Sonhata
Como foi o dia? Sei não. Pro balanço,
luz apagada, ajusto-me aos fones. Quedo achar o que ficou pro futuro. Comprometo-me
comigo a evitar que passe uma segunda vez o que passou ao largo. O cansaço
talvez justifique ter deixado ir um montão do que quer que fosse, sem que
houvesse outra reação que não os afetos de pusilanimidade.
Certo, deixei fluir a urgência do presente.
Mas não faltará coragem de lamentar-me do que já foi. O perdido continua seu
mundo obscuro, talvez próprio a coisas perdidas. Coisas? Mesmo a emoção.
Triste, uma desumanidade. Quero mudar
o olhar. Quero cuidar de mudá-lo, pro sentimento dar em sustância. Enfim, nutro
a percepção de que o acaso seduz com promessas. Deposito o crédito de permitir
ao vindouro o que possa vir, já vindo.
Como encaro os dias? A loucura do
mundo quer-me afogado, usa o material mais convencional que tenho como
disponível: as palavras. Pois, escrevo. Com a dedicação dos atônitos, abraço-as.
Junto uma na outra, e a música inventa
o ambiente.
Além da escuridão, da nuca na
almofada, do volume ao gosto, os tímpanos traduzem em corrente elétrica as
pulsões que não domino.
Um lapso nas sinapses. Falta o tranco a
me puxar pra audição.
Nessa desolação, perco cor, textura, um
nome. Vinga a abstração. Com a cabeça desesperando da sintonia com os sentidos.
Entretanto, há deleite. Naquilo que ouço, intuo o tom. Vislumbro um eco. Talvez
a palavra possibilite a materialidade. Por que a sinto?
Em resumo, há insinuações que abonam
um vocabulário.
Aceito a decantação da lama dos
eventos, filtro-a pelos ouvidos. E a música muito me auxilia. Peço uma peça de durabilidade
apreciada, com pelo menos 250 anos de rodagem. Beethoven. Quer forma mais sensível
pra assentar a náusea e o gozo do dia do que suas sonatas?
Tal escolha, tais regras.
O jogo começa no dia em que o Estadão chama
as mãos ao piano de Igor Levit. Quero conhecer sua prática. Interessa-me sua
integral. Proponho ouvir as 32 sonatas. Melhor, tento pôr numa palavra o que me
mobiliza. Ao final de cada obra, quero captá-la, a força que move. Deste 15 de
janeiro ao próximo15, uma sonata ao dia, em 32 dias.
As veredas do dia têm seus trâmites?
Insondável para mim, fico à margem do
mundo sonoro do alemão, que diz as suas geografia e história. Tento, rabisco,
perco-me. Quer o empenho, a petulância. Deparo-me, incomunicável. Sobram
palavras, falha-me o entendimento. Insistir no fracasso? Estúpido.
Todavia, vivo cada um deles, tais 32
dias.
E o que espero de mim? Imagino que pouco
se me dá manipular o azul da ilusão, dispersar andorinhas e chamar as saúvas com
farelos de pão. Fissura-me a oportunidade da escuta.
Contudo, ensurdeço.
Como o porvir não tarda, mesmo que
atrase, fabrico-me a pessoa lúcida e articulada, capaz de dizer que faz o que
faz de modo lúcido e articulado. Ainda mais, cochilando.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 18 de fevereiro de 2020.
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