terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Sonhata


Sonhata

Como foi o dia? Sei não. Pro balanço, luz apagada, ajusto-me aos fones. Quedo achar o que ficou pro futuro. Comprometo-me comigo a evitar que passe uma segunda vez o que passou ao largo. O cansaço talvez justifique ter deixado ir um montão do que quer que fosse, sem que houvesse outra reação que não os afetos de pusilanimidade.
Certo, deixei fluir a urgência do presente. Mas não faltará coragem de lamentar-me do que já foi. O perdido continua seu mundo obscuro, talvez próprio a coisas perdidas. Coisas? Mesmo a emoção.
Triste, uma desumanidade. Quero mudar o olhar. Quero cuidar de mudá-lo, pro sentimento dar em sustância. Enfim, nutro a percepção de que o acaso seduz com promessas. Deposito o crédito de permitir ao vindouro o que possa vir, já vindo.
Como encaro os dias? A loucura do mundo quer-me afogado, usa o material mais convencional que tenho como disponível: as palavras. Pois, escrevo. Com a dedicação dos atônitos, abraço-as.
Junto uma na outra, e a música inventa o ambiente.
Além da escuridão, da nuca na almofada, do volume ao gosto, os tímpanos traduzem em corrente elétrica as pulsões que não domino.
Um lapso nas sinapses. Falta o tranco a me puxar pra audição.
Nessa desolação, perco cor, textura, um nome. Vinga a abstração. Com a cabeça desesperando da sintonia com os sentidos. Entretanto, há deleite. Naquilo que ouço, intuo o tom. Vislumbro um eco. Talvez a palavra possibilite a materialidade. Por que a sinto?
Em resumo, há insinuações que abonam um vocabulário.
Aceito a decantação da lama dos eventos, filtro-a pelos ouvidos. E a música muito me auxilia. Peço uma peça de durabilidade apreciada, com pelo menos 250 anos de rodagem. Beethoven. Quer forma mais sensível pra assentar a náusea e o gozo do dia do que suas sonatas?
Tal escolha, tais regras.
O jogo começa no dia em que o Estadão chama as mãos ao piano de Igor Levit. Quero conhecer sua prática. Interessa-me sua integral. Proponho ouvir as 32 sonatas. Melhor, tento pôr numa palavra o que me mobiliza. Ao final de cada obra, quero captá-la, a força que move. Deste 15 de janeiro ao próximo15, uma sonata ao dia, em 32 dias.
As veredas do dia têm seus trâmites?
Insondável para mim, fico à margem do mundo sonoro do alemão, que diz as suas geografia e história. Tento, rabisco, perco-me. Quer o empenho, a petulância. Deparo-me, incomunicável. Sobram palavras, falha-me o entendimento. Insistir no fracasso? Estúpido.
Todavia, vivo cada um deles, tais 32 dias.
E o que espero de mim? Imagino que pouco se me dá manipular o azul da ilusão, dispersar andorinhas e chamar as saúvas com farelos de pão. Fissura-me a oportunidade da escuta.
Contudo, ensurdeço.
Como o porvir não tarda, mesmo que atrase, fabrico-me a pessoa lúcida e articulada, capaz de dizer que faz o que faz de modo lúcido e articulado. Ainda mais, cochilando.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 18 de fevereiro de 2020.

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