Travessura
inocente
Se desejasse agradar o diabo, eu mesmo
continuaria como estava, não pondo em dúvida que a performance é realista, que
emulo estátua que porventura a minha memória preserva sem que me recorde a que
personagem represente ou onde esteja erguida.
Evidentemente lasso, estou sentado. Sem
tocar no copo, deixando a cerveja esquentar, vejo a TV. Peço que troquem o meu
copo. Mando trazerem outra garrafa. Torço, que não mudem de canal.
Em Copacabana, montam o palco no qual
uma famigerada estrela se apresentará para um milhão e meio de não pagantes. A
mulher tem sessenta e cinco anos, quarenta de estrada pop, e não sei lá quantos
chicotinhos na bolsinha de látex.
Bem percebo pelo alvoroço, a danada não rebola
só pelo prazer de sassaricar a sua graça nas areias tupiniquins, a musa, imaculadamente
sapeca, sabe se manter estimulante à idolatria.
Mamma mia! Que entusiasmo colossal será rebolar
para um mar de fãs. Quando rebolo, só rebolo pro espelho. E olhe lá, bambina.
Não é nenhuma aventura contar que
pensava na apresentação da bomba loira quando Luisinho veio interpor sua barbicha
grisalha entre as minhas retinas vidradas e a TV.
Viver é ser interrompido por
inconveniências.
Por inconveniente, o meu amigo sentou
sem pedir licença, pôs mais sal na porção que nem se acanhou de beliscá-la e
passou a elogiar-se das coisas boas que andava fazendo desde manhã.
Sentar pegando da batata alheia e anunciando
o quanto era irritante todo aquele circo em torno daquela americana
botoxilizada, isso tinha a cara do Luisinho, cujo maior talento é criar rusgas
à toa.
Seria bom se não o contrariasse, que ele
chegou pilhado. Ainda que reze mesmo sem se ajoelhar, ele é mestre em contestar.
Ele não suporta vê-la na pele de vestal:
tão carnuda, a virgem dos lábios bombados, a pouco zen, amante de carne malpassada.
Ao me ver sentado sozinho, bebendo
sozinho e comendo sozinho a porção grande de batata frita, o amigo preocupado
com a saúde deste camarada acha por bem agir.
A ele importa: que eu dê vazão às minhas
angústias, ou não estaria isolado; que não me faça avesso às minhas mágoas, ou
estaria sóbrio; e, sobremodo, que não lhe sejam negadas as batatinhas.
Não o impeço que coma, beba e tagarele.
Nem assim o amigo baixa a bola, uma vez que veio investido de ranheta a fim de
criticar tudo que ache certo espinafrar.
Depois que meu irmãozinho foi-se embora
porque a porção acabou, Aristeu junta-se a mim na mesa escondida.
Aristeu aposta que a Madonna não fará o
espetáculo no Rio, que o buchicho é publicidade para artista em fim de linha,
que adiarão o show por conta da calamidade gaúcha, que haverá de ter um juiz
que proíba imoralidades na TV.
Por decadente, me extravia a indecência?
Na impureza de me atirar a quem seduz à sombra, não me sinto iluminado?
Louco de batata, like a virgin,
sacudo a minha cintura dura.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 05 de maio de 2024.