domingo, 5 de maio de 2024

Travessura inocente

 

Travessura inocente

 

Se desejasse agradar o diabo, eu mesmo continuaria como estava, não pondo em dúvida que a performance é realista, que emulo estátua que porventura a minha memória preserva sem que me recorde a que personagem represente ou onde esteja erguida.

Evidentemente lasso, estou sentado. Sem tocar no copo, deixando a cerveja esquentar, vejo a TV. Peço que troquem o meu copo. Mando trazerem outra garrafa. Torço, que não mudem de canal.

Em Copacabana, montam o palco no qual uma famigerada estrela se apresentará para um milhão e meio de não pagantes. A mulher tem sessenta e cinco anos, quarenta de estrada pop, e não sei lá quantos chicotinhos na bolsinha de látex.

Bem percebo pelo alvoroço, a danada não rebola só pelo prazer de sassaricar a sua graça nas areias tupiniquins, a musa, imaculadamente sapeca, sabe se manter estimulante à idolatria.

Mamma mia! Que entusiasmo colossal será rebolar para um mar de fãs. Quando rebolo, só rebolo pro espelho. E olhe lá, bambina.

Não é nenhuma aventura contar que pensava na apresentação da bomba loira quando Luisinho veio interpor sua barbicha grisalha entre as minhas retinas vidradas e a TV.

Viver é ser interrompido por inconveniências.

Por inconveniente, o meu amigo sentou sem pedir licença, pôs mais sal na porção que nem se acanhou de beliscá-la e passou a elogiar-se das coisas boas que andava fazendo desde manhã.

Sentar pegando da batata alheia e anunciando o quanto era irritante todo aquele circo em torno daquela americana botoxilizada, isso tinha a cara do Luisinho, cujo maior talento é criar rusgas à toa.

Seria bom se não o contrariasse, que ele chegou pilhado. Ainda que reze mesmo sem se ajoelhar, ele é mestre em contestar.

Ele não suporta vê-la na pele de vestal: tão carnuda, a virgem dos lábios bombados, a pouco zen, amante de carne malpassada.

Ao me ver sentado sozinho, bebendo sozinho e comendo sozinho a porção grande de batata frita, o amigo preocupado com a saúde deste camarada acha por bem agir.

A ele importa: que eu dê vazão às minhas angústias, ou não estaria isolado; que não me faça avesso às minhas mágoas, ou estaria sóbrio; e, sobremodo, que não lhe sejam negadas as batatinhas.

Não o impeço que coma, beba e tagarele. Nem assim o amigo baixa a bola, uma vez que veio investido de ranheta a fim de criticar tudo que ache certo espinafrar.

Depois que meu irmãozinho foi-se embora porque a porção acabou, Aristeu junta-se a mim na mesa escondida.

Aristeu aposta que a Madonna não fará o espetáculo no Rio, que o buchicho é publicidade para artista em fim de linha, que adiarão o show por conta da calamidade gaúcha, que haverá de ter um juiz que proíba imoralidades na TV.

Por decadente, me extravia a indecência? Na impureza de me atirar a quem seduz à sombra, não me sinto iluminado?

Louco de batata, like a virgin, sacudo a minha cintura dura.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de maio de 2024.

quinta-feira, 2 de maio de 2024

Só me faltava essa

 

Só me faltava essa

 

Por falta de alternativa, o mais pacato possível, liguei o carregador na tomada, verifiquei que estava ligado, pus o telefone na cômoda, me deitei sem resmungar além do costumeiro.

Por falta de equilíbrio, o menos afoito possível, fiquei deitado, cocei os olhos, por nada, por alguma poeira, por ser necessário ficar deitado bem mais que um segundo, porque tenho esse hábito de ficar na cama até que os cachorros do vizinho se aquietem.

Por falta de paciência, o mais sereno que me houvesse de imaginar, virei contar o que não sabia por onde ia, fui indo de palavra em palavra, que rascunhar mentalmente uma história seria a maneira de conquistar a paciência que eu precisava.

Por falta de assunto, o menos tenso possível, pigarreei sem motivo, cocei os olhos sem razão aparente, a história foi interrompida à altura que nem sei se no meio ou no fim, porque as minhas mãos resolveram que seria bom escorar a cabeça, embora o travesseiro nem precisasse ser afofado, eu o afofei, sentimental.

Por falta de sono, o mais inteligente que houvesse de fazer, retomei a história, que havia uma menina batendo pênaltis, chutando a bola na parede, calmamente ela ajeitava a bola, contava sete passos para trás e desferia uma bicuda, imaginei-a que batia na bola alternando os pés, e que isso bastava, que era tudo.

Por falta de inteligência, o menos patético que achei possível, fui à janela, vi que os cachorros da casa ao lado corriam ao longo da grade, latiam por nada, pra ninguém, mesmo que não passassem pessoas ou automóveis, aqueles cães não paravam de correr ao longo da grade e não paravam de latir, ainda que não houvesse nenhum monstro na rua, na calçada, junto à grade.

Por falta de luz, gritei, e foi debalde que eu gritei.

Por falta de banho, o mais razoável que entendi, tirei a roupa, entrei no chuveiro, lavei-me todo, ensaboei-me todo, medi o que incomodava, que era os cães da casa vizinha latirem pela fome que sentiam, que eu precisava fazer o certo, que era dar comida àqueles cães.

Por falta de coisa melhor para fazer, o menos hesitante possível, fui dar comida aos coitados, mas eles continuaram a latir, pularam contra a grade, pularam na direção da vasilha que coloquei no chão.

Por falta de comida, o mais ligeiro que pude ser, voltei, fiz o almoço, comi o que pus no prato, julguei o que tinha feito, pensei que o menos doloroso seria confessar minha burrice, porque só um tolo confessaria que ração possui o poder de domesticar cães coléricos.

Por excesso de sensatez, por ser “sem destino a trovejar espantos”, quero-me sensível, permaneço na janela, e sigo vendo as gentes indo pelo feriado afora, elas vão comer lasanha, pedirão coelho assado, vão saborear um saborosíssimo sorvetinho de pistache.

Esperar que o rapaz de tênis ensebados saiba passar ‘bigode’ para ‘mustache’ não é bárbaro, é um prêmio.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de maio de 2024.

terça-feira, 30 de abril de 2024

Desde aquele jogo

 

Desde aquele jogo

 

Conheço aquele sujeito há muito tempo. Por baixo, temos convivido há trinta anos. Fomos colegas de escola, íamos à missa aos domingos, tomávamos sauna no clube que éramos sócios, até dei seu nome a um chihuahua que eu tive.

