domingo, 5 de maio de 2024

Travessura inocente

 

Travessura inocente

 

Se desejasse agradar o diabo, eu mesmo continuaria como estava, não pondo em dúvida que a performance é realista, que emulo estátua que porventura a minha memória preserva sem que me recorde a que personagem represente ou onde esteja erguida.

Evidentemente lasso, estou sentado. Sem tocar no copo, deixando a cerveja esquentar, vejo a TV. Peço que troquem o meu copo. Mando trazerem outra garrafa. Torço, que não mudem de canal.

Em Copacabana, montam o palco no qual uma famigerada estrela se apresentará para um milhão e meio de não pagantes. A mulher tem sessenta e cinco anos, quarenta de estrada pop, e não sei lá quantos chicotinhos na bolsinha de látex.

Bem percebo pelo alvoroço, a danada não rebola só pelo prazer de sassaricar a sua graça nas areias tupiniquins, a musa, imaculadamente sapeca, sabe se manter estimulante à idolatria.

Mamma mia! Que entusiasmo colossal será rebolar para um mar de fãs. Quando rebolo, só rebolo pro espelho. E olhe lá, bambina.

Não é nenhuma aventura contar que pensava na apresentação da bomba loira quando Luisinho veio interpor sua barbicha grisalha entre as minhas retinas vidradas e a TV.

Viver é ser interrompido por inconveniências.

Por inconveniente, o meu amigo sentou sem pedir licença, pôs mais sal na porção que nem se acanhou de beliscá-la e passou a elogiar-se das coisas boas que andava fazendo desde manhã.

Sentar pegando da batata alheia e anunciando o quanto era irritante todo aquele circo em torno daquela americana botoxilizada, isso tinha a cara do Luisinho, cujo maior talento é criar rusgas à toa.

Seria bom se não o contrariasse, que ele chegou pilhado. Ainda que reze mesmo sem se ajoelhar, ele é mestre em contestar.

Ele não suporta vê-la na pele de vestal: tão carnuda, a virgem dos lábios bombados, a pouco zen, amante de carne malpassada.

Ao me ver sentado sozinho, bebendo sozinho e comendo sozinho a porção grande de batata frita, o amigo preocupado com a saúde deste camarada acha por bem agir.

A ele importa: que eu dê vazão às minhas angústias, ou não estaria isolado; que não me faça avesso às minhas mágoas, ou estaria sóbrio; e, sobremodo, que não lhe sejam negadas as batatinhas.

Não o impeço que coma, beba e tagarele. Nem assim o amigo baixa a bola, uma vez que veio investido de ranheta a fim de criticar tudo que ache certo espinafrar.

Depois que meu irmãozinho foi-se embora porque a porção acabou, Aristeu junta-se a mim na mesa escondida.

Aristeu aposta que a Madonna não fará o espetáculo no Rio, que o buchicho é publicidade para artista em fim de linha, que adiarão o show por conta da calamidade gaúcha, que haverá de ter um juiz que proíba imoralidades na TV.

Por decadente, me extravia a indecência? Na impureza de me atirar a quem seduz à sombra, não me sinto iluminado?

Louco de batata, like a virgin, sacudo a minha cintura dura.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de maio de 2024.

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