O
sétimo selo
Eram dez os desejos que listei de
pronto, assim que ouvi que vamos ter outra loteria, a Milionária, logo mais,
quiçá em maio.
Eram dez e viraram sete, e o número não
foi reduzido pra que sejam feitas associações místicas com o cabalístico
algarismo do período de azar a quem quebra espelho em mil pedaços.
Eram dez, viraram sete e, como o dragão
da inflação despertou da hibernação, estou torcendo para que a bolada do
primeiro sorteio seja suficiente pra que eu consiga realizar os tais desejos.
Espero estar rico da noite pro dia? Ou
nem vou jogar.
Espero ganhar uma grana que tire o sono?
Ou será coisa de sonso ficar conferindo se os tostões continuam na carteira.
Espero não me esquecer de que preciso
sonhar os números certos quando a hora augusta chegar.
E o momento da revolução chegará, e ele virá
porque os ventos da bonança estarão soprando a favor, porque em maio não sopram
ventos nefastos. Afinal maio é o mês das noivas e das flores que não se abrem
em outubro ou agosto, e elas valorizam maio.
E tão valorosa reação vai ser favorável ou
serão da carochinha as folhas que narram o feliz achado de caravelas que vieram
dar às costas deste abençoado país em cujos costados tudo que se planta as
saúvas atacam.
E na memorável fábula deste escriba será
lido que tive a vida virada no avesso, do sonho pra realidade, e realidade das
boas.
E, pra não afrontar quem contribui compulsoriamente
na fonte, esse conto renderá maior atrativo se permanecer restrito às ações discretas,
como a distribuição de pão francês com margarina à metade da gente que venha me
pedir chorando à toa.
E, em reconhecimento dos meus feitos,
farei mesmo uma boa parte.
Esta narrativa nada homérica nem
dantesca será cantada pela arte de ídolos, tão espontâneos ao cobrar algum jabaculê,
porque pão com mortadela há de vir quando tudo melhorar com a carestia.
Eram dez os desejos mas restaram sete,
pois a cabeça erra a conta se pressionada a separar mentirinhas, notícias
falsas e maracutaias. E isso de misturar robótica com internet é invenção
cabeluda.
Eram dez e ficaram sete, pois a verdade diz
que o dinheiro da loteria servirá pra pôr leitos nos hospitais, câmeras nos
uniformes e pedágios nas estradas, rodovias e picadas já asfaltadas.
E a tristeza triplicará em quem não
tolera transparência.
E mais angustiado ficará quando souber que
minha vigorosa saúde mental revela no sonhador o realista, como quem não
esquece os oitos dígitos, que são diferentes dos números da data do meu
aniversário, e farei miséria se digitar corretamente.
E, sem quartel, correrá de boca em boca
que a alvorada deste novo futuro será enaltecida pelo céu de brigadeiro, por gaivotas
flanando em velocidade de cruzeiro e urutus saídos dos seus buracos.
E, por fora, os governos se espelharão no
empenho desse primeiro ganhador bem milionário ou nada feito.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 26 de abril de 2022.