terça-feira, 24 de maio de 2022

Três vezes ao dia

 

Três vezes ao dia

 

Não basta acreditar que se pode ser útil, servir-se de instrumento a quem franquia alguma ajuda, é passível do passo aziago quem se acha a solução universal. Quando o inconsolável da vida manifesta-se, esse ridículo, que a muitos assedia com sutileza zero, transforma-se em um chato do caramba.

Sem querer, acorda-se nem um pouco xarope.

Bem-estar inexplicável é preocupante. Pois isso de ver as horas no celular sem curiosidade sobre as guerras em andamento, os hospitais precários, a escalada da inflação, isso é coisa de paspalho profissional ou aparvalhado mané.

Pra remediar o caso, aplique-se um incentivo fundamentado.

Toma-se a primeira dose de xaropismo depois que amanhece, indo pro ponto sabendo que os demônios devoradores de diesel passarão. Cedo ou tarde, lotadíssimos, passarão; ao deus-dará, os monstrengos acumuladores de metano têm mesmo que passar.

Equivoca-se quem acelera o passo, porque a experiência diz que o mau humor que minará a leveza conta com a espera prolongada pelo próximo ônibus. E a irritação aumentará dando-se confiança a ranzinza que desce a lenha no transporte coletivo de modo acerbo. O inopinado: já que motoristas não respeitam horários nem oferecem conforto, o povo que leve a culpa.

E xarope que hesita perdoa logo. Sabe superar os problemas, tocar em frente, é que tem que sair-se melhor que ontem. Mais que dinheiro no bolso, trabalha-se pelo bem do país. Ainda que mereça a falta de fé dos superiores, que aumentam a meta de produção como se fosse um desafio maior que os braços, é preciso querer dar o melhor de si. Nada de carregar rancor enquanto mantém o foco, pois a meta existe pra ser cumprida. Como cupim trabalha na muda, o bom xarope não para.

O corpo precisa da reposição de energia, para-se. Mesmo os heróis mais genuínos são máquinas que operam direito quando alimentadas a contento. Pra não deixar a peteca cair, almoça-se.

A segunda dose de xaropismo é sólida, concreta, para ser mordida. Começa pelos olhos, é marmita servida de modo bem ordenado. Com o feijãozinho coberto pela massa de arroz, o ovo frito ao lado do legume mais barato. Come-se o que dá pra pagar. E a garfada tem esse preço que sobe de elevador, e vai subindo. Quanto maior valor, maior o PIB. E produtor pensa no país enquanto o Cruzeiro brilha na TV.

Não há terapia que abra mão de umas boas horas de diversão. Sim, a terceira dose é ministrada por comentaristas mais bem instruídos que consideram futebol-raiz matar-se em campo. E quem ama futebol ama o próprio povo.

E que mão na roda é o povo. Porque tem povo que não acaba mais. Tem povo que ora o tempo todo. Tem povo que fuma no banheiro. Tem povo que chama pra briga. Tem povo que vota na foto. Tem esse povo brasileiro que vive como povo eleito. Tem povo que acha que dever do povo é ver-se como o povo que é.

Que o povo faça a sua parte.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de maio de 2022.

domingo, 22 de maio de 2022

O convite

 

O convite

 

Finalmente tocaram a campainha, mas não corri atender.

Se estivesse atrás da porta, a pessoa, com o dedo no ar, ficaria com cara de quem acha louvável quem torce pra que as notícias do mundo cheguem logo ao seu destino, à minha porta.

Também abriria rápido se estivesse em dia de faxina. Pra caprichar, tenho uma escovinha de dentes só pra limpar as ranhuras, frufrus que causam inveja em quem pensa que tenha me custado uma grana alta. Nada disso, porque a comprei em liquidação numa loja que estava pra abrir falência. Mesmo barata, dá trabalho mantê-la apresentável. É por isso que, sujinha, está dando na vista de quem passa na calçada.

Com as novidades tardando chegar, fui ficar no lado oposto da sala, na lavanderia, minha área favorita de casa, porque, coincidentemente, entre a cadeira de balanço e o fogão, tem essa porta tão minha amiga, por sua ojeriza a lingueta de tranca à luz do dia.

Apesar do frio, longe da comichão de querer que alguma mulher de lenço no pescoço viesse bater palmas no portão, nem percebi o quanto fiquei vendo as roupas balançando no varal.

E o vento levitava de leve um vestido da vizinha, não um vestidinho, mas um senhor vestido vermelho sem alcinha. E vê-lo era bem menos estressante que ficar gritando com cachorro que não parava de latir pra gato arisco, bailarino de muro coalhado de cacos de vidro.

Haja suposições pra ter estourado tanta pipoca.

Por conta do frio, não passei café. Gelado, cafezinho fica intragável. Podia apreciar o sossego sem temer hesitações? Foi pelo gostinho que me decidi por abrir uma garrafa de guaraná. Por abri-la e bebê-la.

Mas não ia bebendo agradecido comigo, bebericava a cada vez que punha pipoca na boca pois tinha errado no sal. Tendo a língua salgada, que perereco não salivar fel em prosa e verso.

Tocaram a campainha. Fui ver quem era. Não tinha ninguém.

E não tinha, por que me demorei feito criança que disfarça as ânsias do coração aos pulos fazendo fita de birrenta infeliz?

Comia pipoca.

Demorei atender, mas mensageiro pode sair correndo como gente folgazã que nem ajuíza o quanto tal atitude tem de ofensa pirracenta?

Ofende, e muito.

Não é fácil esconder o sangue quente na cara enfurecida da gente, mas não chispei as frustrações em quem só estava passando. Calçada é lugar de passagem, mas que gente era aquela que resolveu passear, atravancando o caminho?

Cuspi os piruás pra sarjeta. Fiz questão.

Nesta minha trama de pessoa na iminência de receber convite a tão festejado evento, queria que aguardassem. Soubessem me esperar só um pouco. Pois eu vinha determinado a mostrar toda minha humildade, a minha respeitosa humildade.

Ternamente comovido com tamanha deferência a mim, logo eu que não tenho nome na praça nem como papador de pipoca, fui eu que abri a porta pra ninguém.