Meu cão morreu que nem lembro quando; ultimamente o camarada me encontra quando não quero papo, quero pílula pra dormir.

Outro dia, a criatura achou de apostar na lotérica que fica em frente do bar onde eu bebia. Não escondi a cerveja, ele guardou a carteira.

— Que surpresa, Marcondes!

— Quanto tempo, Aristides!

— Tá pensando em ir nadar com tubarões em Aruba?

— Tô precisando pegar sol nem que seja no Gonzaguinha.

O avatar da boa fortuna tem a comichão de gastar o que não deve, suando pra não ser enforcado pelos juros do cartão. Em outras palavras, perde quem o acha filando breja a dois passos de uma lotérica.

Nos esbarramos na fila da Mega acumulada. Essa fora a última vez, no último sábado de março de 2020; guardei a data, pois só o comércio essencial não teve que fechar no início da Covid-19.

Depois do nosso pileque, os boatos sobre o paradeiro do Aristides pipocaram. Que ele foi o único ganhador da Mega, aquilo pegou, virou epidemia. Ele sumiu, mas eram autênticas as fotos numa cidadezinha francesa, isso viralizou que nem rastilho de pólvora.

Imaginá-lo comendo escargot? Se arranhasse francês... Projetá-lo num iate na Côte d’Azur? Se soubesse onde Cannes fica...

Sobre a quina que ganhou, o boboca garganteou. Vieram parentes, amigos, parentes dos amigos, todos com problemas que só o dinheiro para saná-los. Por suas mágicas de santo, cuja santidade era medida pelos zeros debitados à filantropia, o ídolo teve a aura evaporada.

Ao nos abraçarmos, na semana passada, obtive a comprovação da suspeita, que santo de carne e osso adora abraços quando um devoto lhe paga a cerveja.

A festa pagã rolava sem traumas, mas algo rompeu o lacre e a arca dos segredos deixou escapar um fantasma.

Eis que outra vez alcancei a iluminação: bêbado que desconheça a força mental dos próprios alagadiços pantanosos é lenda.

Como não lhe conviria reprimir o metano que pulsava na sua mente, Aristides contou como tudo começou.

Num dia qualquer da sua infância, ele entrou na sala pisando firme. Para trazer à tona o que vislumbrara enquanto observava um mosquito sendo devorado por uma aranha, ele trazia uma tesourinha sem ponta, uma caneta e uma folha de papel.

Aristides se esquecera da régua, correu pegá-la.

Ele mediu, riscou retas, cortou quadradinhos, numerou-os de um a sessenta.

O menino pegou o chapéu de palha que o pai usava nas pescarias, jogou os papeizinhos dobrados na boca da copa do chapéu, sacudiu-o como se garimpasse e tirou seis pepitas.

Sem olhar pra trás, encantado, foi à lotérica e apostou.

Sozinho, riu da fraqueza transcendental que o fez captar as falsas dezenas.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 30 de abril de 2024.

domingo, 28 de abril de 2024

Passeio pelo raso

 

Passeio pelo raso

 

Pessoas amigas, aquelas festivamente próximas, sabem que o meu peito abriga um pirata oitenta porcento fanfarrão. As íntimas me acham na enseada em que, fundeado, flutuo ao léu da brisa. Um porcento de mim, nessa clareira onde gota d’água é oceano, são extraordinárias as amadas que, por palavras, imagens e silêncio, afetam minha bússola, desnorteando-me.

Por temer naufrágios, saio para respirar, não para tomar sol.

Respiro, logo sou simpático a quem venha bater papo. Por conta da fome que não sinto, sendo pego comendo churro, preciso de um tempo para, na conversa, eu não ser tão indigesto.

Às vezes as ironias azedam; ou arroto, facilmente distraído.

Seduzido, sentado no banco de frente pro coreto, chapinho na beira do mar, escuto as aves marinhas, vejo surfistas curtindo as ondas, de vez em quando uma onda traz a espuma lamber meus pés, nem assim desisto do prazer de lagartear ao sol. Ainda que o sol narcotize, sendo esse sol às três, respiro enquanto mastigo.

Não surfo nem mergulho, não me quero engasgado pelo churro que eu como. A imaginação me diz que tenho os pés enfiados num riacho, aquele riachinho que não me apavora, embora corra além da barraca de churros, não deixo de gostar do sol, desta praça sem areia.

O riacho existe, corre nos fundos do terreno onde fica a minha casa. Tal riacho não me faz aguar a boca, o churro faz. Lambo os lábios, me delicio com a mente ao senti-la aberta, arejada, iluminada.

A cachola digere o que tanto lhe apraz. Sou a maré que me embala ao sabor das vontades.

Não vim iludido.

Tendo achado, já pela manhã ao tomar café, que hoje poderia ser um dia de churros depois do almoço, me entusiasmei.

Quando eu saísse para pagar alguma conta, ou resolvesse comprar o que nem está faltando. Uma vez resolvido, aceito que vou ao churro mais próximo. Nem abrirei o armário da despensa, pois nem precisam faltar o arroz, o pó de café ou o que seja que realmente esteja faltando, vou ao churro sem nem mesmo querer ir ao supermercado, irei apenas para não me ludibriar, que saí de casa somente pelos churros.

Vou ao supermercado porque preciso de trocados. No momento de pagar a moça dos churros, quero dar o valor exato. Com isso, ganharei um sorriso. Porque espontâneo, será um belo sorriso. Me satisfaço que o sorriso da moça me leve a pensar que sou um cara bacana. Uma vez que ela me considere um bom sujeito, eu também sorrirei.

É tudo uma questão de organizar-se e agir segundo o planejado, aí churros não assoreiam o pensamento no instante de reforçar que o sol brilha gostoso, aí nenhum arroto será conveniente quando a conversa cansar, aí a pessoa voltará para casa pensando mal, mas a tarde será mais que um encontro maçante.

