domingo, 9 de junho de 2024

A doce vida

 

A doce vida

 

A Mariana que encontrei ontem estava radiante. De modo nenhum, ela não me encantou por estar fazendo compras. Prefiro segurar esse comentário ― que bugigangas nos fazem esquecer do mundo que nos arruína a pouco e pouco. Ao contrário, da minha amiga emanava o quê de sapeca, de pimentinha, que ela, já garçonne gris, soltava um frescor da Liza Minelli por seu baita sorriso Cabaret.

Apesar de sapatilhas, collants e tiaras comporem uma das gêmeas na alegria bailarina de uma vovó toda orgulhosa, na cena eu vislumbrei a minha semana: os dias sorriram e eu sorri de volta.

Até me contenta a constatação: a semana foi tranquila.

Os pequenos percalços não apagaram em mim a alegria de sorrir. Nenhuma topada em quina foi impedida por gesto brusco, pois transitei suave pelas esquinas. Eu não me vi entristecido por frustração alguma, eu fluí, fui esse rio a passar discreto, murmurante, benfazejo.

De segunda a sexta, o meu mundico foi essa extraordinária avenida de semáforos abertos. Não tive que buzinar a cães, não precisei xingar ciclistas, não atravanquei as veredas de pardais, joaninhas e abelhas.

Caramba! Também estou orgulhoso. Putz! Sem afetar vaidadezinha vulgar, fui bom. Cáspite! Ontem e hoje, sou outro exemplar de pedestre que se preocupa em respeitar regras e malabares.

Posso dormir em paz, pela certeza de ter-me responsabilizado pelo mandamento cívico: não atropelar nem ser atropelado, ter mais um dia de cidadão civilizado.

Afinal, a civilização nos dá a cultura do diálogo, do abraço afetuoso, da palavrinha amiga no gesso de quem chuta o pé da trave.

Não faço pouco dessa gente tão sincera que nunca solta capucheta porque acha coisa de pobre empinar papel que embrulha pão ― óbvio, se houver filões e haja, mais óbvio ainda, moleques.

Que semana! Eu consegui não ser moleque nem fazer molecagens. Nem parece que sábado foi ontem, que nem comi pizza nem vi futebol na TV. Vivi uma semana diferente, que nem paguei bebida a ninguém, nem fui ao bar nem tomei uma caipirinha na feijoada. Que sábado!

A semana é de segunda a sexta, o sábado é pro descanso.

Já o domingo, hein? Eu não enfio o domingo na matemática do dia a dia. É espaço fora do tempo, das rotinas cósmicas, porque o domingo eu tiro para cortar as unhas, manter a careca careca e cochilar quando o cochilo chega. Não passo aperto com domingo algum.

Carambolas! Ao fim e ao cabo, eis a que conclusão eu chego: estou vivendo um momento único, vivo uma semana de sete domingos, algo que nunca tinha vivido, uma fenda na minha vida, um domingo que não exige que outro o siga.

Isso faz crer que, já que mergulhei neste instante, voltei a mim que não olho pra trás, não cantarei rosas murchas, não dissecarei bezerra morta, nem negarei que a felicidade é um domingo tão meu, sem praia, solidão nem tédio.

Que belo domingo, bem regado a Pimentinha Sessions.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de junho de 2024.


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