Mais chato do que ficar esperando? É acabar de mãos abanando.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de maio de 2022.

quinta-feira, 19 de maio de 2022

Terror noturno

 

Terror noturno

 

Inda tá linda a lua azul da melancolia da minha alma aconchegada no sereno silêncio da solidão. Ainda estaria, mas acordo estragado: o brilho azul da lua inebriante da madrugada não passa da lampadazinha da TV, cujo cabo de energia está sempre na tomada. Não é a luazinha, é a ansiedade que me estraga o sono.

Dormir a noite toda é coisa de boboca, é preciso temer as aranhas saindo das aranhas que se multiplicam nas sacolinhas de plástico que pegam poeira embaixo da cama.

Quem não acorda suando frio não tem como me desprezar porque desprezo quem acha normal não ter pesadelos com aranhas galgando os pés da cama.

Como não despertar por motivo tão pouco fútil?

Desperto com a careca enregelada. Tenho uma frente fria presa no meu quarto; e dela me livraria se fosse à cozinha.

Poupo-me, fico debaixo das cobertas.

Se desligasse a geladeira, iria pro lixo meu leitinho morno das horas congeladas. E não me controlo a ponto de não passar por essas horas, que me esticam o drama como estômago que ronca um vazio que leite frio algum há de saciá-lo.

Breve é a vida quando é longa a agonia.

Costumo afundar no breu da insônia, para que a noite fique dividida em duas partes antagônicas. De um lado, não me convenço a moderar as aflições. Doutro, elevo o desassossego de imaginar-me arrancando os cabelos que não tenho.

Posto que me aborrece à beça a careca exposta ao frio: dane-se!

Dou luz verde às aranhas que comem a mosca azul que me rodeia. Entrando em mim por minhas desesperanças de gente cansada. Pois muito me esgoto a pular etapas, correr com o andor, perder-me à toa.

Não sei dizer se me sinto bem. Ainda que esteja disposto a seguir às cegas, sem destino ungido, de improviso em improviso. Que a falta de assunto, embora não me falte agora, sirva-se de meu cansaço e em mim sejam injetados os pigarros, uma dorzinha no pescoço e o medo de esquecer o que tenho pra fazer quando o dia raiar e a cidade ficar cheia de gente querendo que seus problemas sejam logo resolvidos.

A noite não se mexe. O ar gelado não me acalanta. Não nino a mim que sou menino que se sente abrigado no seio noturno que apavora, enerva, desconcerta. Muito, mas muito mesmo?

Não há silêncio que faça a cidade ficar calada, parada, morta.

Sequer há mortos que estejam imobilizados, que a carne vai pouco a pouco sumindo dos ossos. Ficarão os cabelos. Ficará o universo.

Terei análise na hora do café. Se falarei de aranhas, moscas e TV? Contarei que me perdi do que inicialmente tinha pensado quando me sentar ao computador? Mentirei apenas um pouquinho só pra não ser desmascarado?

Na escuridão da madrugada, enfiado na cama, querendo que passe a vontade de urinar, me seguro como posso. Acho que posso.

É noite, não vou fugir da escuridão. Se acendesse a lâmpada? Nem assim. Se não pensasse no assunto? Muito menos.

Sabe, doutor, sou paciente porque não sei esperar.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de maio de 2022.

terça-feira, 17 de maio de 2022

Caipora!

 

Caipora!

 

E traz as mãos enfaixadas quem conta que ficou descontrolado ao saber que seu cachorro morrera. Mesmo não sendo a responsável por essa morte, murros foram dados na parede mesmo assim.

Há pessoas que reagem muito mal quando informadas de supetão, ou pouco a pouco. Engana-se quem pensa que a gradação detalhada do infortúnio ajude a amenizar a dor. Pra quem exagera pra caraca, o impacto de notícia trágica é uma pancada brutal. De fato, a autoridade dos patéticos fica arranhada sem uma dose boa de canastrice.

Quando falaram que um ônibus atropelara seu bicho de estimação, a resposta furibunda quem deu foi a direita, de encontro à parede.

De imediato, o gesto mostra que a distância da orelha ao cérebro é curta em pessoas que tomam banho de modo modelar. Sem dúvida, a perfeita remoção do cerume merece louvores, evidentemente.

Disseram que a vítima do atropelamento era um pastor.

Inteligências fulminantes, que estreitam meia palavra a conclusões, reafirmam que o pior surdo é aquele que ouve muito bem.

Ouvira bem, muitíssimo bem. O seu pastor não voltaria mais, nunca mais. Como o cachorro massacrado era o seu, não era do vizinho que vivia se vangloriando de madrugadas mal dormidas, era irrelevante que os pneus assassinos fossem de um micro-ônibus.

Pode parecer que os latidos do mundo não estejam sincronizados com as batidas do coração de quem dorme de orelha em pé. Contudo, é normal acreditar que uma noite de sono entrecortado torne plausível sentir o peso de pulgas pulando na escuridão. Ou os leves movimentos dos cílios ocorreriam de forma gratuita. E compreender o ritmo da vida por algum absurdo qualquer é sustentar argumentação estapafúrdia.

Insistiram que o cão atropelado trazia um pingente no qual o nome inscrito era Rex. Pastor chamado Rex? Só conhecia um, o seu.

Tem gente fingida que se faz de tonta apenas pra tirar vantagem da situação, pois, entre a necessidade e a liberdade, o camelo passa pelo buraco da fechadura.

Quem entra no espelho não tem outra finalidade que não seja a de lucrar com a especulação, sobrepondo o positivo no negativo. Uma vez que uma ação raivosa nada tem de pecaminosa, é honroso deixar que os sinos dobrem.

Rex morreu porque a van precisou jogar pro lado para não pegar a bicicleta que trocou de faixa de repente.

O acaso tem leis que o azar perde tempo quando quer justificar.

Mesmo não sendo obrigatório ir olhar o quintal, já que não precisava ter certeza de que o Rex morto era mesmo o Rex, tão logo viu que não tinha coleira na corrente, a esquerda socou a parede.

O fato é que a pessoa que dirigia a van, cheia de crianças indo pra escola, evitou bater no ciclista que levou um susto danado com o cão que saltou pro meio da rua. E foi desse jeito, foi escancarando caninos assustadores de capa preta que ele teve morte na hora.