Como só churro não basta, politicamente educado é falar de boca cheia sobre a deliciosa e espetacularmente caprichada esfiha assada em forno à lenha.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de abril de 2024.

quinta-feira, 25 de abril de 2024

As boas intenções

 

As boas intenções

 

Repare bem, mas ao reparar, tente disfarçar. Não entregue de cara o que pensa. Faça com que acreditem que não tem tanto interesse no que inegavelmente a motiva a mascarar-se. Olhe e sinta. Procure não transparecer a ansiedade. Ansiosos caem ao primeiro passo, nem bem abrem a boca para afetar indiferença. O que valoriza é ter compaixão, faça ver que se controla ao dar-se em compaixão. Como o tamanho da dose acarreta o efeito, não se empolgue. Condoa-se sem humilhação, dê a ver que tem compostura, que raciocina, que não se precipita nem escancara o pasmo de se envolver, comiserar-se, compreender.

Compreenda e seja compreensivo, embora a pessoa esteja morta, você não. Deixe ver que mantém os pés no chão, ainda que as nuvens sejam leves e ligeiras, são elas que barram a luminosidade excessiva. Demonstre-se adaptado ao sol do meio-dia, que o seu olhar traduz-se como nuvens. Embora a pessoa esteja viva, mantenha-se apática.

Apiede-se, note o olhar carregado de lirismo da pessoa que espera. Ela aguarda que aclare o porquê da desolação que magoa, espera que se coloque na pele de quem sofre. Solidária, revele-se outra pessoa a sofrer por amor. Fraterna, mostre suportar-se covarde.

Embora seja uma pessoa movida a trivialidades, seja complacente, sorria, ponha no rosto a cara amiga de quem entende o sofrimento de quem ama. Mesmo que o amor por vezes seja impiedoso, sorria.

Quando convém que a lição seja passada pela carne que transpira, torne-se nuvens. A quem ama seja o olho d’água, que a sede aplacada aquiete o coração aos pulos. Aja como se não invejasse quem ama em tal grau e intensidade, de trazer o coração pulsando a mil. Aja como se não amasse, não buscasse consolo nesse amor invejado. Faça ver que convém se acalmar, entediar-se, dosar o amor que desconsola.

Porque o tédio cicatriza, não apaga o sorriso magoado, cuide-se.

Diante de quem ama sem pudor de revelar-se inconsolável, sorria, demonstre saber que o amor pode ser curado pelo entediante, pelo dia a dia que não conhece píncaros nem fossas. Porque o ardor da pessoa morta em vida quer a melhor saída pro que não tem solução. Porque a solução talvez seja a porta às costas, quiçá a mais próxima.

Endireite-se, mostre o quanto compreende, que se irmana à pessoa que sofre. Seja lírico, diga palavras que tranquilizem. Lírica, ela anseia que o amor não a consuma, seja água à alma que arde. Amorosa, seja a mão mais serena a segurar as mãos que tremem.

A pessoa deseja, não a afronte. Quando quer refrescar a garganta, ela não deseja o gole d’água. Se se recorda do balanço, não lhe aponte o sangue nos joelhos. Na falta de ar, passe-lhe um café. Se a cachola desespera da paixão inconsolável, leia um poema.

Para que a pessoa possa amparar-se no invisível, pelo indizível do que ama, sinta que se retirar à própria miséria é um sinal de amor.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de abril de 2024.

terça-feira, 23 de abril de 2024

A foto do aniversário

 

A foto do aniversário

 

Quando penso que terei um banho de sol no quintal, que nada. Há isso e aquilo para reparar, limpar, reparar melhor. Tenho as unhas dos pés para cortar. Tenho e-mails pra responder, e para nem abrir, muitos. Há papéis de bala e um palito de dente à espera de que o cinzeiro seja limpo. Por que mantenho um cinzeiro se não fumo nem fumantes vêm ao meu quarto? Ainda que o sol continue esplêndido, limpo o cinzeiro, batendo-o na borda da lixeira ao lado da escrivaninha.

Fumar eu não fumo, todavia escrevo.

E junto papéis, cartões, fichas e papeizinhos, todos juntados porque neles rabisquei. E tenho garranchos a decifrar. Vejo uns; rasgo os sem futuro. Leio outros, e há os salváveis. Salvo o seguinte:

A foto registra um pai sorrindo pra câmera, ao lado da menina que está no colo da mãe, ambas sorridentes. No bolo sobre a mesa há uma vela acesa, pois a criança de colo completa um ano.

Mesmo batida, é com tal cena que faço a ciranda rodar. Para não a deixar abafada pela banalidade, reescrevo-a.

Como legenda à fotografia da menina de colo, Adamastor comenta que é feliz porque tem uma família que o completa, pois sua felicidade vem da felicidade da esposa e dos seus filhos, da menina mais velha, do menino do meio e da sorridente que faz um ano.

Releio o que está escrito. Formulo ideias, descarto muitas. O início reescrito pode ser aproveitado. Aproveito-o, e o retomo:

Sob a foto publicada na sua página, Adamastor comenta que a festa é porque a sua filhinha faz um ano.

No mesmo minuto, Adalgisa, a irmã cinco anos mais velha que ele, dá os parabéns à aniversariante, deseja que ela brinque até cansar e, cansada, deixe a casa em paz, pra que todos durmam em paz.

Em paz, Adamastor marca a leitura com um like.

Um minuto depois do comentário de Adalgisa, Maria Eduarda, feliz pela felicidade do tio, comenta a foto: que criança linda é a Ana Maria, que Deus lhe conserve a saúde do sorriso encantador, que a vida traga mais alegrias que tristezas, que tudo ocorre no instante em que precisa acontecer, pois Ele quer o melhor para cada um de nós.

Deus sabe, sim, o que é bom para cada um. Adamastor, sua menina trilhará o caminho de tijolos amarelos da felicidade. Ela viverá dias de liberdade, sem acabar morta por bandidos, que não viverão no mesmo mundo que nós.

A mensagem foi apagada dois minutos depois de publicada. Ela foi postada por Sérgio, o cunhado mais triste de Adamastor e pai de Maria Antônia, a falecida irmã de Maria Eduarda.

Sérgio republica a mensagem escrita há minutos, com o acréscimo: Adamastor, a Ana Maria conhecerá a glória de viver cem anos!

