domingo, 17 de abril de 2022

Sobrecarga

 

Sobrecarga

 

Uma gritaria começou de repente.

Para que a minha curiosidade não virasse desdém, fui conferir que arruaça era aquela. E fui porque, sem nenhum traço de extraordinário, a um morador pode, sim, acontecer de ficar preocupado com o que se passa na vizinhança.

Aliás, a balbúrdia me tirou de um sonho meia boca que aborrecia a cada segundo, porque eu fui ficando mais e mais decepcionado com a florzinha que deveria abrir-se às onze horas e, passados dez minutos, pitibiribas de a bendita florir respeitando o próprio nome.

Dois camaradas da velha guarda gritavam.

ꟷ Deixe de frescura. Desça logo.

ꟷ Só que o pessoal vai ficar zoando com a cara do cidadão.

Esse camarada que, aos berros, se referia a si na terceira pessoa é dessas figurinhas carimbadas. Gente que se faz única pelas histórias que, apenas contando, não dá pra levar a sério que tenham ocorrido.

Se eu tivesse permanecido invisível no meu silêncio de espectador, teria ficado de fora de outra roubada, mas não resisti a pagar pra ver.

ꟷ Que barraco é esse na rua? Vocês não vão almoçar, não?

ꟷ Justamente! O bonitão aqui quer ir pro churrasco de pijama.

De pijama, e não haveria novidade.

É que vestido assim, na certa, dará problema. Sempre dá, e vai ser enrascada das grandes. Parece que os reis da baixaria têm predileção por essa pessoa, que bebe umas a mais e adeus bom comportamento.

Certa vez, ele chegou antes do dono da casa. Sentado no meio-fio, ficou bebericando uma garrafa de vodca. Sem estresse, numa boa, foi tomando a sua vodiquinha que até perdeu a conta de que opinião torta não fica afetada por boca torta.

Como língua de bêbado solta a trava, disparou o que não devia.

ꟷ Cê nunca respeita os outros, hein? Cê acha que pode fazer o que bem entende, hein? Porque a casa é sua, a churrasqueira é sua, então, tudo bem? Pra deixar de ser besta, cê um dia vai tomar um murro bem dado na fuça. Mas não se preocupe comigo, porque não vai ser eu que vou enfiar a mão no cê. Só que daí eu quero ver se o cê vai ter coragem pra reclamar do sopapo. É, folgado, chegar atrasado não tem graça. A picanha deveria estar no fogo faz tempo, seu bocó. E vai ter espertinho que vai vir alugar a minha oreia, mas a culpa pela demora não é minha, cacete. Só que ninguém vê o trabalho que dá preparar a carne do jeito certo. É meu nome na reta. Quem vai comprar a carne certa, com a cor da peça do jeito que tem que ser, quem sabe fazer certo, quem é? Sou eu. Não tem pra ninguém, pois ninguém deixa a picanha no ponto que nem eu deixo. Pra carne não ficar dura nem perder o sabor, o segredo está no sal grosso. Sem modéstia, meu caro, sei como deve ser duro pra engolir que eu sou melhor picanheiro que você.

Onde a carga pesa, o riso alivia.

Daí nem precisa esfregar na cara de quem não acredita na verdade, que a cabeça leve bola fácil um aplicativo que mostre o quanto a capa de gordura faz mais rico quem vende picanha.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de abril de 2022.

quinta-feira, 14 de abril de 2022

Dicas

 

Dicas

 

Quando cobram de mim que me posicione sobre algum assunto que esteja bombando no momento, não preciso fazer esforço porque tenho facilidade pra me localizar em meio ao tiroteio entre inimigos figadais.

Não abro mão de ficar consciente; trabalho para seguir centrado em mim; quando decididamente é necessário, enfio a mão na massa para permanecer lúcido: preservo a minha liberdade de crer em mim.

Digo isso porque, resolvidas a quebrar o pau por livre e espontâneo arbítrio, as pessoas correm apagar a luz. Pois no escuro nem é preciso fechar os olhos para disparar na direção em que, presume-se, estejam só os facínoras repulsivos.

Mesmo havendo o risco de um morticínio generalizado, de parte a parte, o fogo amigo decididamente dá as caras e os sobreviventes se veem na posição insuportável de chamar cadáveres pelo nome, pois a ética está na compreensão dos números como estatísticas funestas.