Rex, seu amado Rex, era pastor, mas era alemão.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de maio de 2022.

domingo, 15 de maio de 2022

Faro fino

 

Faro fino

 

Tem cheiro horrível à entrada da casa. Com sol forte, o troço piora. É preciso que chova logo ou as pessoas terão de prender a respiração pra não ficarem nauseadas.

Apertar as narinas. Não respirar pela boca. Tudo pra estar certo de que é possível diminuir o fartum que tanto desgraça o ambiente.

Em vão se o céu azul não facilitar. Sensibilizado, o outono suaviza o tom, mas nada pressupõe uma aragem benéfica.

Chuva, chuva boa, chuva que faça a faxina na área, tal desejo não será atendido. Mesmo que se tome providências como pular três vezes na perna direita, girar no sentido horário por sete segundos e sussurrar “sim, eu posso” até que venha alguém dizer que “sim, eu posso” é ideia ridícula que não ajuda bulhufas na formação de nuvens benfazejas.

Com um céu tão espaçoso, o bodum seguirá nauseante.

Não é preciso exagerar, pensar que condescendentes não têm foco pro motivo dessa carniça a céu descoberto.

É simples, basta postar-se em posição de vigilância estrita pro fato ser revelado.

A verdade dos fatos sempre transparece, é só interpretá-la de modo lúcido, imparcial, justo. Sim, quem anda no caminho da justiça encontra a verdade ainda que haja gente que ache cansativa a mentalização de um mundo melhor.

Indo do desejo ao ato, qualquer um pode achar a razão pra tamanha fedentina à porta de casa.

Habitar o mundo é algo muito aborrecido a quem se recusa a fechar as cortinas quando o sol incomoda. As pálpebras existem porque têm função, todavia mantê-las abertas torna difícil enxergar direito quando a luz está irritante. Dá pra fazer viseira com a mão, mas o braço cansa. Já o sol, o brioso sol, esse daí não conhece lassidão nunca.

Com dose generosa de limão na caipirinha do almoço, espantoso é buscar conforto depois de bater um pratão de feijoada. O sofá regurgita quem traz nas tripas a paz por empanturramento. E pavoroso é comer como se o preço da comida fosse dobrar a cada remarcação.

Caída depois do susto de estar salivando a mais não possa, expulsa do soninho bom, a camaradinha socializa seu pesadelo.

O que não existia passou a existir com o tapume. O terreno que não tinha semelhança com área baldia entra nessa especulação. O que era propriedade sem ninguém a cuidá-la com o agrado de uma capinagem de vez em quando, veio o dia em que o madeirite floresceu. E foi-se a invisibilidade. E houve porta e nela pôs-se em aviso: entrada restrita a pessoal autorizado. Deu-se o milagre da valorização que tem a ver com a falta de olho mágico que permita seguir a construção. Subirá vistoso o prédio, cuja posse dos apartamentos iluminados pelo sol cortês será concedida a quem pode rir à toa, já que tem crédito que faz a gentileza de não cabalar dez mil por cento de sua renda.

Ela não diz o que tem tramado.

Baixinha, a vigilante quer ter uma bexiga grande que nem gente alta que não passa vexame ao batizar um poste.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de maio de 2022.

quinta-feira, 12 de maio de 2022

Pequenos prazeres

 

Pequenos prazeres

 

É vendo que se aprende a amarrar o cadarço dos sapatos. É vendo que se aprende a escovar os dentes. Também é vendo que se aprende a dormir sentado, mas a cochilar em pé aprende-se sozinho.

Copiar os outros não tem nada de especial, mas ganha tempo quem imita os gestos que outras pessoas executam sem que seja preciso dar atenção maior. Automáticas é que as pessoas tocam a rotina banal de ir vivendo sem notar o quão insatisfatória é a vida.

Juízo, não invente de sair correndo com tênis desamarrado porque o ônibus acaba de dobrar a esquina.

Pra não ser chacoteado feito bobo, não veja problema onde não há: em tênis sem cadarço, basta enfiar o pé; dormindo em copo d’água, a dentadura não machuca; mas só busão lotado pega gente atrasada.

O hábito mais corriqueiro pode ser bem diferente?

A pessoa que olha o celular pode ignorar a grávida que traz na mão um pacote de fraldas, é seu direito ocupar-se com a leitura e o carrinho cheio não ficará mais leve, mas há sorriso que convence sem que seja forçoso pedir preferência nas filas de cada dia.

Mesmo que ninguém tenha servido de exemplo, a iniciativa de agir por conta própria pode produzir umas boas alegrias.

Se a luz está acesa sem necessidade, apague-se. Se o banho pode durar dez minutos, banhe-se. Se alguém alega pressa, botando fé que seja desculpa, ceda-se a vez sem compartilhar a boa ação.

É claro que gentileza não implica em fazer-se de palhaço, porque a decisão de comportar-se assim ou assado não é dever, é direito.

Quem pertence à turma dos que não cumprimentam quem entra na sala sem cumprimentar, tudo bem achar que faz o certo.

Se uma pessoa pede licença pra dizer o que pensa mesmo sem ser convidada, não é preciso gritar para que seja interrompida.

Dá para fazer do mundo um lugar mais luminoso mesmo sem ficar dizendo amém a todo instante, mas não tem janela aberta que impeça a chuva de molhar o chão do quarto. Se está molhado, enxugue-se ou corra-se o risco de escorregadinha caricata ou tombaço estrepitoso.

Só não tem graça pensar que uma pessoa que suporta em silêncio o que lhe está fazendo mal é paciente. Quem não responde a ofensas, humilhações e ataques vis é mais do que palerma, é complacente.

Será?

Manter no tornozelo uma correntinha de prata não equivale a exibir coleira de ouro no pescoço, ainda que ambas tenham sido dadas como presente. Quem ama sente a instabilidade que o amor provoca.

Se a franja no olho incomoda, que ela seja aparada. Se as entradas vão ficando indisfarçáveis, raspe-se a cabeça.

E pessoa que usa barbeador elétrico não está dispensada de saber como não se cortar com lâmina de barbear.