Altair, irmão caçula de Adamastor, pede que sejam publicadas mais fotos, aquelas nas quais a felizarda do dia apareça com a boca suja da cobertura do bolo, alguma em que esteja gritando de tanta alegria, uma que seja na qual você sorri, uma em que você deseje sorrir.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de abril de 2024.

domingo, 21 de abril de 2024

Retrato do cronista como cão danado

 

Retrato do cronista como cão danado

 

Ainda que os cientistas não tenham instrumentos para calcular com que regularidade dá-se a sua ocorrência, no norte ocidental do Oceano Atlântico, a figura recorrente do Triângulo das Bermudas tem vértices fincados em Miami, Porto Rico e nas Bermudas.

Bermudas é topônimo forte, que ilumina a busca nos mapas-múndi, além de qualificar como cafona o visitante desembarcar no território de terno ou tailleur.

A 6.492 km do marco oficial colocado no parque Albuoy’s Point, em Hamilton, na Grande Bermuda, o sumidouro a que consigo chegar sem morrer tentando é o cruzamento à esquerda de casa.

Às segundas, após o trabalho, no boteco menos agitado, na euforia de regurgitar abobrinhas, assim que o meu cérebro começa a fundir o avesso no direito, o sumo é dar no pé, daí, eu sumo.

Se eu tenho que me ausentar de corpo presente, bêbado ou sóbrio, eu murcho na presença de quem vive de chateação. Ainda com sol, os chatos amolam porque eu estou descalço; ao me pegarem de bermuda na madrugada, os estridentes rejubilam-se, estarrecidos. Temperantes ou ébrios, tais aporrinhadores são cambada desmancha-prazeres.

Segundona de garoa fininha, com a batota de boêmios no batente, o ambiente está preparado pra receber os chatos mais chatos que todo mundo rechaça. Porque aparecem, faça-se a graça de outra rodada; a eles não havendo copos lavados nem banquetas livres.

Com três deles à mesa, isolados no fundo, não conversam, opinam; sentenciam, não debatem; ainda que não tenham razão, são coerentes o tempo todo; carentes de ser ouvidos por toda gente, discursam.

Nós seguimos iguais. Ao jogarmos conversa fora, bebermos cerveja e beliscarmos salaminho, sem ambição de sermos odientos, mofamos de quem corta nossa prosa mansa.

A TV concentra. E criticamos as linhas míopes do VAR; saudamos o Dulcídio Wanderley Boschilia, lembramos Romualdo Arppi Filho, mas não fazemos menção ao Armando Marques; com extrema simpatia, de Santos e Portuguesa, os penalizados campeões do Paulistão ‘73, não rimos de ambos, e, apesar de terem acatado o decidido pela FPF, não os menoscabamos.

Saem os três do fundo; faço o mesmo, mas digo boa-noite.

Não sei que bicho me pegou. O quarto roda, a cama roda, a cabeça roda. Enrolo a língua ao falar não sei que bicho me mordeu. Babo que molho a fronha, viro o travesseiro, livro-me dele, e rodo sem parar.

Babar ou salivar?

Tomo uma ducha, a minha ducha rápida vira banho. Sento no box, sinto estar numa banheira. Ficarei sentado até que abra os olhos sem ter vertigem, sem ânsia, sem querer ligar pro amigo mais amigo pra lhe dizer, não vi quando batizaram a minha cerveja. A ele não confessarei que poderia ter visto os paspalhos como cães do inferno, que eles não eram três, são um. Com antirrábica em quatro doses, doravante serei eu o Cérbero, nem agulha vai passar.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de abril de 2024.


sexta-feira, 19 de abril de 2024

Migalhas

 

Migalhas

 

Um pouco, só um pouquinho, me vi dando uma força à varanda pra que não fosse vista ao deus-dará. A princípio nem me ative ao esforço que seria varrer, fui chutando a baratinha até a escada. Eu deveria ter recuado do impulso, mas emendei uma bicuda. Tive uma distensão, só pode ser isso. Pelos repuxos na perna, boa coisa fez a morta em sumir da minha frente.

Depois desse apuro de fazer uma benfeitoria sem trair a vadiagem, estou em vagabundagem domingueira, tô largado na rede.

Mané late. Num instante, ele late que late, e forte. O manhoso altera o latido para que eu o entenda, que ele quer aquela voltinha.

— Vamos, já entendi. Seja compreensivo, Mané.

Manco pelo bairro, mas não saí pra sossegar a cachola. Está fixa a ideia de que a energia mental interfere no condicionamento físico, pois eu posso mais do que me contentar em alisar a barriga.

Segundo a veterinária, o meu pug e eu precisamos andar uma vez por semana, um em companhia do outro. Entretanto, andar como quem caminha, dando à passada o ritmo de quem se exercita porque precisa. Pessoa consciente do bem que faz para si mesma, desdobro o bem à sociedade. Perder a pança, os demais podem até me desafiar.

Não considero a caminhadinha dominical um desafio. Mentalizo que descubro o dia novo em mais outro, que as descobertas são revolução cotidiana, são novidades extraordinárias que aprendo a vivenciar.

Para o bem maior que a convivência empática há de produzir? Ao menos por uma hora, que zanzemos sem zanga.

Mas o Mané produz fezes. Recolho os produtos; a sacolinha vai pra lixeira. Isso que dá sorte pisá-las no passeio, isso é balela, pois resulta fedorenta a sola do tênis lambuzada dos restos. Lixeira é arca de ouro a varejeiras; xô!; com as alças, dou um nó na boca.

Olha-me o cãozinho, que o meu olhar não o fulmine. Quero crer que me apresente tolerante o bastante para que o Mané enxergue em mim a pessoa que dissemina a pressuposta camaradagem de tutor.

— Mané, não abane o rabo porque me acha um vadio. Aceitaria ser vadio se não saísse da rede, não limpasse a varanda, não puxasse da perna. Se vim de carona, vim porque sei o meu papel no seu teatrinho. E dou função em público, pois sei tirar proveito da boa imagem que me prontifico a passar.

Mané e eu paramos. Comi noventa e nove porcento do pastel, meu companheirinho lambeu-se das migalhas.

De repente, o cão coça a orelha com a pata.

— Não seja cínico, Mané!

Seu Rodrigues, a orelha direita está do lado direito do corpo, o que não significa que o cãozinho insinue conservadorismo, mau-caratismo, direitismo atávico. É saudável não tripudiar sobre o cão ter nascido pro ócio. É positivo gozar de lucidez, pois ‘fundamentar’ não é ‘justificar’, e ‘entender’ é radicalmente menos fraternal que ‘compreender’.