Perco o sono; tenho engulhos quando consigo comer alguma coisa; e trato de manter a prontidão contra quem me queira enquadrado como mais outro zero à esquerda.

Enfim, vergonhosamente, armas úteis podem ser nocivas. Todavia, há circunstâncias nas quais tenho dúvidas de como as manejo, o jeito, portanto, é não insultar nem ridicularizar o que vem me assaltar.

Aprender a viver é aprender a pedir ajuda?

De chofre, contei à professora que meu sonho era ser padre. Queria ser como José, que foi o melhor padre que tive a honra de enfrentar na infância. A sua alma era maior que a sua peregrinação, dos arrabaldes de Xangai até o tabuleiro da casa paroquial ibiunense.

Mais que o bê-á-bá, o chinês me ensinou a sacrificar cavalo, bispo e rainha. Se eu vivia perdendo, era porque o enxadrista estratégico não fica sorrindo antes de cada jogada.

Como não cresci o tanto que almejava crescer para chegar à altura nem que fosse do Mequinho que um dia foi-me possível enfrentar, virei perder pro computador. Queria ser bom o bastante pra saber o que faz de mim esse ferrenho iniciante que não passa do sexto lance.

Aprender a viver é aprender a pedir ajuda na hora certa?

E digo isso porque, antes da pandemia, bem no comecinho, quando o comércio estava para baixar as portas, acho provável que tenha sido nesse período obscuro que pude viver uma lição moral que levarei pro túmulo como sendo uma glória profundamente minha.

O homem veio a mim porque estava certo de que a festa começou comigo a comer um filé à parmegiana como quem devora um sanduba, pois eu lambia dedos e beiços.

O homem tomou para si a mão que segurava a faca e cortou o bife sem titubear e tomou pra si a mão que segurava o garfo e me fez enfiar na boca o pedaço de bife que havíamos cortado, e aquilo foi bom.

Isso de aprender a viver é aprender a pedir ajuda à pessoa honrada que, justamente na hora certa, resolve estar no lugar certo?

Sei não... Dica boa em cabeça dura funde a cuca.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de abril de 2022.

terça-feira, 12 de abril de 2022

Muita calma

 

Muita calma

 

Então, a TV vai passando que isso mais aquilo vêm ocorrendo sem que a paz entre pessoas racionais seja selada com um saboroso licor de uva de uma lavra equidistante, que é para não atiçar às desavenças sanguinolentas as partes conflitantes.

Sabe-se que na batalha pela vida quem luta tem razão. Embora ter razão propriamente não estimule ignorar onde os canhotos se apartam dos destros. E quão plena é a racionalidade ambidestra?

Se estivesse interessado em matar o tempo acompanhando quem, intrépido imbecil, cava notícias nas trincheiras da luta, dispensaria uns minutos a mais, porém vai começar a corrida de carros elétricos.

Com a corrida, que o aquecimento global vá pro inferno?

Quero que vá, mas nem precisa. Porca miséria! O inferno está aqui.

É porque o inferno fica estabelecido na face da Terra que eu afianço bastante razoável protestar contra a queima dos combustíveis fósseis, contudo o desgramado do calor não dá bola às milhares de mensagens tão violentamente corretas que pululam nas redes.

Aperto os números do canal de esportes, entra outro no lugar.

Caramba, não poderei editar as imagens dos bólidos despenteando homens e mulheres sem chapéu.

À tentativa que deu errada junto mais uma, pois aperto novamente os números do canal a que desejo assistir e outra vez entra um diferente.

Não nasci no sertão, mas minh’alma é forte.

Realmente não estou brincando. Tenho a vontade firme que não me deixa bambear quando o destino põe um percalço diante de mim.

Vigoroso, faço valer minha determinação. Bato no corpo do controle pra que deixe de gracinha e me obedeça de pronto.

Só que não sintonizo a corrida; e na tela aparece que preciso trocar as pilhas, que são novas, postas no controle faz já uma semana.

Como não pretendo desistir do que quero ver, mudo a posição das pilhas. Pode ser que ajude. Pode ser ou está difícil?

