E a dívida que fica de herança hão
de cobrá-la. Que a pessoa ganha em desprezo o lastro da passagem pelo mundo.
Impagável, geração depois de geração, o nome envergonha a família, os amigos. Os
cães da vizinhança que, pelo hábito de terem olfato, só mijam na perna do
maldito pelo cheiro. E o bodum de urina seca mais atrai pernilongos e
muriçocas.
Para voar pela prosa do vento, a luz poderia
estar acesa. Deveria, talvez. Haveria de estar. Nada disso. O que não faria a
noite virar dia. Já que, no fundo, torno incomunicável o sofrimento, posso os átomos
que me conectam ao instante.
Buscando o mundo no escuro, a cadeira
dá no joelho. Sofro a dor da descoberta. No latente de mim, o senso nega adeus ao
sereno.
Louco por um drama, assumo a
perspectiva do futuro. Mesmo de cueca, no escuro, o joelho latejando,
acumulam-se os juros da batida. Se o corpo dá ciência de mim ao bater-me aí, aplico
uma analgésica ilusão, a massagem. A pele dolorida ficará roxa amanhã ou
depois.
E se a mágoa me engaiola?
Como espontânea, tenho a habilidade de
fazer a pergunta errada no momento certo.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 26 de janeiro de 2020.
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