Há quem cuspa na mão pra que a saliva ajude a limpar o corte, mas isso não funcionará direito se estiver chupando bala. Pra não ficar com a careca melada, seja usada a água da pia. Lave-se com água mineral quem for outro babaca esbanjador.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 12 de maio de 2022.

terça-feira, 10 de maio de 2022

Veia positiva

 

Veia positiva

 

Pensar que tem gente que fica boquiaberta com a boa sorte de estar viva nesta era de drones. Os drones circulam na troposfera como olho grande que a todos nos registram agitados, só não alcançam que em nós as esperanças redundam em decepções que levam a atos azedos. Logo, é burro qualquer alumbramento por estes badulaques limitados, pois, vigilantes e idealistas, apuramos nossa viagem pelo planeta com maior engenho. Dispomos de recursos orgânicos mais sofisticados que estes trecos eletroeletrônicos que gravitam nuvens e nevoeiros.

Eles flutuam no céu, nós trovejamos ao sol.

Não ansiando cegamente que sejamos aprimorados por condutores e semicondutores, ainda que se mapeie como hão de nos aquilatar os sentidos, pensemos as nossas chagas à luz do luar.

Que boa sorte é estar vivo pra poder contar, melhor ainda, pra poder deixar de alguma forma registrada a aventura que é viver numa época de bueiros alterados. Pois hoje os bueiros mostram com quantos cabos aterrados tanta comunicação é mantida.

Embora haja pessoas que abram a boca quando autorizadas a falar bobagens de botequim ou poesia concreta.

Embora haja quem não acredite que bocas no chão sirvam pra que dejetos e porcarias subam dos esgotos como os alagamentos.

Sim, há rios, córregos e riachos que não suportam ficar represados e transbordam suas águas imundas. Águas empesteadas que a muitos de nós nos indignam, elas também acabam adoentadas e morrem.

Mundanos bestificados, sabemos o quanto apreciamos o planetinha porque inundamos marginais e autopistas com o que de humano temos de melhor: os caminhões a diesel que vão fumando sem parar.

Máquinas inteligentes calculam o estrago que produz um caminhão a cem por hora contra outro em igual velocidade na direção contrária, mas o meu cérebro, que tem raízes no solo, não comandará máquinas voadoras que cativam crânios avantajados nem calculará o impacto.

Ainda assim, há quem denuncie essa gente que gosta mesmo é de ter dúvidas sólidas a respeito destes tempos de amores líquidos nunca liquidados. Sempre há agrado que falta a quem acha que bueiro serve de escape aos esgotos efervescentes em bicharocos escrotos.

Se minha opinião revela uma verdade inquestionável, é que mereço um prêmio. Putisgrila! Nada de mandarem fotos que drones costumam tirar: embaçadas, sem nenhum traço do faro talentoso de lentes como um Sebastião Salgado, uma Claudia Andujar ou um Fernando Val.

Como, de fato, entendo que penso, pego um carrinho de mão e vou catando coquinho que encontro cá embaixo, à flor da terra. Pesado que nem aguento empurrá-lo, viro o everest menor onde o chão careça de vida jamais ajardinada, sem palmo de grama mais verde que natural.

Não fundo outro mundo, o novo século que estou sonhando agora. Com pupila e retina em sincronia, eu não o fotografo como relíquia.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 10 de maio de 2022.

domingo, 8 de maio de 2022

Fora da caixa

 

Fora da caixa

 

Este senhor careca, barrigudo, com cara enrugada que outrora fora cravejada de espinhas, esta pessoa que passeia vira-lata sapeca em vez de furiosos pinscheres, você por acaso é quem se apresenta como sendo um tal Rodrigues?

Seu Rodrigues ao seu dispor, madame.

A madame sabe meu nome de batismo. E diz que morei numa casa que, no quintal, tinha uva, chuchu, cana e limão.

Ela, todavia, está enganada, porque o chiqueirinho pras leitoas dos almoços inesquecíveis ficava depois do muro, no terreno do meu avô.

Pensando bem, atrás da casa dos meus pais, o que estava plantada no cimentado do quintal era só uma edícula cheia de tralhas.

Aquela senhora, que se revela minha vizinha de infância, vem a ser a menina que, faz já uns cinquenta anos, viera sentar-se à porta do bar em que meu pai jogava porrinha com os parceiros de garganta afiada.

O honesto começou a destilar a honestidade como se fosse a mais antiga das vocações dos homens de bem:

ꟷ A buzina deu mais graça à freada brusca, porque é bem divertido assustar a fila indiana de mãe com suas crias.

O sincero quis rechaçar com acentuada dose de sinceridade:

ꟷ Discordo, a maior conquista que o automóvel poderia ganhar vem a ser o freio a disco. Acima das freadas barulhentas vem a necessidade de fazer com que os pneus durem mais. E rastro fedorento é bem nojento.

O austero ralhou com autêntica austeridade:

ꟷ Deixem de besteira. Bicho moderno que automóvel é, a sua glória está em rodar o mundo muito além de comportadas alamedas floridas.

Ao enigmático restou cometer outro dos seus enigmas:

ꟷ Carro na mão de barbeiro não é navalha, é guilhotina.

A madame que acorda algumas memórias é Madalena.

Madalena, é claro!

Na casa da Madalena tinha um cachorro engraçado que balançava a cabeça quando a gente batia a porta da geladeira.

Tinha também uma família pinguim: o pai e a mãe usando cachecol, verde pra ele e rosa pra ela; a trupe de filhotes era composta pelo maior com camiseta escrita Palestra, pela do meio de suéter xadrez em tons de rosa e, sem sequer um trapinho, pelo caçula de óculos escuros.

Foi na casa de Madalena que me enfiei naquele domingo, uma vez que o pai e a mãe deviam estar batendo boca por causa de um assunto fundamental, como pôr alecrim ou manjericão em molho de tomate.

Mas a mãe foi me apanhar, deu a minha mão pro pai. Ele e eu, nós descemos pro centro, entramos no bar em cuja porta conheci a menina que jurou que iria ter filha aos quinze anos, que iria preparar a filha pra ter filha aos quinze anos, que a ela lhe daria uma filha aos quinze anos, que faria uma filha aos quinze anos.

Ou seja, não trataria a prole como se cuida de uma boneca de laca fina no estojo, joia frágil, patrimônio que tem o seu valor preservado se o mundo não arranhar a face lisa de diamante.