Difícil. Putisgrila, como está!

O canal não entra; mas não há ideia que não possa ser deixada de lado porque o mundo é mais atraente.

Mudo, pois agora eu assisto a um show, um showzaço. Uau!

Se tivesse me deixado levar, teria desligado a TV. Desligada a TV, eu não estaria testemunhando os movimentos do corpo talentoso, os olhares conquistadores tão virtuosos, aquela boca carnuda resvalando de leve o microfone, fora os requebros fenomenais.

Funk é duca, pô!

Educado, seguro a onda, acalmo os nervos e trato de ficar relaxado diante de um maravilhoso espetáculo bem universal.

Upa! Upa! Upa-lê-lê!

Nós, a nação que trabalha pros patriotas, temos mãos para fabricar aparelhos de TV, os controles sem fio e as pilhas que fazem funcionar os controles de TVs de tela plana, imagem HD e milhares de pixels.

Todavia, para que valha alguma coisa a satisfação que se alimenta das esperanças, o desastre está dado pelo medo de ser feliz: mão que acaricia careca também descabela palhaço.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 12 de abril de 2022.

domingo, 10 de abril de 2022

A vida e a vida de Epaminondas Coutinho

 

A vida e a vida de Epaminondas Coutinho

 

Sem explicação, ou porque ter explicação possa anular o bem-estar que faz possível equilibrar-se diante dos eventos da vida, uma pessoa, de repente, compreende sua circunstância no mundo.

De momento, a súbita consciência de que a fragilidade diz muito de cada ato praticado torna descartável querer traduzir a plenitude numa ideia. É que a paz momentânea não faz sustentável a realidade como ponte entre o nada que precede o nascimento e o nada que sucede à morte. Mesmo assim, fica instituída a identificação estupidificante. Por este instante fora do tempo-e-espaço, a pessoa é a energia que move, comove e remove tudo que houve, há e haverá.

E de tal modo e em tal grau o universo torna patética a relação entre a pessoa e sua presença que ela simplesmente ignora por que sorri.

Como sorrindo a felicidade ganha corpo, é fútil o desejo de estar no controle: a eternidade que se vive num lapso ultrapassa o fugaz.

Na eternidade desta estupidez, a pessoa que gosta particularmente da beleza das orquídeas está deitada na grama. De barriga para cima, olhando as nuvens que vão passando, é alguém que se confunde com as formas que vê.

Quer tanto que os traços de uma orquídea sejam desenhados pelas gotículas que estão flutuando no céu, mais azul que nebuloso, deseja tanto que o bem-estar parece aumentar o barrigão, mais estufado.

Tudo bem, a vida mostra que tanta coisa está além da necessidade de apoiar a nuca na concha das mãos e convocar as nuvens para que trabalhem a favor do seu deleite.

O que não vai bem, todavia, são estes gases se condensando sem permitir que os movimentos possam ser coordenados pela cabeça.

Sim, a digestão do almoço bastante satisfatório está cegando o seu olhar porque o almoço foi, de fato, muito mais do que satisfatório.

Vai saber como é possível: o que é bastante não é muito, mas assim é porque assim lhe parece. Como já deve ter sido dito pelo Velho Bill.

Epaminondas Coutinho não leu Shakespeare, mas aposta que não faz mal a ninguém quando une a ideia da orquídea sublime que traz na cachola com as nebulosas tão levezinhas que vê naquelas alturas.

Sua orquídea linda e maravilhosa pode muito bem flutuar feito uma jangada no oceano aberto daquela imensidão.

E ficar deitado na grama faz bem. E tanto faz bem que a ele ocorre imaginar que a sua orquídea seria ainda mais espetacular se fosse de chocolate. Não teria pra ninguém. Mas sua orquídea seria de chocolate airado, levíssimo, e com pedacinhos de chocolate.

Putz!

Epaminondas vê a vida como uma planta belíssima que sobrevive sem excessos de atenção e carinho.

Por que ele fala com a grama que arranca?

Mesmo não sendo preciso se explicar à grama antes de mastigá-la, ele acha bom se fazer decente. Afinal, a coitada não sabe se defender do ataque tão belo.