— Quando me dá na telha, sou ocioso. Tenho muita ociosidade pra ilustrar o careca que eu sou, Mané.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de abril de 2024.

terça-feira, 16 de abril de 2024

Ascendente

 

Ascendente

 

Minha amada Madalena tem muito amor por mim. Tanto ama a esse pateta que os nossos amigos qualificam-na uma santa, cuja santidade brota, segundo eles e eu próprio, da paciência claramente delimitada pelo que sente por mim, o seu idiotazinho.

Madalena minha querida quase não se irrita comigo, ainda que não a entenda pelas coisas mais ordinárias que me são pedidas, como ser eu a pessoa que precisa ir comprar pão antes de nos sentarmos para o café da manhã.

A minha muito amada Madalena sabe que questões filosóficas que não compreendo me concentram no irresolúvel que é pensar a vida, o que irremediavelmente me distrai das tarefas cotidianas, como lavar as mãos depois de pagar a padaria com as notas carregadas de bactérias pelos muitos anos em circulação.

Lavo as mãos porque a respeito. Obedeço-a porque ela sabe o que seja o melhor para mim, e infecções costumam dar na gente quando a nossa mente está obcecada com a validade moral do que escolhemos para nós, que somos fiéis servidores de quem muito nos ama.

Madalena nunca duvida de que sirvo para muita coisa.

Se lavo as mãos, enxugo-as na toalha da mesa ou ela não acharia razão de esculachar-me. Se respondo ao esculacho, ela não só levanta a voz, bate com o indicador onde fica o terceiro olho.

Se o meu cálculo for preciso, o toque nunca erra do ponto certo em minha testa, que é o cume do triângulo equilátero projetado por mim a partir das extremidades internas das sobrancelhas.

Eu mesmo disse à Madalena que o universo se comunica com cada uma das pessoas do planeta através desse orifício espiritual. A energia penetra na epiderme, flui pela carne das fossas nasais e exalamos. É privilégio humano nós atuarmos como esse veículo.

Minha adorável Madalena sabe como lidar comigo. Mesmo quando fico encarando a página de um livro por cinco minutos, mesmo que eu nem pisque, ela torna concreto o livro, fechando-o por mim.

Só quem ama com paixão sabe o quão significativo é tirar das mãos da pessoa amada um objeto cujo encanto seja por demais inebriante, pois o amor precisa abalar a mente hipnotizada que nem mais se dá a perceber já submissa, então paralisada.

Há quarenta e nove anos Madalena e eu celebramos o nosso amor com um jantar. Este ano comemoramos as nossas bodas de ouro com este jantar no mesmo restaurante.

E nos conhecemos à saída do Satyricon do Fellini. E se o pipoqueiro servisse garapa, nós também a tomaríamos.

Nos entendemos, porque não nos entendíamos com isso de querer pipoca e garapa após assistirmos àquela fita que muito desafinava com nossa realidade: sem carteira assinada, ela era ascensorista no edifício em cujo topo funciona o restaurante onde jantamos; me envaidecia ser o anônimo responsável pelo horóscopo.

Ao fim e ao cabo, a Madalena que se casou comigo é a mesma que me faz canalizar o poder dos astros ao brindar com espumante.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de abril de 2024.

domingo, 14 de abril de 2024

A semana

 

A semana

 

No sábado, eu estava na fila do açougue quando um desconhecido não chegou chamando o açougueiro pelo nome, chegou dando tapas no balcão, chegou dizendo que não tinha a manhã toda para ficar numa fila, pois deveriam ter vergonha de fazer um senhor de sessenta anos ficar esperando que cortassem o quilo de carne que pedira há mais de dez minutos, que iria reclamar, iria pôr no Face o nome do açougueiro, que denunciaria o abuso com um freguês antigo, pois era um desplante vergonhoso.

Desplantados ficamos nós, as pessoas que usamos da maquininha para sermos atendidos conforme à chegada.

Ainda bem, a sexta-feira foi diferente.

No mesmo supermercado, na fila do pão, as pessoas postavam-se uma atrás da outra, todas cumprimentando antes de pedir e após ser atendidas, ou seja, era aquela rotina que dispensa uso de senha.

Como se todo mundo se comportasse por modos urbanos, a manhã fluía tranquila até chegarem aquele homem e aquela mulher.

— Não foi isso que eu quis dizer.

— Você é que tem essa mania de distorcer tudo o que eu falo. Você adora ouvir o que não digo. Se ouvisse, não estaria implicando comigo na frente de todo mundo.

— Se você não disse o que disse, então o xarope sou eu.

— Pelo amor de Deus, Carlos Alberto. Pare com isso, porque estou cansada disso, com o senhor apelando mais uma vez pra esse recurso batido que é a insinuação de que eu sou doida.

— Eu é que não banco o maluco, Zefinha.

— Deus! Vê se me ouve, meu amor. O que eu mais quero é ter uma horinha sem discussão boba. Pra que esse circo todo?

— Cale a boca!

Cobrindo as orelhas com as mãozinhas em concha, a menina disse à mulher que estava incomodada com o bate-boca:

— Quero chocolate, mamãe.

Sem afetação, a mãe e a filha saíram de cena.

Não foi porque compartilharam que eu assisti ao vídeo. Eu só fiquei interessado em assisti-lo pela revolta na rede. A repercussão é grande porque o funcionário que o gravou foi despedido.

Embora a maioria foque na coragem da pessoa que postou a briga, há uns poucos que a criticam pela invasão de privacidade.

Para os mais intransigentes, o empregado não tinha nada de trocar o que deveria estar fazendo pela bisbilhotice. Em outras palavras, a lei protege o gerente pela demissão desse folgado.

É domingo, agora me ocorre: ninguém comentou o comportamento de mãe e filha, que escolheram o melhor para si.

Não vou afirmar que elas foram ao setor de chocolates e bombons, suponho que testemunhar aquela discussão não era uma coisa muito agradável para mãe e filha fazerem.

No caso, volto ao sábado, àquele açougue.

Depois de ter visto o vídeo e absorvido a verve dos comentaristas, elegante é terminar a crônica com esta jura: na briga pública pretérita, eu apontara a câmera para quem gravava, pois me rogara o direito de ser o Godard do celular, mas, porque o pusera comendo pipoca, o meu narrador fora econômico, ou emperraria.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de abril de 2024.

quinta-feira, 11 de abril de 2024

Sem exagero

 

Sem exagero

 

Como o universo faz piada, isso não me interessa explicar, mas rio adoidado quando sou pego por compreensão espontânea, e gargalho que nem palhaço se a tal da ‘dissonância cognitiva’ me tira do sério.

