Tá
osso
Quando acorda, eis um absurdado de coração.
É preciso pagar os impostos para que o governo cobre impostos. Mas nada da
economia diz algo a ele, sequer que está sentado. E tem mais o quê? Que está
com a bunda dolorida, de tanta cadeira. Os pés que estão debaixo da tampa de
vidro da mesa têm pra andar o quanto que nem calculam. O dia passa das sete. Dá
pra notar, pela luz viva que vem de fora. Seus pés descalços pouco sentem o
piso. Frio, e sujo.
O pernilongo vem zoar, picando os pés,
como sói dar-se enquanto escreve. As manhãs têm insetos. Da boca escapa a baba,
a camiseta colhe esta babinha. Lesado de tanto pensar, em vão. Se pensar que
encharca o travesseiro, pode perder-se. Por que dorme de bruços? E nas
madrugadas, a bexiga sofre. O vaso, aquela imundície.
E tem crônica pra escrever. Limpa e
certeira. É importante.
Que o preceito que vem em primeiro
lugar, amar a vida, não esteja acima
do instituído, o amor aos vivos, para
evitar pororocas, amáveis são os outros,
como reparar nas pessoas por preferência, meu
tudo é quem mais amo. Feito.
Não se culpe o universo pelo
alinhamento do GPS com o lugar em que tem cadeira própria, no apartamento. Passe
o café, já são horas. Manhã de mormaço, com pitadas de sol. Dia 22, já. Lembra?
Demonstrando, de fato, o afeto que a
música das esferas provoca na aceitação de que há o sentimento de desconcerto
frente às coisas do mundo, vai pesando. Rotação e translação. Sim. Não. Sim.
O engano veio a ele como acontece a
alguém distraído, isto é, que vai abrindo outra picada sem ler o mapa. É por
isso que os enganos desnorteiam. Uns matreiros. Como os pernilongos, dissimulam.
Os olhos querem lacrimejar, admita. As
lágrimas podem vir a dizer o que camufla. Quanta preguiça. A dar ouvidos ao que
não vê? Que as picadas dos mosquitos sirvam de prova de que é preciso coçar pra
ver. E ver não formiga olhar insidioso algum, de gente que veste com nudez a inocência
despudorada. Frise-se a diferença, naturalmente.
São cinco e cinco, já. Que entre a
fonte da perturbação do homem que está sentado. No fundo do bagunceiro, a mesa dá
prova de que poucas mudanças tornam melhor o mundo sem lugar.
Dorminhoco de plantão, deixe a alegria
morder a carne do desejo. Escreva a dança; ponha as palavras a dançar alguma ânsia;
ilumine o drama da hora com ideias dançarinas. Tome pulso do sol peçonhento que
mela o dia. Nem salivar nem cochilar aliviam. O medo na pança é que apronta,
intoxica e pesa.
Como lé com cré dá liga, cuide-se. Não
confie no vidro.
À vista do látex? Oxe.
Que o sonho não o deixe pensar em paz.
Há glândulas precisando de estímulos. Se isso explica que pernilongos venham
picá-lo? Não, tais insetos picam-no pra produzir manchas. Ô vida. Se tem amor que
amarela o S.O.S. no meio do peito? Então, beba baba, seu chatão.
Importante e fundamental?
Por viver de alegorias, o carnaval afronta.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 23 de janeiro de 2020.
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