terça-feira, 22 de março de 2022

Sem curinga

 

Sem curinga

 

As águas fechando o verão. A noite vindo. A cama que o corpo quer. Tudo indica outro domingo terminando tranquilo, mas...

É óbvio que um mas tem que entrar ou não haveria história, haveria tédio; e teríamos o cansaço de tanta sonolência entediada.

Mas a garoa da tardinha não acha veias nostálgicas em mim, que o meu peito não esquenta o sangue na minha cabeça. Sinto que estou gelado, mais frio que o normal.

É preciso passar um café, estourar pipoca, esperar que passe logo.

Mas pensamentos modorrentos cansam, aborrecem um bocado. Só ficando em pé para não cochilar. E já modorro o bastante para bocejos enfileirados, nem aguardo a água ferver. Com ela borbulhando, passo o café que sirvo rápido.

Ponho pressão em mim. Acelero. Queimo a boca. Firo a língua, mas não desisto de beber o café quente passado agora, neste momento a que me obrigo não perder de vista que é domingo.

Faz este friozinho de fim de tarde. Está garoando como previsto.

Sinto que devagar não irei longe, porque acabarei dormindo deitado no sofá, perdendo de ver um filme, ler um livro, ouvir música. Tudo isso porque teria paciência de esperar o café esfriar, para manter o costume de beber café frio.

Desta vez, contudo, o beberei quente.

Eu beberei quente porque não quero ler as borras. Não me deixarei frustrar com os restos na xícara, porque não saber qual o futuro traçado pelas sobras no fundo me fará atirar a xícara na parede.

Serei estúpido pra agir como estúpido. Sabendo que a hora seguirá, agirei contra mim. Contra a ideia de que tenho o dever de permanecer lúcido, raciocinando a favor de um fim de tarde de domingo sem entrar pelo desespero de não ter mais o que fazer comigo.

Mas deitar no sofá não é o mesmo que atirar xícaras na parede.

Que droga. Pus açúcar a mais.

Bebo assim mesmo, porque, distraído por um sorriso nervoso, acho pouco engraçada a ideia de que poderia estar aborrecido comigo. Não estou nem quero estar. Bebo, vou bebericando, e fico forçando pousar a xícara no pires como se ela fosse uma pena estragada pela ação da gravidade.

Sopro o café. Queria me divertir com o vaporzinho do café, mas não consigo. Pressinto que há pensamentos mórbidos que esperam minha distração, que perca o foco. Que eu sopre o café sem notar que o vapor sobe e o ar da cozinha continua úmido e gelado.

O outono chegou de repente. Ele veio antes do combinado.

Não quero correr pra sala. Não quero me apressar. Não tenho nada de ir furibundo me sentar diante da TV.

Todavia tenho TV. Vejo bombardeios. Contam-se os bebês mortos.

A ansiedade não ensina a anestesiar a intuição.

Como pular de paraquedas se não houver mais o amanhã? Puxaria o ar frio das alturas? Prenderia a respiração no instante do salto? Teria como atingir o alvo com o vento acima do calculado?

Não me belisco, mordisco o nó do indicador.

Eu não jogo sujo nem tento: bem cansado, eu adormeço.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de março de 2022.

 

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