Pra sua trinetinha que faz o diabo com o skate, Madalena sorri toda, toda, satisfeitíssima da vida.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de maio de 2022.

quinta-feira, 5 de maio de 2022

Por um punhado de pirulitos

 

Por um punhado de pirulitos

 

O homem preocupado que dorme a noite toda não se apavora que os soníferos não façam efeito, pois ele tem inteira confiança no médico que os receitou quando lhe contou das suas muitas ansiedades.

Realista que intui as decorrências do que diz, o homem ponderado nem se lembrou das pombas que estão aninhadas logo acima da cama onde ele se deita.

O homem que passou a dormir mal mesmo sem pensar nos bichos entre o forro e o telhado toma pílulas sem ligar os problemas pra pegar no sono com a vontade de acabar com o barulho de outra cambada.

Se pagasse alguém pra limpar a casa, ouviria como homem que se tranquiliza ao saber que tem só uma quadrilha de ratos sob os pés.

O homem que anda descalço a maior parte do tempo que passa em casa não acha certo associar suas angústias com aquelas pragas, pois seus fantasmas não precisam de drogas lícitas pra atormentá-lo.

As pombas, os ratos e os morcegos, que ainda nem haviam entrado na história, são vítimas de preconceito. São outras súcias que circulam na sociedade que causam engulhos, espasmos e calafrios no homem que muito se assombra com a extinção da humanidade.

O homem enojado que engole antiácidos depois das refeições tem que comer pouco pra não piorar a má digestão. E ele bebe água como se bebesse vinho, querendo-se anestesiado, encharcado, tornando-se no homem borracho que não para em pé.

Como o vento da madrugada não sopra quando mais precisa, o tolo que não fica bêbado com água filtrada sonha que tem uma rachadura crescendo noite após noite.

O homem que acorda preocupado com a trinca no teto bem acima da sua cabeça tem que deixar um bilhete na mesa ou cuidará somente de comer pão com margarina na pressa de cada dia.

De repente estressado, o homem que não se levanta da cama nem pra anotar o que precisa resolver quando a manhã chegar, todavia, ele não tem que torcer pelo time do coração. Caramba, ele torce.

Precisar não é querer.

Não é preciso que o time do coração ganhe o campeonato pra que haja felicidade. O coração do torcedor bate feliz porque ele comemora toda vitória, não apenas quando levanta caneco.

Pôr faixa no peito é glorioso, mas tem empate que pede breja.

Ainda que hoje não haja jogo, dá-se um jeito pra ver de novo o que já se houvera visto.

Vai saber se um detalhe importante tenha se perdido na correria de quem só para pra reclamar do pulha, safado, sem vergonha, juiz ladrão que não apita direito.

O homem distraído pela vida sente que não pode se deixar trair pela vontade de não se perder por aí, porque muita gente peca quando mais teme agir como pecadora.

Coisa boa é dormir ouvindo a chuva caindo mansa. Não precisa ter chuva. Não basta querer que tenha chuva. Talvez até faça bem querer que a chuva venha quando a gente precisa que venha tão calma e boa.

O homem que não faz drama porque anda carente de amor trata de chegar cedo ao consultório.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de maio de 2022.

terça-feira, 3 de maio de 2022

Bem engraçado

 

Bem engraçado

 

Manter-se em dia com a vida tem lá as suas complicações. Quando parece que tudo vai continuar na temperatura imperceptível de sempre, a realidade toca fogo no enfadonho como pimenta das brabas.

Já que estímulos pipocam sem avisar, é preciso controle incomum para não bobear um instante.

Querer dedicação absoluta é um desejo impossível de ser atendido, pois é um tal de luzes dispararem piscar do nada e alarme, vira e mexe, soar alucinado.

À cachola, essa rede de múltiplos curtos-circuitos, chega o veredito acachapante: o mordomo da culpa fica sendo a eletricidade.

Como o perigo tira sarro de gente desligada, a reconexão pelo risco é uma picaretagem sem tamanho. Que o ouro de tolo também produz faíscas, faz brilhar o ramerrão do prosaico do cotidiano como poesia a quem entediado com o céu azul que não relampeja nem a pau.

Esfregar na cara a lama nada curativa só emporcalha o beligerante acomodado à própria sombra, porque o paspalho faz bonito quando se entrega à importância que tem, como bobo que canta e dança.

Raio! Não é pra ficar rico que se passa o chapéu, que dê pro almoço está bom da conta. De curtida em curtida, vai a vida.

Não cabe desprezar quem acalanta o tédio como mocotó insosso.

Se registre que arrulhos chinfrins, piadinhos chatos e cantorias bem irritantes não têm poder pra divertir quem se inocula de dancinhas que o celular nem esquenta de procriar aos milhares.

Viva! Não se conhece vacina pra viralizações estupefacientes.

Coitado de quem leva a sério a ideia de viver concentrado em tudo que faz. É que a vida, platônica só no papel, sempre apela pra urgência fora do combinado. E determinismo estoico é para gente que tem medo de pôr-se em xeque a cada segundo.

Sem visar a nenhum especial exorbitante, o mundo de cada dia não entra em pane por excesso de energia no sistema.

O crime não compensa, então, é melhor não palpitar que ninguém colapsa em desespero apenas por chamar de pânico a falta de ar, suor frio e a sensação de perigo iminente.

O charlatão avisa que a pessoa que acha que vai ter um ataque de pânico já está no meio de um. E charlatães, caraca, nunca erram.

Quem não erra não se extravia, não se perde, não se desencontra, não se desvia. É provável que afunde na areia porque não consegue parar de babar ou, bem mais provável, nem sente que está babando.

A tela do micro mostra um e-mail que não está terminado.

Toca a campainha, são os livros. Toca o telefone, é trote.

Remédio tem hora certa. Ave Maria tem hora certa. Pro médico, tem que marcar hora. Com cartomante nem precisa combinar nada.

E o futuro segue o seu curso.

A tela do micro mostra que ela continua igualzinha.

Há rascunhos não terminados, só não há curiosidade de saber que conteúdos eles têm. Há endereços para enviar os e-mails, mas isso vai ficar para depois.