Epaminondas crê, sim, na beleza vegetativa da grama.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 10 de abril de 2022.

quinta-feira, 7 de abril de 2022

Nana Nina

 

Nana Nina

 

Nina, a gatinha de olho vivo pra cochilo, vai inspecionando as caixas como se nunca as tivesse visto. Sem nenhum aperto, a serelepe sobe, anda e pula como bem entende. Se houvesse alguma mudança, vá lá, isso explicaria aquela inspeção pormenorizada, mas, desde que foram colocadas onde elas estão, faz meses, não tive, como ainda não tenho, a coragem necessária para movê-las um dedinho, uma lasca de unha que fosse, nadica.

Seu Rodrigues, só vagais deixam bibliotecas bagunçadas.

Eu a arrumaria se me obrigasse a tanto. Desobrigado, não me aflijo com o pó dos dias que vai assentando na montanha de papelão. Como me pegar atormentado é mais difícil por conta dos tranquilizantes que ando tomando, a fibra forte está lassa.

Todavia, o lado ameno da vida permite que fale: nada mal para uma só pessoa, pois, em outras palavras, sendo apenas um, sou vários:

Covarde... Vagabundo... Indolente... Porcalhão...

Algumas pessoas têm facilidade para, numa palavra, definir outras, geralmente a quem menosprezam ou invejam, não sou dessas. Aliás, pela digressão, acrescente-se que sou dispersivo, ou embromador.

Entretanto... A gata segue no jogo.

Curiosa por natureza, a bichana simplesmente não é de ficar quieta sem ter motivo. O que está fazendo tem que ser acompanhado de perto pra que não haja algum acidente, com ela ou causado por ela.

Silenciosa por conveniência, a espevitada certamente ainda está na sala. Quando a danada dá uma sumida, e uma das suas mais notórias peculiaridades é entregar-se ao desaparecimento estratégico, o jeito é procurá-la ꟷ pé ante pé, chamando-a com dengo ou aos gritos.

Enfim! A oncinha dócil de um palmo e meio está deitada no espaço diminuto que existe entre a conjunção das paredes com as caixas.

Como parece que a cara de sono está mais para cara de cansada, a peludinha de olhos quase abertos vai ficando onde está porque, sem estar preocupada em não passar a impressão de que esteja disposta a tirar de cima de si a ansiedade geral com o seu repentino silêncio, a estimada felina precisa dar uma gostosa descansadinha.

Recompor as forças para outras estripulias é realmente deleitável, independentemente do papelão, da pouca maciez do papelão, do odor meio nauseante do papelão empoeirado, faz bem parar um pouco.

O sumiço da gatinha nada tem de maquiavélico, a explicação mais simples é que a miau-miau está exausta de suas tantas fuzarcas.

Como eu também sou um boboca besta, não vou negar a qualquer membro quadrúpede do meu lar o direito a ter apagado o holofote das minhas apreensões sobre o seu cangote.

No mato sem cachorro, gato pede água por que é matreiro?

Se for, a beleza da história é que a realidade nua e crua não basta, é preciso dar imaginação à memória: porque ela não varre a poeira pra debaixo do tapete nem faz miar suas mil e uma Sherazades, Nina nana de olho aberto.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de abril de 2022.

terça-feira, 5 de abril de 2022

Dando Bandeira

 

Dando Bandeira

 

De repente, quando algo mexe comigo pra valer, não conto que não dou importância que não paro de pensar no assunto; é que não preciso me esforçar pra me interromper, a vida sabe fazê-lo por mim.

Outro dia, com o cérebro já meio zumbi, ensimesmado numa ânsia qualquer, cuja origem latejava obscura, então um raio caiu súbito.

A marca suja da vida.

Neste instante em que me encontrava pensativo, esquisito comigo, uma vez que a sensação de incômodo era mais um senão inexplicável, havia em mim esse vago mal-estar, essa fissura que não se sabe como surge, e pela qual a vida angustia.

Entre o sentimento e sua sombra, aflorava outro equívoco, que não me imaginei com a mão escorando o queixo, porque eu parecia mesmo um arremedo vulgar d’O Pensador.