Ir da seriedade ao paroxismo é um caminho curto a quem nota que o telefone soa diferente quando certa pessoa liga.

Não é neura minha, o cosmos fala comigo assim como o meu corpo entrega o mal-estar quando cruzo os braços a quem me contraria.

Tocando nesse tom, não atendo. Quero-me preservado de notícias preocupantes. Ainda que desinformado, tenho preocupações que nem essa providente surdez impede-me de captar o que não desejo.

Dizem os analistas que desejo bom é desejo interdito.

Tal pessoa me ligou ontem, não atendi nenhuma das três vezes. Se a ouvisse, perderia o sono. Vem essa ânsia de querer-me sob controle, mas um convite para jogar truco me desnortearia.

Optei por capotar, pois sonífero não sela os meus tímpanos, prega-me à cama. Compreendo: desejo bom é desejo inconsciente.

De todo jeito, se tivesse atendido, enfrentaria um pedaço de costela que fosse, pois não faço desfeita. Como carne vermelha estraga o meu humor, me amaldiçoaria pela fraqueza. E sou tão fraco que a espadilha reduzir-me-ia a um estômago embolado. Ridículo, patético e abismado, eu pediria ajuda a sal grosso e cerveja.

De todo modo, não ouvi nada depois da terceira chamada.

Há pouco, ela ligou mais uma vez. E mais uma vez, não a atendi.

Ainda que a vida não me obrigue a só fazer o que me apraz, almocei e fui dar aquela cochilada no sofá.

Dizem que notícias ruins chegam logo, tal pessoa não ter me ligado mais, então, foi sinal de que a novidade era alvissareira.

Por suspeitar da ignorância, eu liguei.

Sou exigente, só subscrevo o seguinte dito porque acredito que seja uma verdade incontestável: perdoe a si mesmo para que o seu perdão alcance quem precisa ser perdoado.

Perdoo-me por ter sido a criança que fui no meu tempo de criança. Apesar de ter feito meu estilingue, nunca matei passarinho. Apesar de ter entrado em rio, ainda hoje não aprendi a nadar. Ignoro-me covarde, pois são ferozes os cães que latem assim que me veem. Também me quero perdoado pelo abuso de refrigerante entre as refeições. Estendo o perdão a quem me tem censurado, pois vocês sabem o bem que me fazem, não apenas aquele que imaginam.

Ao telefonar, queria lhe contar que no sábado passado tive vontade de comer feijoada. Eu fiquei só na vontade, porque o restaurante onde tem a melhor feijoada estava fechado.

À espera que você atendesse, lembrei que, sem explicação alguma, a iguaria seguia sendo negada à clientela.

Atendendo, você saberia que o mais estranho era o aviso na porta: fechado para almoço.

Cáspite!

É impossível ter gente que resista àquela feijoada, pois o tal acepipe é inigualável, e isso continua irrefutável mesmo à meia-noite.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de abril de 2024.

terça-feira, 9 de abril de 2024

O terceiro pio

 

O terceiro pio

 

Lá vem outra fábula com duas corujas discutindo sobre a liberdade de expressão nas redes sociais quando uma terceira acredita piamente que a solução é não ter conta em plataformas digitais, uma vez que no boteco da esquina ninguém tem obrigação de assinar contrato de uso nem precisa pedir amendoim para falar o que pensa.

Penso. Só não estou seguro de que penso por fidelidade a mim ou ao que anseiam ouvir os meus semelhantes. No entanto, penso e digo: de olhos vendados, não vou atirar ovos em terceiros.

Para que não haja dúvidas, especulo mais um bocadinho.

Entre gente amiga, eu vou fundo, radicalizo, extrapolo, tento tirar a paciência, levanto a voz, mas é um jogo, é somente um jeito de testar os limites da amizade, do amor, da inconveniência ou conveniência de desafinar os coros, quaisquer, os básicos e os ácidos.

Entre estranhos, quando o meu bem-estar fica por um fio, por uma palavrinha a mais, trato de explorar o que me irrita, eu sondo o que me desassossega, esmiuço o que não me alivia, ainda que os ovos deixem de ser comestíveis, pisoteio-os.

Para que a fábula não retorne ao papo como se uma jararaca viesse fazer picadinho daquelas corujas, já ébrias de prosseguir tendo razão em tudo que falam, imagino-me na pele da personagem do Christopher Walken no filme Na hora da zona morta, porque, depois de cinco anos em coma, ela acorda podendo prever o futuro.

Não antevejo o que ocorrerá no próximo instante.

Há duas pessoas falando do campeonato inglês. Cada uma faz sua aposta de qual será o campeão.

Com a Premier League perto do fim, queria ter um cartão de crédito internacional. Como não tenho, estou impedido de apostar. Deixarei de ganhar dinheiro com o clube que levantar o troféu.

Pelo que dizem, a disputa está quente. Há três times em condições de chegar ao posto mais alto da tabela. Pelo que entendo, o pódio vai estar completo: ouro para o campeão e prata para o vice.

— Ganhará o Liverpool porque gosto muito dos Beatles.

— Ganhará o Arsenal porque tem um Jesus brasileiro no elenco.

Penso, e gosto de pensar que futebol é diversão. Ainda que os vinte e dois jogadores não consigam ignorar a equipe de arbitragem, muito me entretém assistir a uma partida bem disputada.

Com gols, bolas na trave, cabeçadas certeiras, defesas milagrosas, marcação cerrada, brechas surgidas por toques de gênio, um amarelo ou outro por conta de empurra-empurra, um 0X0 que não deixa a gente sentada, o 1X0 emocionante até o último escanteio, algumas goleadas surpreendentes.

Que mais eu posso pedir?

As duas pessoas me levam a debicar: esta é a última temporada do Jürgen Klopp como técnico do Liverpool, torço que vença; já o Arsenal não ganha um título há vinte anos, está na hora de vencer; o Guardiola faz história à frente do Manchester City, quero que os citizens vençam pela quarta vez seguida, feito inédito.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de abril de 2024.

domingo, 7 de abril de 2024

A construção

 

A construção

 

A construção começará com um homem descascando uma laranja. Nessa construção, o descascador não será imbecil, será um sonhador. O sonho imediato será tirar a casca sem que o corte seja interrompido. Terá tornado em realidade o seu desejo se conseguir cortá-la sem que a lâmina deixe de tocar a pele da laranja. Este será o trabalho, revestir ações corriqueiras com leveza. Atento e zeloso, o sonhador será poeta, será o poeta das banalidades leves.

