terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Adeus à calma


Adeus à calma

Antes de queimar nos posts da quarta de cinzas a feira da farra, a lista propõe dez intervenções carnais antes do consumo cosmético da laranjada adoçada por lágrimas hipócritas:
1. Estar sentado à espera do ônibus pode causar repentina perda de memória, por falta de espaço no disco ou ficar rodando num trecho que poderia ter sido riscado do mapa. Melhor tomar pé que viaja. Há dois quilômetros pesando como quatro, vindo àquela vez em que, na Pero Leão dos republicanos uspianos alcóolitos, houvera porradinhas de montão. Sem zanzar pela Faria Lima às três da matina, adverte-se não encarar as luas gêmeas da Rebouças, rio que corre pra Paulista. Sempre no trampo, tempo não marca touca, por isso o sol do sábado grita pra múmia sair da tumba, voltar do coma que nem mais um zero à esquerda, outro chumbado pela glória do pilequinho homérico.
2. Pra diferenciar incerteza de dúvida, tanto há razões pra enfiar o celular no bolso, quanto senões pra atirá-lo ao fundo do lar.
3. Soltaram que um manuscrito lacrado por cera de abelha numa caverna entre a Jordânia e a Cisjordânia surta quem o estuda. Afinal, mandado pro espaço bem no meio da ambrosia toda, Lúcifer anda pê da vida. Como um satanás dos diabos, o seu mimimi furibundo segue repercutindo nos tímpanos do vulgo.
4. Reza a lenda que Inferno é “lugar onde Deus não está”. Então, aos olhos do bom cristão, eis ali o inferno que toma suco de manga, e acolá faz uma fezinha pros 200 milhões acumulados, e que alhures ri das artes de pulguento com bebum.
5. Lembrar em qual parede única está a foto embolerada da Nana Caymmi cantando Dois pra lá naquele defumado Piu-Piu dos 80.
6. Já é hora de a vergonha fazer do pomar uma pomada. Já está na hora de parar de não passar por baixo de escada. Já é momento de enfrentar a balança da farmácia e se for o caso, rir. É o instante de pôr os óculos para ler as letrinhas da placa do busto. É agora que o sorrisinho amarelo tem de ir para cara de quem vive tirando onda. Já se faz o momento de compartilhar alegrias, sem os constrangimentos de quem dita regras, multas e interdições. Já se faz a hora de afirmar que não há congraçamento maior do que a vergonha. É hora, ponha na cabeça a dignidade humana. Não há de haver aplausos às palmas vexatórias, sorriso para as risadas energúmenas e mérito aos memes deprimentes. E é pra já. É agora, e não amanhã. Pois arrependimento ilude, não cura mágoa não perdoada. Já a vergonha, esta queima na hora. Então, atire a primeira torta, sapato, ou o que tiver à mão, sem deixar passar o momento em que um descarado esteja zombando de terceiro. Que vá comer o pão que o diabo amassou com a língua dum lambe-botas.
7. Vergonha não fortalece o fraco, nem medo.
8. Tem madeira seca pra pegar fogo.
9. Se a piada não tem graça, faz péssimo negócio quem ri.
Como chupo laranja com gosto, a décima dica fica cancelada.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 25 de fevereiro de 2020.

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