A marca suja da vida, entretanto tal relâmpago foi desferido por uma boca que não parava de deformar a cara daquela pessoa. A graça veio da face improvável; que eu a observava segurando-me do riso, porque as risadas eu as silenciava dentro de mim. Deu-se, então, o choque da fala devera inesperada, pois nem desconfiava que alguém tão tagarela contivesse outras leituras, além das cabalas rosas do amor.

A marca suja da vida, não me importava que os meus ouvidos nem separassem o que falavam. Mas ouvi. De imediato, fui pegar um pouco mais de refrigerante. Mas, será que ouvi direito? Sim, um verso foi dito sem que antes estivesse dando bola pro que estavam falando. De fato, pude ouvir o verso do Manuel sendo dito. E de repente, tão logo ouvi o verso do poeta, deu em mim o estalo.

Como é que pode!

Fui encher o copo vazio por que bastou ser dito o verso do Bandeira pra dar uma sede por guaraná? Por que não por tubaína ou limonada?

Pus guaraná no copo que eu nem via que o segurava já vazio.

Desandei a beber guaraná. E abri outra garrafa, bebi-a inteira.

Por que o verso de Manuel Bandeira tinha realmente que me fazer trocar a prostração angustiada pela chateação estúpida?

Não conheço quem preencha os furos d’alma com guaraná. Sei de gente que afoga as mágoas em soníferos ou litros de uísque. Contudo, abdiquei do desejo pelo álcool, eu tomo guaraná como quem acha uma besteira das grandes tomar éter ou comer pizza fria.

A marca suja da vida, portanto, não está no vício, está na ilusão que não me impede de ficar embaraçado. O desejo, na verdade, ainda está em mim. Posso até querer controlar os meus impulsos. Procuro beber devagar, refletindo. Quero que a maneira como encaro a vida perca os laços com o preconceituoso. Quero agir como uma pessoa melhor, que sabe mesmo que guaraná não produz efeito algum que não seja fazer urinar um bocado.

Mesmo sabendo que iria ter que urinar de cinco em cinco minutos, ainda assim, bebi uma a uma as garrafas que encontrei.

Como tudo que é bom acaba no melhor da festa, não me irritei nem um pouco. Pra não ficar esquentando a moringa, fui embora a pé.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de abril de 2022.

domingo, 3 de abril de 2022

Ao infinito e além

 

Ao infinito e além

 

Embriagado pela bossa de sentir o ventinho no rosto após dois anos sob máscara de três camadas... Passa um carro barulhento, cujo rastro fuliginoso é mesmo de amargar.

Ele ruge, grunhe e sussurra. Esta miríade de ruídos não fere apenas os meus tímpanos, impregna as mucosas da boca.

Só pra cortar meu barato, o monstrengo tem que parar no vermelho do cruzamento e, como a combustão do motor permanece ativa, seguir poluindo a atmosfera que margeia o seu deslocamento.

Como ser que precisa respirar para manter-se vivo, acabo inalando aquela praga gasosa e, vapt-vupt, estou tossindo.

Entre o desejo de um passeio despretensioso e a frustração de fugir pisando firme, vejo-me compelido a trocar aquela vaporosa caminhada por uma desabalada carreira.

Dispensados os comprimidos na farmácia mais próxima, já à porta do lugar onde me livrarei das pilhas usadas, um terno boa-tarde alivia o ranço que me azeda o humor.

A moça que me aborda é uma pessoa querida.

Para não dar na vista o quanto estou irritado, não tagarelo sobre as pilhas, os remédios e o futuro do mundo, peço que me fale dos estudos, das descobertas alvissareiras, de seus ideais de acadêmica novata.

Sem que precise saber que me deixa à vontade, ajo naturalmente.

Me tranquiliza a informalidade. Noto a descontração. Ouço-a.

Como eu consigo realmente ouvi-la, posso me ignorar.

É algo libertador. É um processo efetivo de libertação interior. Tanto que me revelo um espectador de mim. Descubro-me capaz de assistir a mim mesmo enquanto ajo sem a necessidade de deixar transparecer o quanto estou feliz. E que felicidade imponderável é saber como sentir que uma vida justa, pouco cínica, é obra de uma consciência livre.