Quando passa com um cafezinho, a raiva tem muito mais graça.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 03 de maio de 2022.


domingo, 1 de maio de 2022

O fúfio impressionante

 

fúfio impressionante 

 

Alegar cansaço funciona como desculpa quando a preguiça corrói o desejo de correr pro beco sem saída, porque esgota querer entender a tentação de continuar de papo pro ar só mais um pouquinho.

Pode-se atribuir a banana amassada as câimbras não começarem a formigar nas pernas por permanecer um tempo encarando o teto.

Embora lacrimejantes nem bem se pense em outra pratada daquela bananinha no capricho, ocorre gabar-se verdadeiro mestre na arte zen de manter-se de olhos abertos.

Sem atributos mentais para imaginar as maravilhas do potássio nas fibras da carne, o que acalma mesmo a alma é imobilizar-se o quanto puder. Sossegar-se para que a vida seja um tantico mais doce.

Sim, sim. Sendo dócil, que a cura venha do vício. Pois esse mundo, doce mundo que lateja nas entranhas, pra que sua saudável influência chegue à pele, o jeito é praticar a terapia de ter um tapete às costas.

Se não rejuvenesce, suspende a pressa de quem sofre por motivo fútil. Descompassando a passada, a vontade somente ganha tempo se dispensada a ânsia de cronometrar-se atento e forte.

Ainda que a força do pensamento faça o milagre da erradicação dos ponteiros, o relógio da cachola, de maneira perfeitamente justa com os tendões e os músculos, opera a multiplicação do bem-estar.

Parabéns à inércia, que potencializa os efeitos da vagabundagem.

O vagabundo exemplar, aquele que sabe que é uma besteira muito grande preocupar-se com a terra de ninguém que a digestão instala no cérebro, é em nome da concórdia entre neurônios e sinapses que ele se abandona às ondas muito mansas dos pensamentos domesticados, paulatinamente amestrados pelo prazer de vagar a esmo.

O esqueleto aplaude a atitude de estar largado no chão.

Largado nada, é cativo da ideia de ver-se livre de salvar a vida.

Uma pessoa, qualquer pessoa, tem o direito de curtir esse tempinho bom de poder respirar nessa bolha de quietude, respirando sem ter nos ombros o peso danado da consciência grandiloquente.

Dá alívio baixar o tom à beira do sussurro, até raspar o silêncio, sem medo de vagar dentro desse refúgio mental, pois não é preciso pensar em derrotar o tique-taque que trabalha neuroticamente pela indigestão da barriga cheia de vento.

O espinho que explode esse mundo frágil são os ventos fedorentos, as balas disparadas pelo riso. Como banana podre seduz mosquinhas, rir sem compromisso com o pudor estimula os flatos.

Levada, a mente fomenta o riso descendo pela espinha, cozinhando no fogo do desassossego o gostoso do instante, e o corpo azeda tudo soltando um pum atrás do outro.

E cadê janela que não há? Se não há, esses momentos de preguiça são necessários. Como a vida é breve, pra que esquentar a cabeça de modo infrutífero?

Então, esse homem que não se presta a mudar de lugar se assanha a não parar de rir desavergonhadamente da situação.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de maio de 2022.

quinta-feira, 28 de abril de 2022

A melhor ideia

 

A melhor ideia

 

É agora, pegue o telefone. Ligue, mande mensagem, envie e-mail. É momento de celebrar, sim. Telefone, faça os convites.

É hora de voltar-se ao que não está perdido. Faça com que a alegria de estar entre os seus seja uma porta aberta. Mostre-se a quem deseja entrar que o convite é por afeto, que encontrar-se novamente pode ser tranquilo. Em circunstâncias de camaradagem, abrace o instante.

Não coloque em dúvida que seja possível realizar o que a pandemia tornou arriscado que fosse realizado. Houve realmente a necessidade de distanciamento, mas não há mais. Faça com que o ambiente esteja acolhedor a quem pretende estar presente. Torne-se um presente.

Sim, o instante é de acolher sem medo, ou apesar do medo. Porque nem todo mundo sabe agir como o esperado, não suponha que haja o padrão correto de comportamento.

Quem for de rir que ria; quem goste de resmungar que resmungue; que sorria quem acha graça de quem resmunga de quem ri à toa.

Que este momento seja de reunir-se, ainda que a desconfiança faça pensar que tudo pode pôr-se a perder. Que as pessoas se encontrem, ainda que tantos continuem a não se entender sobre tantas coisas.

Um encontro não precisa necessariamente ser festivo. Fracassarão as reuniões cuja meta seja o congraçamento universal. Não que esteja fadado a fracassar, pois fracasso é coisa humana e não existe destino, ou força metafísica, que condicione o que os homens fazem.

Assim como nem todo mundo tem a obrigação de agradar a quem quer que seja, tem quem fique feliz por necessidade. E tem quem aja com naturalidade, sem ficar avaliando o quanto está sendo feliz. E tem quem procura a felicidade em tudo que faz, e isso afasta quem oferece a mão. Pois, não tenha a obsessão de cumprimentar sinceramente.

É ridículo não dar folga nem a si mesmo.

Não mostre que a sua prioridade é estabelecer condições para que pessoas queridas conversem em paz. Sirva água, suco e refri sem que isso acarrete, em retribuição, um diálogo educado. Sirva cerveja, vinho e caipirinha sem cobrar dignidade aos bêbados.

Querer controlar o máximo que puder é arrumar dor de cabeça, pois as pessoas podem, com razão, se irritar quando impedidas de escolher com quem sentar-se. Já as que perdem a estribeira com sol e chuva, essas se alegram fácil, divertem-se muito e, sem surpresa, tornam-se insuportáveis sem que se saiba por quê.

Havendo ocasião, comemore-se. Do jeito que for. Sem enfiar o pai ou a mãe no meio ou pondo-os à roda. Tirando as crianças da sala ou dando-lhes o microfone. Acendendo a luz, abrindo as janelas, correndo as cortinas. Pondo no futebol. Esquecendo de prender os cachorros ou soltá-los pela casa. Servir pizza às três da tarde ou pudim de pão antes do arroz primavera.

Ou disso um tanto ou daquilo um nada.

Por redundância tão óbvia, um Dia das Mães perfeito é o ideal.

