domingo, 21 de julho de 2024

Mago Patológico

 

Mago Patológico

 

A xícara não está pela metade, o café sobe à boca; venha o dia que vier, vai encará-lo. Capaz de confundir o justo no ajustado, dispensa o pensamento de indispor-se a quem o ponha contraditório.

A xícara vazia, sem sombras de borra, o dia seja como for; no fundo, o mundo que o aguarde inusualmente ligeiro.

Não que acordara mais lesto, segue lerdo nos gestos e na captação de agudezas. Tendo ir deitar um e levantado outro, preserva-se em ser o mesmo. Por somente, menos triste ou mais sutil.

A cômoda ao lado da cama compreende-o: duas listas dormem uma ao lado da outra: a dos afazeres e, sequer inscrita no rol das tarefas, a dos itens por comprar no super.

Ele acha por óbvio, a cômoda nada tem de máquina do tempo para transformar o passado no presente, já os papeizinhos...

Ontem, ao longo do dia, ao lembrar-se disso e daquilo, corria para não esquecer, fosse alface, molho de pimenta, patinho moído e o papel higiênico.

Pra orientá-lo na manhã seguinte, colocava, ao deitar-se, a lista sob os óculos. Caso houvesse esquecido o sabonete de glicerina ou a meia dúzia de bananas, enxergando as ausências, in loco, corrija-se.

Ao fim e ao cabo, sem mistificação, e por simplicidade, o escriba do passado comunica-se com o leitor de agora; a vida vai em dia.

Não se rogue simplório, que o engenho humano pode tal desleitura: o ser humano que era um antes de dormir está feito outro ao despertar, uma vez que há passado pelo mundo dos sonhos.

A travessia dá sentido à transfiguração: a pessoa que sonha é quem se lembrará do sonhado. Conquanto se apresentem distintas, a que se recorda é, mesmo e ainda, a pessoa que sonha.

Em outras palavras: a um só tempo, o ovo é a galinha.

Galinha cacareja, mas não voa. Cisca, busca minhocas, bica o que pareça comestível. Ave que não voa, será por que tem coxinha na asa? Ou será que comer o que surja no chão ciscado torna-a apetecível por demais da conta?

Se galinha é bicho engraçado, desengonçado, é o galo que irrita ― cantando na aurora, interrompendo o sono, revelando que sonho dura uma eternidade quando a gente dorme.

O esperado era acordar tranquilo, pois dormira bem. Fora pra cama bem depois de ter comido uma banana, uma maçã e outra banana. Já enfiado no pijama, não se abstivera do rotineiro copinho de leite trazido à cômoda há instantes.

Sem aranhas pondo ovos nas crateras dos molares, ideia supimpa é, sob os cuidados de gente que domina artes culinárias, o cantor das alvoradas virar ensopado mui delicioso.

Na falta de sopa, a omelete será feita com dois ovos, duas fatias de muçarela, cebola picada, a pitada de sal, o choro de orégano e argúcia pra manipular os materiais.

Pra completar, a salada precisa ter o cinto de utilidades do Batman ou a capa do Superman?

Por tirar fina das mãos tão ansiosas para destroncar-lhe o pescoço, é simples, basta Homer ter os abanos do Pateta.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de julho de 2024.

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