Outra
arenga na ponta da língua
A primeira vez que me escalaram pra
orador de turma, testemunhei o substituto nem se referir a quem o convenceu a
brilhar no palco; quiçá nem tenha sido isso que me fez segredar à escola que a
oportunidade desse brilho partira de mim, cuja timidez devia pouco à vaidade.
A primeira vez que tive orgulho de não
seguir indolente, permiti que passasse na frente uma desconhecida que confidenciou
a mim, logo a alguém que não deixava de ser-lhe estranho, que, no carrinho, à
porta do posto de saúde a filha febril a esperava.
A primeira vez que me fizeram de bobo,
acreditei que toda besteira se resolve no braço, puxando o cabelo, dando
rasteira, fazendo de tudo para merecer gritos, palmas e dois putativos beijinhos
curativos.
A primeira vez que usei costeletas de
carvão, alertaram que fulana que tinha medo de cobra não dava pista, alertaram
que beltrana virava estátua quando via a ponte quebrada, mas, no balancê da
jornada, me esposaria à mulher do padre.
A primeira vez que levei o vinho na
missa das dez, não tive o arrojo de constatar o domingo cheio ou tropeçaria no saião,
porquanto jamais houvera eu higienizado o cálix com uma lambidinha.
A primeira vez que deixaram repetir o
prato, trocaram coxa por asa, negaram o parmesão no espaguete e ralharam o quão
mal-agradecido eu era, porque a primeira comunhão fora memorável, sem que
patetice alguma levasse à minha autoria.
A primeira vez que julguei merecedor de
aplauso, a chuva derrubou árvores, postes e a minha ligação com o estoicismo,
evitando que luzes repentinamente acesas patenteassem-me uma barata.
A primeira vez que contei que depois de
ter lido Carta ao Pai pensei em escrever Carta ao Filho,
disseram-me atrevido; ao insistir que seria algo cômico, taxaram vulgar minha
esperança.
A primeira vez que debochei de quem me
esculachava, partiram pra ignorância, apelaram pra murros e pontapés, convenceram-me
de que certo é quem não perde de fazer valer o quão certo está.
A primeira vez que entrei num rio,
custaram acreditar que não sabia nadar, pois nada fiz que revelasse a iminência
do desastre, eu apenas afundei, afundei e, no tanto pela terceira afundada, me debati.
A primeira vez que me salvaram de uma
desgraça, não explicaram que desmaiar era provável, já que não tinha comido nem
um pedacinho de pão nas últimas vinte e quatro horas, entretanto, sem
mencionarem o tranquilizante dissolvido, tive que virar o copo d’água.
A primeira vez que a cabeça estava
explodindo, nem quis saber que as marcas das cintadas nas pernas guardavam
ligação com o suposto golinho de uísque que os irmãos teriam de ter impedido de
circular nos oito anos do meu corpúsculo de meninote.
A primeira vez que escrevi sem saber por
quais veredas estivesse indo, acho que está ganho o trabalho de recompor-me o
maior caviloso decente da paróquia.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 18 de julho de 2024.
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