Cavalo dado
De ilusão também se vive, pois ficar
preso à realidade vinte e quatro horas por dia tem o efeito colateral de deixar
a gente meio doida. Como o noticiário não está no gibi, viver só de atualidade
é dose.
Deve ser por isso que devoro quadrinhos
desde que comecei a ler. Antes de entrar na escola, ali por volta dos cinco
anos, virei devorador. Dali em diante fiquei este doido que adora se empanturrar
com história de todo quilate, de fotonovela vagabunda a mistério infantojuvenil.
Se lembro bem, a minha escalada teve
início com Os Sobrinhos do Capitão. Quem comprava era o meu irmão, mas, no que
ele cochilava, eu tinha sumido quintal adentro pra ler tudinho numa sentada,
sentado num galho do abacateiro.
Todo consumo desenfreado deixa sequelas,
e o garoto que fui tinha seus momentos de ir pegando no sono durante a aula. A
professora ia falando, falando muita coisa interessante a quem precisava se
manter interessado no que ela ia falando, falando. E eu me ausentava de corpo
presente, abduzido pela irrealidade, viajante à carteira.
Acontecia de não aguentar, é que minha
mente precisava dar a sua escapadinha por lugares menos monótonos, vinha a mim
a compulsão de esvaziá-la, rearranjar os espaços internos, mover espreguiçadeiras,
bater o pó da rede, liberar na consciência vazios pro que parecia estar a
anos-luz do material que todo aluno não deveria ignorar.
Assim, o tempo era o nada suspenso num
ponto entre a professora toda professoral e o quadro-negro caligraficamente
adornado por letras e números. Era um nada tão hipnótico que nem me percebia
abismado.
Com o queixo apoiado na mão, respirava
de boca fechada.
Respiro, e não faço o pedido de uma vez.
Primeiro, tragam-me o suco de avocado,
com umas pedras de gelo. Não importa o frio, se estou pedindo gelo extra no
copo, tragam-me.
Não me falta parafuso na cachola, sobram-me
desestimulantes.
Preciso de alguns minutos para nem
pensar na vida. Sei que posso esquecer os cães vadios indo de poste em poste.
Quero caçar à toa as moscas que não escapolem pela saída.
De repente, tenho companhia.
Carlito está sentado comigo. Nem precisa
abrir a boca. Com o olhar melancólico de gente sofrida pousado em mim, não estou
abandonado. E estar bem acompanhado é o que importa.
Buster Keaton poderia vir juntar-se a
nós, mas ele não aparece. É que poderia me confundir, tirando esfinges inumanas
de sua persona.
Quem vem me espiar é Greta Garbo. E sua
presença mexe comigo. E aquela boca. Se não desviar os olhos, conhecerão a
febre da paixão, que tanto idolatro tal musa que diz muito ao meu espírito.
E quero cachorro-quente, mostarda e
ketchup. Sal eu não posso.
Sorrindo pra mim no espelho, Zeppo está
lá fora.
Preciso ir. De fato, preciso ir.
Ainda que sofra pelo tanto que tenho por
fazer, serei afável e cortês, que isso sacode o menino comedido do meu coração.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 24 de março de 2022.
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