quinta-feira, 18 de julho de 2024

Outra arenga na ponta da língua

 

Outra arenga na ponta da língua

 

A primeira vez que me escalaram pra orador de turma, testemunhei o substituto nem se referir a quem o convenceu a brilhar no palco; quiçá nem tenha sido isso que me fez segredar à escola que a oportunidade desse brilho partira de mim, cuja timidez devia pouco à vaidade.

A primeira vez que tive orgulho de não seguir indolente, permiti que passasse na frente uma desconhecida que confidenciou a mim, logo a alguém que não deixava de ser-lhe estranho, que, no carrinho, à porta do posto de saúde a filha febril a esperava.

A primeira vez que me fizeram de bobo, acreditei que toda besteira se resolve no braço, puxando o cabelo, dando rasteira, fazendo de tudo para merecer gritos, palmas e dois putativos beijinhos curativos.

A primeira vez que usei costeletas de carvão, alertaram que fulana que tinha medo de cobra não dava pista, alertaram que beltrana virava estátua quando via a ponte quebrada, mas, no balancê da jornada, me esposaria à mulher do padre.

A primeira vez que levei o vinho na missa das dez, não tive o arrojo de constatar o domingo cheio ou tropeçaria no saião, porquanto jamais houvera eu higienizado o cálix com uma lambidinha.

A primeira vez que deixaram repetir o prato, trocaram coxa por asa, negaram o parmesão no espaguete e ralharam o quão mal-agradecido eu era, porque a primeira comunhão fora memorável, sem que patetice alguma levasse à minha autoria.

A primeira vez que julguei merecedor de aplauso, a chuva derrubou árvores, postes e a minha ligação com o estoicismo, evitando que luzes repentinamente acesas patenteassem-me uma barata.

A primeira vez que contei que depois de ter lido Carta ao Pai pensei em escrever Carta ao Filho, disseram-me atrevido; ao insistir que seria algo cômico, taxaram vulgar minha esperança.

A primeira vez que debochei de quem me esculachava, partiram pra ignorância, apelaram pra murros e pontapés, convenceram-me de que certo é quem não perde de fazer valer o quão certo está.

A primeira vez que entrei num rio, custaram acreditar que não sabia nadar, pois nada fiz que revelasse a iminência do desastre, eu apenas afundei, afundei e, no tanto pela terceira afundada, me debati.

A primeira vez que me salvaram de uma desgraça, não explicaram que desmaiar era provável, já que não tinha comido nem um pedacinho de pão nas últimas vinte e quatro horas, entretanto, sem mencionarem o tranquilizante dissolvido, tive que virar o copo d’água.

A primeira vez que a cabeça estava explodindo, nem quis saber que as marcas das cintadas nas pernas guardavam ligação com o suposto golinho de uísque que os irmãos teriam de ter impedido de circular nos oito anos do meu corpúsculo de meninote.

A primeira vez que escrevi sem saber por quais veredas estivesse indo, acho que está ganho o trabalho de recompor-me o maior caviloso decente da paróquia.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de julho de 2024.

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