Assaz otimista, bastante radiante, verdadeiramente entusiasmada, a futura geneticista conta que tem aprendido como manipular DNA. Diz que virá o dia em que fatias específicas de material genético ajudarão a gerar mecanismos de defesa para cada pessoa. Prevendo o instante em que a nossa espécie poderá achar as reais condições de vencer as anomalias que outrora achávamos imbatíveis, ganharemos.

ꟷ Haveremos de derrotar nossos inimigos? Que loucura!

ꟷ Não, não tem nada de loucura. Pois onde há ciência, há método. Teorizar, implementar, analisar, reavaliar os dados, refazer quando for preciso, recolher os novos resultados, estudá-los sem esmorecer, mas sem se entrincheirar no campo do indubitável. E quem faz ciência sabe que o conhecimento hoje dado como aceitável amanhã poderá não ser. Como o trabalho de um indivíduo tem mesmo relações com a pesquisa de tantos outros, é normal manter a cabeça no lugar.

Sim, fugir às artimanhas dos jogos de guerra é saúde mental. Deve ser por isso que minha amiga brilhante trata de se apoiar em mim para calçar os chinelos de dedo comprados à lojinha que fica na esquina.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 03 de abril de 2022.

quinta-feira, 31 de março de 2022

Rancoroso nada

 

Rancoroso nada

 

Em pé ou sentada, no bar tem muita gente.

Tem quem não jogue conversa fora, nem um teco como santo nem um tico feito besta. Achando de forçar tanta doçura, tem quem amanse a raiva engolindo tubaína quente.

Em meio à estridência, uma pessoa se aquieta.

Parada diante da estufa de salgadinhos, faz um bom tempo que ela está olhando. Pra que tanta concentração se só tem um quibe?

A mão do braço na tipoia está engessada. Estar encostado, porém, não autoriza ninguém a desprezar os entregadores que, descarregada a bebida, tomam um cafezinho colados ao homem calado.

Vendo-o abstraído do entra-e-sai, seria adivinhação leviana atribuir à cachaça o poder de fixá-lo abduzido. Ele, aliás, nunca bebeu álcool, nem quando a filha mais velha o fez debutar como par de valsa.

O homem está afastado. Não tem como assentar tijolo. Ficará outro mês de molho. Chegaram a implantar parafusos e plaquinhas de titânio na munheca, mas, pelo que foi falado, tudo vai bem. Pra não ficar muito tempo parado, tem de pegar pesado na fisioterapia. Precisa voltar logo, que seja antes de completar um semestre de afastamento.

Tomá-lo como angustiado a depositar seus fantasmas num solitário quibe exposto no balcão de um bar diz o quão sinistros andam os seus dias. Sem dúvida, são dias infindos, dolorosos, difíceis de viver, mas o salgado não está ali como âncora da realidade.

A pessoa que não fala, que se esforça pra permanecer fechada, ela não é nenhuma companhia simpática. Entretanto, isso não desestimula quem chega desarmado, querendo puxar assunto.

A pessoas que nunca olham a gente no olho, em gentes assim, que fazem questão de olhar fixo um quibe, a elas convém prestar atenção, tentando compreendê-las pelo que não dizem.

Para dar um basta àquela cena angustiante, um bêbado de sorriso franco pede que lhe seja servido o salgadinho que sobra na estufa.

Nem precisa esquentar no micro-ondas, mas precisa de pimenta e de um limãozinho.

Assim que o pau d’água balançante pega o quibe, parte-o ao meio e estende uma metade ao sujeito que o observa sem queixo caído.

A generosidade é humana, ele é humano, logo ele é generoso pra caramba. Pra caramba é modo de dizer, pois ele é gente que dá o que pode só quando pode, sem que lhe faça falta. Pois é uma baita burrice repartir o que não tem como ser compartilhado.

Num instante, a situação é constrangedora.

Nada é dito. Os corpos ficam duros. Pigarros são forçados.

Contudo, o olhar do homem de gesso na mão é de ofendido que se recusa a aceitar que age por desfeita. No fundo, sua aspereza é a de quem lamenta o fado do quibe, que ficou pra trás.

Coxinhas, rissoles, esfihas, empadinhas, pastéis e bolinhos de ovo conhecem consumo fácil quando vendidos ainda tenros e apetitosos.

