quinta-feira, 2 de maio de 2024

Só me faltava essa

 

Só me faltava essa

 

Por falta de alternativa, o mais pacato possível, liguei o carregador na tomada, verifiquei que estava ligado, pus o telefone na cômoda, me deitei sem resmungar além do costumeiro.

Por falta de equilíbrio, o menos afoito possível, fiquei deitado, cocei os olhos, por nada, por alguma poeira, por ser necessário ficar deitado bem mais que um segundo, porque tenho esse hábito de ficar na cama até que os cachorros do vizinho se aquietem.

Por falta de paciência, o mais sereno que me houvesse de imaginar, virei contar o que não sabia por onde ia, fui indo de palavra em palavra, que rascunhar mentalmente uma história seria a maneira de conquistar a paciência que eu precisava.

Por falta de assunto, o menos tenso possível, pigarreei sem motivo, cocei os olhos sem razão aparente, a história foi interrompida à altura que nem sei se no meio ou no fim, porque as minhas mãos resolveram que seria bom escorar a cabeça, embora o travesseiro nem precisasse ser afofado, eu o afofei, sentimental.

Por falta de sono, o mais inteligente que houvesse de fazer, retomei a história, que havia uma menina batendo pênaltis, chutando a bola na parede, calmamente ela ajeitava a bola, contava sete passos para trás e desferia uma bicuda, imaginei-a que batia na bola alternando os pés, e que isso bastava, que era tudo.

Por falta de inteligência, o menos patético que achei possível, fui à janela, vi que os cachorros da casa ao lado corriam ao longo da grade, latiam por nada, pra ninguém, mesmo que não passassem pessoas ou automóveis, aqueles cães não paravam de correr ao longo da grade e não paravam de latir, ainda que não houvesse nenhum monstro na rua, na calçada, junto à grade.

Por falta de luz, gritei, e foi debalde que eu gritei.

Por falta de banho, o mais razoável que entendi, tirei a roupa, entrei no chuveiro, lavei-me todo, ensaboei-me todo, medi o que incomodava, que era os cães da casa vizinha latirem pela fome que sentiam, que eu precisava fazer o certo, que era dar comida àqueles cães.

Por falta de coisa melhor para fazer, o menos hesitante possível, fui dar comida aos coitados, mas eles continuaram a latir, pularam contra a grade, pularam na direção da vasilha que coloquei no chão.

Por falta de comida, o mais ligeiro que pude ser, voltei, fiz o almoço, comi o que pus no prato, julguei o que tinha feito, pensei que o menos doloroso seria confessar minha burrice, porque só um tolo confessaria que ração possui o poder de domesticar cães coléricos.

Por excesso de sensatez, por ser “sem destino a trovejar espantos”, quero-me sensível, permaneço na janela, e sigo vendo as gentes indo pelo feriado afora, elas vão comer lasanha, pedirão coelho assado, vão saborear um saborosíssimo sorvetinho de pistache.

Esperar que o rapaz de tênis ensebados saiba passar ‘bigode’ para ‘mustache’ não é bárbaro, é um prêmio.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de maio de 2024.

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