Mago
Patológico
A xícara não está pela metade, o café sobe
à boca; venha o dia que vier, vai encará-lo. Capaz de confundir o justo no
ajustado, dispensa o pensamento de indispor-se a quem o ponha contraditório.
A xícara vazia, sem sombras de borra, o dia
seja como for; no fundo, o mundo que o aguarde inusualmente ligeiro.
Não que acordara mais lesto, segue lerdo
nos gestos e na captação de agudezas. Tendo ir deitar um e levantado outro, preserva-se
em ser o mesmo. Por somente, menos triste ou mais sutil.
A cômoda ao lado da cama compreende-o:
duas listas dormem uma ao lado da outra: a dos afazeres e, sequer inscrita no
rol das tarefas, a dos itens por comprar no super.
Ele acha por óbvio, a cômoda nada tem de
máquina do tempo para transformar o passado no presente, já os papeizinhos...
Ontem, ao longo do dia, ao lembrar-se
disso e daquilo, corria para não esquecer, fosse alface, molho de pimenta,
patinho moído e o papel higiênico.
Pra orientá-lo na manhã seguinte,
colocava, ao deitar-se, a lista sob os óculos. Caso houvesse esquecido o
sabonete de glicerina ou a meia dúzia de bananas, enxergando as ausências, in
loco, corrija-se.
Ao fim e ao cabo, sem mistificação, e
por simplicidade, o escriba do passado comunica-se com o leitor de agora; a
vida vai em dia.
Não se rogue simplório, que o engenho
humano pode tal desleitura: o ser humano que era um antes de dormir está feito outro
ao despertar, uma vez que há passado pelo mundo dos sonhos.
A travessia dá sentido à transfiguração:
a pessoa que sonha é quem se lembrará do sonhado. Conquanto se apresentem distintas,
a que se recorda é, mesmo e ainda, a pessoa que sonha.
Em outras palavras: a um só tempo, o ovo
é a galinha.
Galinha cacareja, mas não voa. Cisca,
busca minhocas, bica o que pareça comestível. Ave que não voa, será por que tem
coxinha na asa? Ou será que comer o que surja no chão ciscado torna-a
apetecível por demais da conta?
Se galinha é bicho engraçado,
desengonçado, é o galo que irrita ― cantando na aurora, interrompendo o sono,
revelando que sonho dura uma eternidade quando a gente dorme.
O esperado era acordar tranquilo, pois
dormira bem. Fora pra cama bem depois de ter comido uma banana, uma maçã e
outra banana. Já enfiado no pijama, não se abstivera do rotineiro copinho de
leite trazido à cômoda há instantes.
Sem aranhas pondo ovos nas crateras dos
molares, ideia supimpa é, sob os cuidados de gente que domina artes culinárias,
o cantor das alvoradas virar ensopado mui delicioso.
Na falta de sopa, a omelete será feita
com dois ovos, duas fatias de muçarela, cebola picada, a pitada de sal, o choro
de orégano e argúcia pra manipular os materiais.
Pra completar, a salada precisa ter o
cinto de utilidades do Batman ou a capa do Superman?
Por tirar fina das mãos tão ansiosas para
destroncar-lhe o pescoço, é simples, basta Homer ter os abanos do Pateta.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 21 de julho de 2024.