domingo, 27 de março de 2022

Tolo de ouro

 

Tolo de ouro

 

Entre um pigarro e outro, é forte a impressão de que se confirme o pressentimento: algo está para acontecer bem na rua onde mora.

Pela sensação, só pode ter a ver com a casa ao lado, ou não estaria com vontade quiçá desmiolada de pular o muro do quintal para ir beber água fresca da mangueira.

Não invade o terreno alheio, come chocolate. Porque chocolate tem este poder tal que comê-lo faz com que vá arrefecendo certos desejos, os que mais pondera desequilibrados, muito açucarados.

Às vezes, no entanto, custa um pouco mais do que o normal, como se a falta de ar só fosse passar se enfiasse na boca aquele troço sujo, a ponta do esguicho diuturnamente exposta a urina de rato.

Pagando o sobrepreço, depois de terminada a segunda barra, nem se lembra do impulso maluco, pensa que tem que mudar o tipo, porque o 70% meio amargo o faz disparar a tosse até quase desmaiar, o que provocará a baita dor de cabeça latejante nas têmporas.

O resultado? Quer mais chocolate.

Excedendo, nem pensa em correr ao banheiro, faz as necessidades no meio do farto tufo de capim, num capinzal da altura de um elefante, o que não acalma o intestino de modo algum.

Do bojo do capinzal onde se curva, voltado sobre si naquele ventre que ainda se mantém verde em pleno outono, é dali que aguarda que cabeças surjam no topo do muro. Ainda que possam dele se esconder, desconfia que se atrevem a vê-lo tão frágil.

Ali está ele: agachado, depois da evacuação repentina; imaginando o gosto da água suja da mangueira; sentindo já um gosto salgado, que o mijo do rato se mistura ao dourado do cobre dos canos que fazem a água incolor perder a sua falta de cor e ganhar um sabor de mar.

Não há mar, há mais um jato de urina sobre restos de goiaba.

Pelamor, é disparate associar a cor da goiaba com a da maçã, cuja carga é bíblica.

Ele não gosta do gosto que tem na boca. É que parece ter terra na boca e tem também o gosto do mar.

Nada de acreditar que formigas possam sair do ventre da Terra pra virem devorar as sobras que traz nas entranhas.

Devem achá-lo tolo por atinar que têm a intenção de baratiná-lo.

Caraca, não o obriguem a beber guaraná. É que tanto faz que seja em pó, lata ou engarrafado, guaraná dá coceira e dor de cabeça.

E tanta coisa está prestes a virar realidade.

Pode soar como mentira deslavada, só que achar dinheiro na rua é coisa que acontece, mas o que não se vê a toda hora é encontrar uma carteira com dinheiro que dê para comprar uma TV 75”, um celular com seis câmeras e uma bicicleta elétrica em dólar.

Não chove, mas a luz será cortada. A goiabeira tombará. A caminho de casa, o motor pifará. E temerá as águas. Viessem guinchar o carro. Rezará pra que o rio volte ao leito de cada dia. Quando vir que poderá andar sem afundar em buraco, sairá da baleia metálica. Com água pela canela, pensará num banho quente.

Bom, o que tem brotado diante do portão da sua casa é serralha.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 27 de março de 2022.

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