sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Tá osso


Tá osso

Quando acorda, eis um absurdado de coração. É preciso pagar os impostos para que o governo cobre impostos. Mas nada da economia diz algo a ele, sequer que está sentado. E tem mais o quê? Que está com a bunda dolorida, de tanta cadeira. Os pés que estão debaixo da tampa de vidro da mesa têm pra andar o quanto que nem calculam. O dia passa das sete. Dá pra notar, pela luz viva que vem de fora. Seus pés descalços pouco sentem o piso. Frio, e sujo.
O pernilongo vem zoar, picando os pés, como sói dar-se enquanto escreve. As manhãs têm insetos. Da boca escapa a baba, a camiseta colhe esta babinha. Lesado de tanto pensar, em vão. Se pensar que encharca o travesseiro, pode perder-se. Por que dorme de bruços? E nas madrugadas, a bexiga sofre. O vaso, aquela imundície.
E tem crônica pra escrever. Limpa e certeira. É importante.
Que o preceito que vem em primeiro lugar, amar a vida, não esteja acima do instituído, o amor aos vivos, para evitar pororocas, amáveis são os outros, como reparar nas pessoas por preferência, meu tudo é quem mais amo. Feito.
Não se culpe o universo pelo alinhamento do GPS com o lugar em que tem cadeira própria, no apartamento. Passe o café, já são horas. Manhã de mormaço, com pitadas de sol. Dia 22, já. Lembra?
Demonstrando, de fato, o afeto que a música das esferas provoca na aceitação de que há o sentimento de desconcerto frente às coisas do mundo, vai pesando. Rotação e translação. Sim. Não. Sim.
O engano veio a ele como acontece a alguém distraído, isto é, que vai abrindo outra picada sem ler o mapa. É por isso que os enganos desnorteiam. Uns matreiros. Como os pernilongos, dissimulam.
Os olhos querem lacrimejar, admita. As lágrimas podem vir a dizer o que camufla. Quanta preguiça. A dar ouvidos ao que não vê? Que as picadas dos mosquitos sirvam de prova de que é preciso coçar pra ver. E ver não formiga olhar insidioso algum, de gente que veste com nudez a inocência despudorada. Frise-se a diferença, naturalmente.
São cinco e cinco, já. Que entre a fonte da perturbação do homem que está sentado. No fundo do bagunceiro, a mesa dá prova de que poucas mudanças tornam melhor o mundo sem lugar.
Dorminhoco de plantão, deixe a alegria morder a carne do desejo. Escreva a dança; ponha as palavras a dançar alguma ânsia; ilumine o drama da hora com ideias dançarinas. Tome pulso do sol peçonhento que mela o dia. Nem salivar nem cochilar aliviam. O medo na pança é que apronta, intoxica e pesa.
Como lé com cré dá liga, cuide-se. Não confie no vidro.
À vista do látex? Oxe.
Que o sonho não o deixe pensar em paz. Há glândulas precisando de estímulos. Se isso explica que pernilongos venham picá-lo? Não, tais insetos picam-no pra produzir manchas. Ô vida. Se tem amor que amarela o S.O.S. no meio do peito? Então, beba baba, seu chatão.
Importante e fundamental?
Por viver de alegorias, o carnaval afronta.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 23 de janeiro de 2020.


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