quinta-feira, 31 de março de 2022

Rancoroso nada

 

Rancoroso nada

 

Em pé ou sentada, no bar tem muita gente.

Tem quem não jogue conversa fora, nem um teco como santo nem um tico feito besta. Achando de forçar tanta doçura, tem quem amanse a raiva engolindo tubaína quente.

Em meio à estridência, uma pessoa se aquieta.

Parada diante da estufa de salgadinhos, faz um bom tempo que ela está olhando. Pra que tanta concentração se só tem um quibe?

A mão do braço na tipoia está engessada. Estar encostado, porém, não autoriza ninguém a desprezar os entregadores que, descarregada a bebida, tomam um cafezinho colados ao homem calado.

Vendo-o abstraído do entra-e-sai, seria adivinhação leviana atribuir à cachaça o poder de fixá-lo abduzido. Ele, aliás, nunca bebeu álcool, nem quando a filha mais velha o fez debutar como par de valsa.

O homem está afastado. Não tem como assentar tijolo. Ficará outro mês de molho. Chegaram a implantar parafusos e plaquinhas de titânio na munheca, mas, pelo que foi falado, tudo vai bem. Pra não ficar muito tempo parado, tem de pegar pesado na fisioterapia. Precisa voltar logo, que seja antes de completar um semestre de afastamento.

Tomá-lo como angustiado a depositar seus fantasmas num solitário quibe exposto no balcão de um bar diz o quão sinistros andam os seus dias. Sem dúvida, são dias infindos, dolorosos, difíceis de viver, mas o salgado não está ali como âncora da realidade.

A pessoa que não fala, que se esforça pra permanecer fechada, ela não é nenhuma companhia simpática. Entretanto, isso não desestimula quem chega desarmado, querendo puxar assunto.

A pessoas que nunca olham a gente no olho, em gentes assim, que fazem questão de olhar fixo um quibe, a elas convém prestar atenção, tentando compreendê-las pelo que não dizem.

Para dar um basta àquela cena angustiante, um bêbado de sorriso franco pede que lhe seja servido o salgadinho que sobra na estufa.

Nem precisa esquentar no micro-ondas, mas precisa de pimenta e de um limãozinho.

Assim que o pau d’água balançante pega o quibe, parte-o ao meio e estende uma metade ao sujeito que o observa sem queixo caído.

A generosidade é humana, ele é humano, logo ele é generoso pra caramba. Pra caramba é modo de dizer, pois ele é gente que dá o que pode só quando pode, sem que lhe faça falta. Pois é uma baita burrice repartir o que não tem como ser compartilhado.

Num instante, a situação é constrangedora.

Nada é dito. Os corpos ficam duros. Pigarros são forçados.

Contudo, o olhar do homem de gesso na mão é de ofendido que se recusa a aceitar que age por desfeita. No fundo, sua aspereza é a de quem lamenta o fado do quibe, que ficou pra trás.

Coxinhas, rissoles, esfihas, empadinhas, pastéis e bolinhos de ovo conhecem consumo fácil quando vendidos ainda tenros e apetitosos.

Não deseja criar caso, mas será que ninguém tem coragem de dizer que quibe frio com um grude de cheddar é de lascar?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 31 de março de 2022.

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