terça-feira, 29 de março de 2022

Um tapa besta

 

Um tapa besta

 

Uma bem-vinda vontade de comer bolo me pega pela saliva, que a boca vai enchendo, transborda e viro babar gostoso com a ideia de me esbaldar com o chocolate no recheio e nas lascas da cobertura.

Abro o parêntese. Pra evitar diz-que-me-disse, vou logo explicando: chocolate escuro é pesado e ataca a gastrite. Só isso. Eu prefiro comer branco em vez de escuro por causa da saúde. Repito que é só por isso. Fecho o parêntese.

Ficar maravilhado com algo tão singelo é que me faz acreditar num mundo menos atormentado. É claro, não vou agir como imbecil, porque muitas angústias terão mais condições de entrar em segundo plano se houver bolo para todos.

Em existindo, acho até que seja possível haver convivência pacífica entre homens de terno e mulheres de laquê, meninos com bodoques e meninas com patins, senhoras pés-de-valsa e senhores do dominó.

Aliás, antes da harmonia entre pessoas de distintas prioridades, eu confio que a lei alcança profundidade muito ética no fundamental: todo mundo tem direito a roncar numa rede depois de um bolo bom.

O importante é que haja espaço permitido a quem deseja armar sua rede, que haja tempo para fazer a digestão e que haja quem possibilite ter como se empanturrar de bolo quando a gente bem quiser.

Neste momento, porém, não estou numa varanda nem vou inventar de procurar uma rede. Posso estar parado, mas não estou abobado.

E com tanta coisa vibrando, ao meu redor e em mim, sei que o caos é mundano. É do mundo, e mais ainda: é urbano.

Ô instinto animal de bicho homem!

Como não desejo me perder, sequer em pensamento, sinto estar a um passo de uma ideia. Como bolo saído do forno, as palavras certas dão ideia boa de ser compartilhada com quem queira desfrutá-la.

Poderia pensar melhor, com moderação e juízo se a minha barriga não estivesse roncando. Porque o ronco parece onça, não consigo me concentrar. Sem me dominar, preciso escapar do pesadelo que é não ter equilíbrio pra não vidrar no que me falta.

Não sei como domesticar essa força que me faz querer bolo.

Queria controlada a fonte de desejos, mas há fissuras obscuras em minha cachola que permitem esta necessidade que se apodera de mim e me faz querer rodar por aí atrás de um pedaço de bolo.

Queria ficar longe do sereno da madrugada na minha careca.

Queria tanto poder ficar saciado, satisfeito e feliz só com a ideia de que posso comer um dedinho de bolo de chocolate.

Queria que a barriga roncando não me envergonhasse como estou envergonhado, que nem fome eu tenho, caramba.

Embora esteja sozinho, disfarço e ponho a mão sobre a roncadora desembestada, afinal, manter a postura é sinal de bons modos.

Abro outro parêntese. O que leva esta pessoa a trocar um bolo de chocolate por um copo de leite? Como não ficar possesso com quem agita mundos e fundos pra beber leitinho frio? Fecho outro parêntese.

De mim mesmo, tomo um tapa.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 29 de março de 2022.

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