Tem ideia melhor?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de abril de 2022.

terça-feira, 26 de abril de 2022

O sétimo selo

 

O sétimo selo

 

Eram dez os desejos que listei de pronto, assim que ouvi que vamos ter outra loteria, a Milionária, logo mais, quiçá em maio.

Eram dez e viraram sete, e o número não foi reduzido pra que sejam feitas associações místicas com o cabalístico algarismo do período de azar a quem quebra espelho em mil pedaços.

Eram dez, viraram sete e, como o dragão da inflação despertou da hibernação, estou torcendo para que a bolada do primeiro sorteio seja suficiente pra que eu consiga realizar os tais desejos.

Espero estar rico da noite pro dia? Ou nem vou jogar.

Espero ganhar uma grana que tire o sono? Ou será coisa de sonso ficar conferindo se os tostões continuam na carteira.

Espero não me esquecer de que preciso sonhar os números certos quando a hora augusta chegar.

E o momento da revolução chegará, e ele virá porque os ventos da bonança estarão soprando a favor, porque em maio não sopram ventos nefastos. Afinal maio é o mês das noivas e das flores que não se abrem em outubro ou agosto, e elas valorizam maio.

E tão valorosa reação vai ser favorável ou serão da carochinha as folhas que narram o feliz achado de caravelas que vieram dar às costas deste abençoado país em cujos costados tudo que se planta as saúvas atacam.

E na memorável fábula deste escriba será lido que tive a vida virada no avesso, do sonho pra realidade, e realidade das boas.

E, pra não afrontar quem contribui compulsoriamente na fonte, esse conto renderá maior atrativo se permanecer restrito às ações discretas, como a distribuição de pão francês com margarina à metade da gente que venha me pedir chorando à toa.

E, em reconhecimento dos meus feitos, farei mesmo uma boa parte.

Esta narrativa nada homérica nem dantesca será cantada pela arte de ídolos, tão espontâneos ao cobrar algum jabaculê, porque pão com mortadela há de vir quando tudo melhorar com a carestia.

Eram dez os desejos mas restaram sete, pois a cabeça erra a conta se pressionada a separar mentirinhas, notícias falsas e maracutaias. E isso de misturar robótica com internet é invenção cabeluda.

Eram dez e ficaram sete, pois a verdade diz que o dinheiro da loteria servirá pra pôr leitos nos hospitais, câmeras nos uniformes e pedágios nas estradas, rodovias e picadas já asfaltadas.

E a tristeza triplicará em quem não tolera transparência.

E mais angustiado ficará quando souber que minha vigorosa saúde mental revela no sonhador o realista, como quem não esquece os oitos dígitos, que são diferentes dos números da data do meu aniversário, e farei miséria se digitar corretamente.

E, sem quartel, correrá de boca em boca que a alvorada deste novo futuro será enaltecida pelo céu de brigadeiro, por gaivotas flanando em velocidade de cruzeiro e urutus saídos dos seus buracos.

E, por fora, os governos se espelharão no empenho desse primeiro ganhador bem milionário ou nada feito.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 26 de abril de 2022.

domingo, 24 de abril de 2022

Surdo da madrugada

 

Surdo da madrugada

 

Não me ocorre ir da água pro vinho, porém, se ocorresse de querer uma mudança tão radical, suponho que um número desconhecido teria de parar de ligar quando a gente está almoçando.

Pelo prefixo, já estou ouvindo a pessoa do outro lado da linha dando o melhor para empurrar o que sequer tenho interesse de saber do que se trata.

Tentativas de persuasão de trocar um plano de saúde por outro bem mais vantajoso são vãs, porque a insistência não me fará escutar o que não quero nem ouvir.

Prefiro concordar com meus botões que me dissuadem de espumar de graça, porque ter o celular tocando não implica que alguém se sinta obrigado a atendê-lo.

De jeito nenhum que vou parar de comer, uma vez que seria idiotice deixar esfriando o bife na ponta do garfo. Até adivinho que só pode ser aquele número chato que sabe muito bem o quanto precisa importunar pra me ferver os nervos.

Todavia, a um telefonema da perda da elegância, me vem à mente o que li outro dia. Por uma convivência menos desaforada, o manual é direto: fique calmo, fique bem.

Se não estivesse precisando arrumar serviço que me permita pagar a luz, eu desligaria o aparelho. Como não posso agir contra mim, tiro o som do celular.

O telefone começa a vibrar. Deve ser um teste, porque, contrariado, vou acabar negando o preceito: fique bem, seja feliz.

Neste momento, a minha felicidade depende de um analgésico pra dor de cabeça. Ainda bem que é o comprimido certo que eu tomo.

Aborrecido, irritado à beça, a saída para aliviar a carga do que está chateando é lavar a louça. Vamos! Seja feliz, faça o possível.

Faço o possível, sou racional.

Sim, senhor, sou um praticante da racionalidade cidadã. Numa boa, termino de lavar tudo e enxugo a pia. Já que sou uma pessoa bastante racional, o que usei pode muito bem ficar no escorredor. Uma vez que não gasto energia enxugando talheres e prato, tenho reservas para me controlar. Sob controle, não brigo com quem está fazendo apenas seu trabalho.

Sim, senhora, não sou gente que vive criando caso só porque a tela do telefone acende quando recebe uma chamada. Sim, ela está acesa novamente, toda chamativa, com mais uma das chamadas que servem pra gente perder tempo.

Sim, senhoras e senhores, sou um cara que não se apavora diante dos contratempos. Manter-se frio é meio caminho andado pra não criar fantasma que venha assombrar um sujeito pacato.

Esse negócio de assombração, aliás, dá pano pra manga pra quem é chegado a apavoramento. Que peninha, o suco denso acaba aguado pelo exagero de botar gelo para disfarçar o gosto ruim. E o que não dá pra beber vira prejuízo quando o copo é virado no ralo.

Não jogo nada. Bebo num gole que nem respiro.

Nestes dias de carnaval pós-pasqualino, posso respirar com calma e ficar de boa sem me aborrecer com besteira.

Como consigo?

Me desligo do mundo ao entrar de cabeça na batida das escolas.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de abril de 2022.

quinta-feira, 21 de abril de 2022

Vira-latice

 

Vira-latice

 

Um vira-lata alegra mesmo a gente?

