terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Coisa mais bonita


Coisa mais bonita

A semana promete. O calorão faz arte. Ô coisa boa, ficar largadão no barco, rumo a Sete Quedas. Com o mundo preocupado em levar pinguins pro Alasca, acalento o meu rancor em levedura de cevada. Bato minhas latas. Em resumo, dispensado da culpa, bebo logo duas latinhas. Como não acendo vela pra quem joga fora um mísero dedo, emendo a terceira gelada. Que forrando o estômago, nem almoço.
Ô susto. Pra reposição do estoque, dei por perdida a carteira.
Quer melhor colírio pra cegueira transoceânica do que dinheiro de plástico? É bom ter essa necessidade de dar-se um refresco, por isso ponho lacrado o apartamento. Assim o ar fica bem condicionado entre quatro paredes. O que me ajuda em minha labuta, que sigo apurando as aporrinhações cotidianas que atravancam as minhas leituras.
Evidente, pra alívio da solidão que me carrega, deparo-me comigo debruçado sobre o néctar de uns rabiscos. Paparicam minhas papilas as variações de um poema não acabado. Salivo tanto que poderia me perder da abstinência emocional. Porque os salvados do incêndio são fumaça que a brisa aviva. Urina fervendo arde no queimado. Atento ao erro: correr da onda errada ou correr.
Ora, que poesia pode ter um poema inacabado?
Dentre meus hábitos, aliás, está caminhar, ida e volta, o calçadão da praia. Caminho num pé, da boutique do peixe do Forte ao campo da Aviação. Prática a que fui instado pela orientação do doutor desta cachola. Andar, como terapia aos surtos de ansiedade, pânica de tão generalizada.
Prevenção: antes de tudo. Óbvio também: a dedicação.
Entretanto, os meus olhos de poeta estão ressecados, levam-me a pedir uma aquietação ao espírito das águas, que não me atende ou não me entende. Macaco Simão, me ajude aí.
Em outras palavras, o cotidiano come, digere, defeca. Natural que isso seja assim. Cabe a mim, contudo, desviar das pérolas das vias e, dando algum sinal de respeito, manter a razão em funcionamento.
Assim, caminhando, vi algo. Parei e voltei, buscando confirmação.
Caminho de tênis, mas volto pela água; de costas para a rua onde tenho direito ao IPTU, sento; bato a areia.
Penso melhor sentado.
Sem medo, começo pela comoção que me cativa?
Ter medo não me faz alegar falta de coragem. O medo tira de mim o papel de possível ameaça. Assim, ter medo protege ao abrir espaço ao redor. Medo é redoma. Sem ar, tem vida que vinga? A minha rosa definha e morre. Pago pelo preço de escolher, pois, mesmo protegido pela coragem de ter medo de me converter num perigo a quem nem vê pra que existo, admito que o temor me mantém vivo. Pela coragem de ter medo, anima-me ficar em silêncio. E quero.
Calado, busco mesmo pensar.
Oxe. Já estou ficando aéreo.
Melhor ler de novo a tirinha do André Dahmer publicada no jornal O Globo desta segunda.
Se isso estranha?
Os caminhos dizem que o mundo tem lugar pro insólito.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 28 de janeiro de 2020.

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