Depois de descascar a fruta, a ideia é espremer o sumo num copo. Quer espremer a laranja sem que nenhuma gota caia fora do copo.

Em seguida, beberá do suco. Todo ele será bebido sem imaginar o que se passa lá fora. Será difícil controlar-se porque a sua mente é um cachorro irredutível, um bicho indomesticável, um animal.

O animal que descasca a laranja teme que se corte, mas não para. A faca são seus dentes. A caminhada é dolorosa porque ataca o mato. Os galhos são desbastados pelo gume do medo, porque teme ferir-se. Não quer sangrar, teme que o encontrem. Ocasionalmente, fere o rosto porque a sua mente já projeta um mar mais à frente.

Ele não se lembra de alguma vez ter entrado no mar. Nadar dá-lhe medo porque poderá afogar-se. Debater-se será tirar a faca da laranja, será interromper o corte. Porque o mar na mente é cachorro indômito, cujas ondas arranham, mordem, destroçam.

Assombrado pelo naufrágio, o poeta não se vê como espuma. Gota alguma de sangue lamberá a areia. Cardumes comê-lo-ão. Camarões e lagostas vão alimentar-se do que restar. De modo algum haverá traço de sua passagem. O mar não lhe dará sepultura.

O sangue do poeta gela. A múmia descasca a laranja, pois enfrenta o medo, quer-se à areia. A mente projeta o encontro do náufrago com o andarilho. A mente não petrificada confunde este com aquele.

Tornado um, o sonhador poetiza a jornada. Como sobrevive ao fogo que o gela, o vagabundo que pisa a areia sabe-se a mar e mata.

Bebe de si, bebe-se, bebe do suor que o lustra.

A pele brilha, mas os pés não são raízes. O poeta vê uma passarela ligando mar e mata. A praia não será a sepultura. A brisa não o iludirá. Pra ir da mata ao mar sem afundar na areia, precisa se concentrar. Ao cortar a casca da laranja, é preciso atentar-se concentrado.

O poeta sonha que não se corta, que não sangra, que os tubarões não deixarão o oceano pra dizimá-lo. Os tubarões trabalharão a palha, trançá-la-ão. A passarela será bela porque o sonhador a utilizará.

Quando houver domingo, o construtor de belezas poderá mergulhar no mar sem trazer na pele grãos de areia e ciscos do mato.

Quando for sábado, sem que lhe falte fôlego, o reparador de sonhos subirá numa palmeira para avistar o oceano.

Uma vez descascada, poderá chupá-la. Até o bagaço, há de chupá-la. Pra que reste feito semente, a laranja terá de ser chupada.

Então o poeta verá a sua terra, terá a sua terra devastada.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de abril de 2024.

sexta-feira, 5 de abril de 2024

Jogo rápido

 

Jogo rápido

 

Se eu fosse o cara chato que dizem, teria arredondado pra duzentos degraus. Só que a escalada do térreo ao quinto andar foi calma, afinal a convalescente sabe que esperneio sem motivo. Quando interrompem minha água de coco, dou chilique. Não esperneei pela saliva acre, mas me vi forçado a uma paradinha. Duzentos degraus, só isso?

Subindo, fui matutando quais os assuntos deixarei de abordar. Não falarei do céu azul, uma vez que o quarto tem janela. Não me exaltarei pela selvageria dos cavalos de um Porsche, o controle é remoto porque está à mão. Quase lá, assentei que o papo fluirá espontâneo.

Quem abre a porta é Marcelo, um ex-marido. Sentada na cama está Samira, a esposa. Pra nos beijarmos, a Bel que conheço desde menina abre os braços.

A acamada não sabe dizer quanto durou a cirurgia. Quererem saber qual a sua religião, a pergunta não tinha que ser respondida. Pede que eu veja o que foi extirpado, ele entrega o pote com as pedras. Segundo o médico, logo a dieta incluirá pizza. Os sorvetes voltarão a ser muitos e as noitadas hão de ser de delícias mil e a humanidade resplandecerá; se fosse um cara bacana, o doutor teria dito.

Tive medo de irritá-la. De desapontá-la, não tive. Ainda assim, não passei de um visitante de poucas palavras. Esse medo de contrariá-la quando ela pedia açúcar no mamão, foi isso o que me encalacrou. Pela inconveniência da aparição, foi o que me fez parar um instante durante a subida. Precisei parar porque eu preciso respirar melhor.

Não especularei sobre a rapinagem dos minérios de Essequibo pelo obsessivo ditador venezuelano. Não criticarei o ataque abominável do exército israelense contra o comboio de ajuda humanitária em Gaza. E não professarei adjetivos sobre pele feito capa às folhas que tratam da alma, os honoráveis de Harvard que sejam humanistas.

Transformado nesta carranca que escuta, sorrio.

Ela diz que fiz algo bom ao vir visitá-la. Ela diz que a presença dos amigos ajuda porque as horas passam voando. Embora lembrar-se do passado ajude, prefere envolver-se no dia a dia, que isso gerará novas lembranças.

Deus piedoso, aleluia! Que a Bel volte a sassaricar, logo, amém!

A caminho, sou parado. A moça tem caneta e prancheta. É para ser rápida a entrevista. Quantos quartos tem a minha casa. E quantas TVs, geladeiras, máquinas de lavar. Quantos celulares e fogões. Quanto eu ganho? Se a casa é própria nem é perguntado nem se a deixaria usar o banheiro em caso de urgente necessidade.

Respondi, e não me arrependo de tê-las respondido. Eu poderia ter acrescentado uns dois celulares, mas o contracheque comprovaria que tenho só uma boca. Eu deveria ter dito que ter Porsche não é um sonho meu. Paparazzis brigarem por uma foto evidencia o quão míopes eles são, uma vez que não sou roqueiro nem astro das telas.

Graça mesmo é um sorriso não ser o meme do momento.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de abril de 2024.


terça-feira, 2 de abril de 2024

O meu número

 

O meu número

 

De pronto, é bom que você saiba que o título da crônica não guarda referências aos tamanhos de calçado, roupa ou ego.