Por mais sedutoras que se apresentem, não aceito barganhas. De modo algum, porque acho deplorável o rebaixamento de desabonar a verdade que estou sentindo. Embora soe impertinente a quem esteja acostumado a escutar-se até mais correto pela boca dos outros, prefiro elogiar o vira-lata que não leva o mundo à breca.

Sem a empáfia de envaidecer-me ao dizê-lo, sou tendencioso. Uma vez que não há de ser por fogacho qualquer que avivo em mim a paixão que me faz esta pessoa solar, tropicalíssima.

Se me for lícita a lisonja da simplicidade da boa-fé, repasso a quem afeito a ludibriantes aviltamentos conciliatórios que fique à vontade pra proclamar o seu mais vetusto puxa-saquismo pacificador.

Em outras palavras, não se cobre de mim que me coloque alinhado àquele que torce pro buraco no meio da passada da gente que vai em frente, que segue cavando um lugar ao sol.

Ao sol, passem carros, suas calotas e buzinas, que o vira-lata pode correr, latir e sossegar-se, pois ele é que sabe dos seus quereres.

Se porventura ainda não me fiz cristalino, reitero que espero de mim não me pôr tosco, agindo como quem se acha livre da imbecilidade por rir abertamente da desgraça de quem sofre.

Esclareço, quem vive sem vislumbrar outro futuro que não seja o de viver mágoas a cada dia, essa gente se diverte como pode, quando dá, pro alívio que consiga alcançar.

Feita a ressalva, quero que esteja garantida a justa isenção perante os fatos. Ou limpe-se a lente imunda, e tacanha, que insiste em ver no vira-lata um bicho feroz que ataca a vida que morde na jugular.

Sem monstruosidades de espetaculoso mau gosto, na casa ao lado da minha tem esse animal atento ao que há além das grades.

Neste quintal, o bicho está pra lá e pra cá, o tempo todo, dia e noite, com sol ou chuva, passando ambulância, polícia ou bombeiros, ele fica mesmo indo e vindo, sem latido algum que denuncie sua presença. Por um relato menos infiel, digo que ele não se deixa abater por fome, sono ou cansaço, porque este cão é muito, muito capaz de esquisitices.

Não que seja exemplar raro. A sua genética vem de linhagem pura. A sua postura é pra defesa. A sua mandíbula é forte. Seus dentes têm fio agudo. A sua determinação é fruto de aprimoramentos. Está pronto pra aniquilar o que represente ameaça à inviolabilidade do lugar onde está confinado. É criatura a postos pra selvajaria necessária. Astuto na vigília, não late às pombas que vêm ciscar, destroçando-as de assalto.

Caviloso, não esconde que é o cão.

Como não peço desculpa, não me ocorre pedir perdão por estragar o sossego de quem não ignora o dia lindo, o céu azul, o outono ameno, que tudo neste instante é em prol da reconciliação do ser humano com o universo que o circunda.

Seja desculpado o poste pelo qual passa batido o vira-lata que, sem falso pudor, mija no chão mesmo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de abril de 2022.

terça-feira, 19 de abril de 2022

Angelical

 

Angelical

 

Amiga Angélica está no sítio. Veio na quinta-feira à noite, depois de mais um dia trabalhando porque precisa. Tem contas pra pagar. Faz o que é preciso, porque as suas contas são do tipo que não prescrevem, nem quando deixadas nas gavetas. E como faltam outras gavetas, que não façam evaporar o cheirinho das bugigangas tentadoras pra seguir no rastro de juros sobre juros, essa trilha argentária que às vezes nem se apaga depois de comprovada a dívida liquidada. Para não ficar mais aborrecida do que está, veio passar a Páscoa no sítio.

Amiga Angélica, tão miseranda quanto nos dias em que tem mesmo que se entregar a fazer negócios que aumentam seus aborrecimentos, está com os celulares ligados, precisamente porque seus dias de ócio são ficção. Nem inventados nem de mentira, são crias de suas vigílias contaminadas por ansiedades. Já que não dorme mais que três horas seguidas, acordando para nada, para assuntar tudo, a esmo. Só que a aurora entra pelo quarto, coçando-a pros compromissos que poderiam pegar um solzinho bom na piscina mas que não se deixam adiar nem com telefone de bateria arriada.

Amiga Angélica gosta de e-mails, e vai enviando, curtos, longos, do jeito que anda a sua cachola, sempre cheia de opiniões. Dar com uma vara na mangueira pra comer sentada à sombra ou baixar o sarrafo em governante que não quer blocos na rua? Faz os dois.

Amiga Angélica toma gosto por um pensamento súbito. Justamente porque soa estapafúrdia, vai ajuntando os cacos até que se convença de que aquela bobagem sabe parar em pé. Pegando num apoio aqui e tomando uma escorregadela ali, em nome de uma sexta mais viva.

Amiga Angélica, sem paciência pra aguardar, diz que a pessoa que chega ao topo não deveria sentir vergonha de ser hipócrita. A felicidade não tem preço, logo, pague-se mais a quem trabalha como se gostasse realmente do que faz. Pessoas que se alegram em fazer melhor o que vêm fazendo pra subir na vida merecem ganhar mais. Elas sabem que estar no topo é ocupação momentânea, porque ninguém dura no cargo mais do que o necessário.

Amiga Angélica emenda, já que não tem dinheiro na vida que pague a felicidade alcançada, quem chega ao topo tem mais é que trabalhar por amor, sem salário. Com tanto que fazer, é desonroso ficar brigando por salário, implorando por reajuste ou entrando em greve todo ano.

Amiga Angélica, que não sossega, diz que o certo é cobrar caro por fazer o que não gosta. Fundamental é esconder o medo de viver ao fio da navalha. É feio perguntar por rede de segurança. Ao olhar pra baixo, não se tenha vertigem nem súbitos de pular. O importante é saber que a vida não prega surpresas e a jornada esgota ao longo do expediente. Seja incluída a angústia de morrer no meio do caminho e enfie-se ágio polpudo no negócio, uma vez que desprezo vale muito a pena quando entra uma bufunfa graúda na jogada.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de abril de 2022.