domingo, 2 de fevereiro de 2020

Sonho estranho


Sonho estranho

Nesta Ilha de Vera Cruz, de encastelados sem castelo, verdades morrem feito fatos inevitáveis, portanto lamentáveis. Se há motivo pra untar com mel os destronados que ululam merecer umas picadas de abelha? Não, nem por viver em país onde fantasma se aposenta.
Na minha cabeça, não arrasto correntes nem assombro os porões. Todavia, espumo absurdos quando, por aí, reafirma-se a lógica deste chão que, em nome do pobre, gera misérias.
Tudo sob controle, naturalmente. E nas mãos de quem há séculos vem ditando a ordem do dia, claro. Não fosse isso, não viriam abaixo árvores no Pico do Jaraguá. Para que os futuros moradores, de baixa renda mas humanos como nós, regozijem-se da justiça empreendida, os visionários doarão mudas pro viveiro da Capital, obviamente.
O caos desdenha da matemática que só leva em conta a precisão do cálculo. Sem querer passar a ideias de alucinação, porém, nutre a vida com acasos e estranhamentos. Tanto quanto a paixão orienta-se pelas razões sem lastro no previsível, faz ler 13 o 31.
E agora, nesta sexta que vem antes do sábado que vem antes do domingo, leio que vai ter alegria, melancolia e poesia, com o Bituca e os seus canoeiros.
Bem que tento ouvir o meu coração bater sem medo, ao ritmo do vento solar. Quero e posso dizer que há 48 anos o Clube da Esquina também anda comigo. Pode-se curtir, na TV rola em seis capítulos, o bocadinho da nuvem cigana que Milton Nascimento trouxe à ventania da travessia, sob as asas da Panair.
Como pérolas não flutuam à linha do espelho, mergulho.
Daí que, nas ruas desta PG 2020, tomando chuva no lombo, vem outra. E me arrasta, sei lá, pra quando ia indo ver o Calígula do Tinto Brass, num cinema em Sorocaba.
Mas o detalhe que não deixo fugir, como o saci das matas, é que a identidade para assistir ao filme era exigência do juizado, uma vez que a senha da porta cobrava a idade. Traduzindo? 18 a partir de 81.
Se tem 82 que projeta Sarriá, o meu desencava outras ossadas.
Após o proibido pra menores, ia ter aula do Pasquale no cursinho, no Campolim, no sopé do Esplanada. Ora, como quem ama o que faz sabe brincar, o mestre jogou fundo em mim que é preciso cantar.
Tento cantar, e tento.
Agora, aqui nesta crônica assinada neste domingo, rememoro que o meu pai, como presente de aniversário, nos 81 dos 18, passou pro meu nome a assinatura da Folha de SP.
E faço questão de unir os fios soltos, afinal “a estupidez não mata, faz-nos sábios”, já dizia alguém que ainda vive em mim porque tenho decorado o que só esqueço pra poder lembrar e esquecer. Sem eco.
Memória, possa abraçá-la daqui, à beira da noite. Mãe das musas, permita-me fazer novo o que já se cantou, já ainda canta. Que o vivo vá pelo passado; que o morto molde seu barro; que me espantam as águas da vida.
Porque traz a poeira no ombro, o louco morde o bafo da lua.
E nem assim o pastel acorda?
Avá.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 02 de fevereiro de 2020.

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