Tolo de ouro
Entre um pigarro e outro, é forte a
impressão de que se confirme o pressentimento: algo está para acontecer bem na
rua onde mora.
Pela sensação, só pode ter a ver com a
casa ao lado, ou não estaria com vontade quiçá desmiolada de pular o muro do
quintal para ir beber água fresca da mangueira.
Não invade o terreno alheio, come
chocolate. Porque chocolate tem este poder tal que comê-lo faz com que vá arrefecendo
certos desejos, os que mais pondera desequilibrados, muito açucarados.
Às vezes, no entanto, custa um pouco
mais do que o normal, como se a falta de ar só fosse passar se enfiasse na boca
aquele troço sujo, a ponta do esguicho diuturnamente exposta a urina de rato.
Pagando o sobrepreço, depois de
terminada a segunda barra, nem se lembra do impulso maluco, pensa que tem que
mudar o tipo, porque o 70% meio amargo o faz disparar a tosse até quase
desmaiar, o que provocará a baita dor de cabeça latejante nas têmporas.
O resultado? Quer mais chocolate.
Excedendo, nem pensa em correr ao
banheiro, faz as necessidades no meio do farto tufo de capim, num capinzal da altura
de um elefante, o que não acalma o intestino de modo algum.
Do bojo do capinzal onde se curva, voltado
sobre si naquele ventre que ainda se mantém verde em pleno outono, é dali que aguarda
que cabeças surjam no topo do muro. Ainda que possam dele se esconder,
desconfia que se atrevem a vê-lo tão frágil.
Ali está ele: agachado, depois da
evacuação repentina; imaginando o gosto da água suja da mangueira; sentindo já
um gosto salgado, que o mijo do rato se mistura ao dourado do cobre dos canos que
fazem a água incolor perder a sua falta de cor e ganhar um sabor de mar.
Não há mar, há mais um jato de urina
sobre restos de goiaba.
Pelamor, é disparate associar a cor da goiaba
com a da maçã, cuja carga é bíblica.
Ele não gosta do gosto que tem na boca.
É que parece ter terra na boca e tem também o gosto do mar.
Nada de acreditar que formigas possam sair
do ventre da Terra pra virem devorar as sobras que traz nas entranhas.
Devem achá-lo tolo por atinar que têm a
intenção de baratiná-lo.
Caraca, não o obriguem a beber guaraná. É
que tanto faz que seja em pó, lata ou engarrafado, guaraná dá coceira e dor de
cabeça.
E tanta coisa está prestes a virar
realidade.
Pode soar como mentira deslavada, só que
achar dinheiro na rua é coisa que acontece, mas o que não se vê a toda hora é encontrar
uma carteira com dinheiro que dê para comprar uma TV 75”, um celular com seis
câmeras e uma bicicleta elétrica em dólar.
Não chove, mas a luz será cortada. A goiabeira
tombará. A caminho de casa, o motor pifará. E temerá as águas. Viessem guinchar
o carro. Rezará pra que o rio volte ao leito de cada dia. Quando vir que poderá
andar sem afundar em buraco, sairá da baleia metálica. Com água pela canela, pensará
num banho quente.
Bom, o que tem brotado diante do portão
da sua casa é serralha.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 27 de março de 2022.
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