O
satânico Damasceno
Tenho consciência do meu lugar no mundo.
Falei em mundo? Peço desculpas, não
agrado nem a turma do bar. Nas noites de quarta, venho ver jogo. O problema é
que não resisto de comentar os lances, e o pessoal me olha enviesado. Pra eles,
a melhor coisa que eu deveria fazer é ficar sentado lá no fundo.
Me permita a sinceridade, porque não vou
esconder que me dá um gostinho bom isso de irritar essa gente.
Não me entenda mal, quando eu me refiro
a essa gente, parece que pode soar de modo que eu esteja querendo ser desrespeitoso,
mas eu não espero isso.
Como não sou de gracejos bobos, não
suporto gente que desdenha de mim pelo que digo.
Sou igual a todo mundo, por isso trato
de exigir que me tratem como gente igual a toda gente. Quero ser aprovado pelo
que sou, porque eu sei que sou apenas mais outro camarada pedindo para ficar nessa
roda sempre animada.
Mesmo que o pessoal insinue que eu deva ir
sentar a quatro metros, sei que eles são gente bacana. Isso de não esconderem
que entendo bulhufas das dinâmicas de uma partida de futebol, isso dá a mais
clara demonstração de que são pessoas que merecem o meu apreço.
Compreende o ponto?
Quando falo besteira, tudo bem, eles
riem. O chato é quando encho o caco e não paro mais de bancar o esperto. Parece
que quero atenção a qualquer custo. É aí que o parafuso espana e a cabaça roda
em falso, como se falando mais, bebendo mais, eu desse conta do enguiço. Mas aborrecendo
todo mundo, eu inclusive, paro de perceber que moringa que transborda não reserva
cachaça, desperdiça-a.
Caramba! Mais que nunca, eles agem
corretamente comigo.
Pra você pegar bem a base do meu
argumento: teve uma vez, e foi essa a primeira de muitas outras vezes, que o
dono do bar saiu detrás do balcão e, abraçando do jeito necessário, me dirigiu para
fora do bar e mostrou qual o caminho de casa.
Você pode achar que fiquei bravo com a
situação.
Fui embora contente, porque o dono não renunciou
à prerrogativa de estabelecer limite. Ele precisa do ambiente funcionando normal;
eu estava desequilibrando a coisa toda. Em vez da partida merecer o foco
principal, esta aberração agia com a monstruosidade de me considerar o umbigo
do mundo. E fui embora contente, porque ele lidou bem com este bêbado que não
parava de provocar essa gente simpática.
Percebe que, no fundo, a razão sempre esteve
aliada a eles?
Para resumir a coisa toda, lembro da
primeira vez que entrei aqui. Foi num sábado à tarde, a rodinha conversando descontraída
junto do balcão. Não havia um cristo que pensasse duas vezes ao criticar o que
fosse, aliás em altos brados, daí o que azeitava as cordas vocais eram as brejas
geladas.
Diante daquela cena, seria desastroso se
hesitasse. Roguei ao bom homem atrás do balcão que a mim não se furtasse de cobrar
a próxima rodada. À roda, aliás, fiz a graça de me apresentar:
― Damasceno, Caio Damasceno.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 14 de julho de 2024.