Só
me faltava essa
Por falta de alternativa, o mais pacato
possível, liguei o carregador na tomada, verifiquei que estava ligado, pus o
telefone na cômoda, me deitei sem resmungar além do costumeiro.
Por falta de equilíbrio, o menos afoito
possível, fiquei deitado, cocei os olhos, por nada, por alguma poeira, por ser
necessário ficar deitado bem mais que um segundo, porque tenho esse hábito de
ficar na cama até que os cachorros do vizinho se aquietem.
Por falta de paciência, o mais sereno
que me houvesse de imaginar, virei contar o que não sabia por onde ia, fui indo
de palavra em palavra, que rascunhar mentalmente uma história seria a maneira
de conquistar a paciência que eu precisava.
Por falta de assunto, o menos tenso
possível, pigarreei sem motivo, cocei os olhos sem razão aparente, a história
foi interrompida à altura que nem sei se no meio ou no fim, porque as minhas
mãos resolveram que seria bom escorar a cabeça, embora o travesseiro nem
precisasse ser afofado, eu o afofei, sentimental.
Por falta de sono, o mais inteligente
que houvesse de fazer, retomei a história, que havia uma menina batendo
pênaltis, chutando a bola na parede, calmamente ela ajeitava a bola, contava
sete passos para trás e desferia uma bicuda, imaginei-a que batia na bola
alternando os pés, e que isso bastava, que era tudo.
Por falta de inteligência, o menos
patético que achei possível, fui à janela, vi que os cachorros da casa ao lado
corriam ao longo da grade, latiam por nada, pra ninguém, mesmo que não
passassem pessoas ou automóveis, aqueles cães não paravam de correr ao longo da
grade e não paravam de latir, ainda que não houvesse nenhum monstro na rua, na
calçada, junto à grade.
Por falta de luz, gritei, e foi debalde
que eu gritei.
Por falta de banho, o mais razoável que
entendi, tirei a roupa, entrei no chuveiro, lavei-me todo, ensaboei-me todo,
medi o que incomodava, que era os cães da casa vizinha latirem pela fome que
sentiam, que eu precisava fazer o certo, que era dar comida àqueles cães.
Por falta de coisa melhor para fazer, o
menos hesitante possível, fui dar comida aos coitados, mas eles continuaram a
latir, pularam contra a grade, pularam na direção da vasilha que coloquei no
chão.
Por falta de comida, o mais ligeiro que
pude ser, voltei, fiz o almoço, comi o que pus no prato, julguei o que tinha
feito, pensei que o menos doloroso seria confessar minha burrice, porque só um
tolo confessaria que ração possui o poder de domesticar cães coléricos.
Por excesso de sensatez, por ser “sem
destino a trovejar espantos”, quero-me sensível, permaneço na janela, e sigo
vendo as gentes indo pelo feriado afora, elas vão comer lasanha, pedirão coelho
assado, vão saborear um saborosíssimo sorvetinho de pistache.
Esperar que o rapaz de tênis ensebados saiba
passar ‘bigode’ para ‘mustache’ não é bárbaro, é um prêmio.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 02 de maio de 2024.
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