terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

O livramento


O livramento

Sem meneios de democrata pundonoroso, cuja transparência opta flertar com o ilusionismo opaco, solicita-se a letra cristalina do Título I, dos princípios fundamentais, que constitui em Estado Democrático de Direito a República Federativa do Brasil, conforme o promulgado em 05 de outubro de 1988.
Legal. Feita a leitura, passemos ao pão, pão.
De concreto mesmo, a pia, a escova e o creme dental. Assim é se, como oportunidade, se apresenta a ocasião. Que pode ser calculada. Por exemplo, ao vir a maçã sob medida. E por que medida?
Por suposto, tenho dentes; portanto, hei de escová-los.
Não tenho passado fome, ando mordido. Pela vida rasteira, e sem besteira. Pois, passar fome porque não se tem o que comer não é o mesmo que passar fome porque não se quer comer. Vivo isso. Aliás, ficar remoendo banana já comida não some com a casca. Ainda que se possa mesmo jogá-la às cegas, arrisca-se o escorregão virar um tombaço. Sério, costuma-se largar o que se esquece em lugar que só faz aumentar a chance do vexame. Dá-lhe, ardósia. E ando dolorido.
Então, a raiva de mão, o soco fdp, essas coisas que tornam mais saboroso ficar de longe, rindo por dentro. Sim. Com o tédio jogado no lixo, pode-se rir. Mas é rindo gostoso que a gente nem lembra o fiapo de frango, o verde da alface. Xis.
Aliás, pessoa sem papas na língua não pensa nos outros, mesmo porque nem é dada a pensar em si. É que nem foguete: do banho, já sai rolando na terra. Oxe.
Hoje, mestre de mim até onde sei, afaga-me o Nero, querendo pôr fogo no mundo. Ia já declarando suas chamas, e comigo gaguejando. Caso faça diferença, moro em prédio. Por isso, o cabeça vê um sítio: fora da suspeição. Ali se amontoariam cadernos do grupo, cadernetas do ginásio, as fotos do colegial. Sem deixar dúvida paralisar as mãos, mandaria nos fósforos. Inominável e febril, quase às lágrimas. Penso, pro fogo dar no inflamável, fundamental é amaçarocar tudo.
Por suposto, tenho dedos; entretanto, penso. A fumaça vai atiçar a colmeia. E rebeldes por natureza, as abelhas partirão pra cima. Não vão calcular nada. O fumacê irá liquidá-las. Pode-se louvar a bravura. Contudo, dessa vez, a intuição faz antever que o razoável talvez não venha a ser. E não fosse a morte, a vida resolveria pouco. Certo?
Nada de fogo, chove. E como.
Baratas voam. Ratos correm. Serpentes se posicionam. Aranhas tecem teias. À mosca, tanto faz. Vírus e bactérias tomam partido, em mim. Justamente: em mim. Faz sentido.
Que dilúvio! Água barrenta enlouquece? Ave, Terra.
Às portas do carnaval, entendo Momo. Finjo que digito de olho no que faço. Vem o mel à boca, que gostoso. Assumo minha queda pela torta holandesa do Planeta Doce. Tenho esta boca; conheço o mundo pelo açúcar, e por suas consequências.
Olha o foco, Fellini 69. Hein?
Quando a língua queima ― vão-se as palavras, vale a escrita.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 11 de fevereiro de 2020.

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