Agradeço ao texto pela introdução do tópico ego logo no início, pois a sua dimensão será mínima, visível o suficiente para que seja notada a discrição necessária à fluidez do que se conta.

Das tantas personas catalogadas em manuais de psicologia, a que se revela é a que entra como ‘escada’ em esquetes cômicos. Para que a piada tenha graça, Dedé e Didi precisam ser complementares.

Nesta história, o narrador, personagem emblemática, diferencia-se pela boa-fé. Sem timidez ardilosa, ele atua em segundo plano.

Assim, ainda que não a profira, estou seguro da minha gratidão pela jovem que me pergunta se quero batata extra ou sundae.

Formada no ensino médio há dois anos, ela fará dezenove anos em novembro. Não há pressão para que estude Farmácia, mas a dona da casa onde mora, a avó, é leitora entusiasmada de bulas e adoraria vê-la usando do jaleco personalizado para autorizar pílulas às insônias e drágeas a súbitos achaques. Ela é compreensiva, entende que isso de apelar à chantagem emocional é coisa de vó.

Assim como o amor que irradia é vasto, o terreno da casa é enorme, tem árvores. Como frutas atraem passarinhos, o dia todo tem cantoria no quintal. De noite, uma coruja costuma aparecer quando não chove. Se piado de coruja anuncia desgraças, bom mesmo é escutar bem-te-vi e joão-de-barro.

Na jabuticabeira, a casinha do joão-de-barro faz tempo que está ali. Ela era menina quando viu aquilo. A avó diz que não deve tocar de jeito algum ou o joão-de-barro se manda de mala e cuia, vai construir a sua casinha em outro lugar, no abacateiro do vizinho.

Ei, vovó, amar não é dizer amém o tempo todo.

A jovem diz que eu devo conhecer a sua avó. Ela é muito conhecida na cidade. Todo mundo a chama de Véia do Troco.

A neta não sabe quem deu o apelido. É lógico que ele pegaria, pois a sua avó nunca anda sem troco. Ela sempre tem troco pro ônibus, pro mercado, pros remédios. Quando as moedas estão para faltar, recorre ao banco. Pede que lhe arrumem moedas de cinco, dez, vinte e cinco e cinquenta centavos, e de um real também, é óbvio. Não esquece de pedir que troquem o dinheiro em papel, quer todas as notas, as de dois, cinco, de dez, vinte e cinquenta. Tem mais, sua avó não sai da agência sem que a atendam de acordo com o solicitado.

Uma vez tentaram assaltá-la na saída do banco, mas o ladrãozinho apanhou tanto que nunca mais bandido algum tentou novamente.

A jovem diz que a sua avó me conhece.

Tem boa memória a pessoa que não se esquece de nada ou a que não deixa de lembrar-se quando precisa?

Como prova de que a sua avó não é mentirosa, a jovem mostra-me um caderninho em que o meu nome e o meu número de telefone estão anotados.

— Moça, perdoe-me pela cabeça que falha, mas o fixo de casa foi cancelado há duas décadas.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de abril de 2024.

domingo, 31 de março de 2024

Uma folga a menos

 

Uma folga a menos

 

No melhor da festa, cortaram o som, negaram bebida, trancaram o banheiro, devolveram os celulares, bateram a porta atrás do último que foi posto para fora. O forrobodó durou o quanto quiseram, e tchauzinho, pois, já domingo, o sol entrava em cartaz.

Aos domingos, depois da missa das dez, Dona Cremilda vem pôr a prosa em dia. Quando desconverso, ela não pestaneja. Provavelmente surda às palavras carbonárias do pároco, seu teste sobre o estado do humor são as cosquinhas na carapaça: se este bicho só franzir a testa, estou natural. Ela nota que minha testa franzida é dissimulação, porque o mel do meu sorriso não vem da boca, deito-o com os olhos.

Poético. Contudo, por me conhecer há anos, Dona Cremilda ignora a minha lábia e, direta, aborda o que lhe é importante.

Começa pela saúde: se melhorei da tendinite, se estou tomando os remédios, se quero companhia pra ir ao médico, se marquei a consulta, se eu ainda tenho anotado o telefone da clínica.

Pra coisa certa ser feita, ela pega meu telefone, salva o número da clínica e agenda o alarme para nove horas do dia seguinte.

Muito me apraz a sua presença. Não há domingo que não venha. A cada vez, embora não a afete, peço que não se preocupe, pois os seus cuidados com os outros vai envelhecê-la mais rápido.

Porque vai almoçar na casa de um primo, ela abreviará a visita.

— Que coincidência! O meu primo também completa 60 anos neste 31 de Março. Bem no dia que comemoramos a derrota dos comunistas que pretendiam escravizar a nossa gente.

— Mas, o golpe não foi...

— Cabeçudo, não discuto com gente que não ouve.

Não, ela não sabe quem é Elio Gaspari. O presente ela já comprou, O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota.

Não sou de tergiversar, mas abro exceção à Dona Cremilda.

Depois de três anos de amizade, não gosto de espezinhá-la só para vê-la bufando. Favorece-a ter semancol. Controlo o sarcasmo. Quando meu fígado está prestes a apoderar-se da minha boca, ela conta piada. Infame ou engraçada, tanto faz, pois recolho os meus caninos.

Ontem, entretanto, mostrei-os ao Honório.

Aos sábados, antes do almoço, quero relaxar. Ou escrevo pouco ou nem começo a escrever. Se sobram as palavras, me interrompo.

Deito no gramado. Nem sei por quanto tempo fico vendo as abelhas voejando. Me divirto. E faço as abelhinhas abusarem, ficarem doidonas com o pólen a mais que o habitual.

Todavia, veio o Honório falar o que tinha pra falar.

Que à porta do bar, um bebum vestido de verde e rosa gritou:

— Olha a mangueeeira, geeente!

O enterro passava. Houve irritação. Os mais irritados rezaram com paixão. Um dos carregadores do caixão deu com um pé na mangueira que cruzava a rua. Com o caixão indo ao chão, foi aquela comoção.

— Bem que eu avisei; arrematou o pinguço.

Sem pigarro nem soluço, sério no sarro, eu disse:

— Honório, de coração! És o finório da contação!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 31 de março de 2024.