Não deseja criar caso, mas será que ninguém tem coragem de dizer que quibe frio com um grude de cheddar é de lascar?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 31 de março de 2022.

terça-feira, 29 de março de 2022

Um tapa besta

 

Um tapa besta

 

Uma bem-vinda vontade de comer bolo me pega pela saliva, que a boca vai enchendo, transborda e viro babar gostoso com a ideia de me esbaldar com o chocolate no recheio e nas lascas da cobertura.

Abro o parêntese. Pra evitar diz-que-me-disse, vou logo explicando: chocolate escuro é pesado e ataca a gastrite. Só isso. Eu prefiro comer branco em vez de escuro por causa da saúde. Repito que é só por isso. Fecho o parêntese.

Ficar maravilhado com algo tão singelo é que me faz acreditar num mundo menos atormentado. É claro, não vou agir como imbecil, porque muitas angústias terão mais condições de entrar em segundo plano se houver bolo para todos.

Em existindo, acho até que seja possível haver convivência pacífica entre homens de terno e mulheres de laquê, meninos com bodoques e meninas com patins, senhoras pés-de-valsa e senhores do dominó.

Aliás, antes da harmonia entre pessoas de distintas prioridades, eu confio que a lei alcança profundidade muito ética no fundamental: todo mundo tem direito a roncar numa rede depois de um bolo bom.

O importante é que haja espaço permitido a quem deseja armar sua rede, que haja tempo para fazer a digestão e que haja quem possibilite ter como se empanturrar de bolo quando a gente bem quiser.

Neste momento, porém, não estou numa varanda nem vou inventar de procurar uma rede. Posso estar parado, mas não estou abobado.

E com tanta coisa vibrando, ao meu redor e em mim, sei que o caos é mundano. É do mundo, e mais ainda: é urbano.

Ô instinto animal de bicho homem!

Como não desejo me perder, sequer em pensamento, sinto estar a um passo de uma ideia. Como bolo saído do forno, as palavras certas dão ideia boa de ser compartilhada com quem queira desfrutá-la.

Poderia pensar melhor, com moderação e juízo se a minha barriga não estivesse roncando. Porque o ronco parece onça, não consigo me concentrar. Sem me dominar, preciso escapar do pesadelo que é não ter equilíbrio pra não vidrar no que me falta.

Não sei como domesticar essa força que me faz querer bolo.

Queria controlada a fonte de desejos, mas há fissuras obscuras em minha cachola que permitem esta necessidade que se apodera de mim e me faz querer rodar por aí atrás de um pedaço de bolo.

Queria ficar longe do sereno da madrugada na minha careca.

Queria tanto poder ficar saciado, satisfeito e feliz só com a ideia de que posso comer um dedinho de bolo de chocolate.

Queria que a barriga roncando não me envergonhasse como estou envergonhado, que nem fome eu tenho, caramba.

Embora esteja sozinho, disfarço e ponho a mão sobre a roncadora desembestada, afinal, manter a postura é sinal de bons modos.

Abro outro parêntese. O que leva esta pessoa a trocar um bolo de chocolate por um copo de leite? Como não ficar possesso com quem agita mundos e fundos pra beber leitinho frio? Fecho outro parêntese.

De mim mesmo, tomo um tapa.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 29 de março de 2022.

domingo, 27 de março de 2022

Tolo de ouro

 

Tolo de ouro

 

Entre um pigarro e outro, é forte a impressão de que se confirme o pressentimento: algo está para acontecer bem na rua onde mora.

Pela sensação, só pode ter a ver com a casa ao lado, ou não estaria com vontade quiçá desmiolada de pular o muro do quintal para ir beber água fresca da mangueira.

Não invade o terreno alheio, come chocolate. Porque chocolate tem este poder tal que comê-lo faz com que vá arrefecendo certos desejos, os que mais pondera desequilibrados, muito açucarados.

Às vezes, no entanto, custa um pouco mais do que o normal, como se a falta de ar só fosse passar se enfiasse na boca aquele troço sujo, a ponta do esguicho diuturnamente exposta a urina de rato.

Pagando o sobrepreço, depois de terminada a segunda barra, nem se lembra do impulso maluco, pensa que tem que mudar o tipo, porque o 70% meio amargo o faz disparar a tosse até quase desmaiar, o que provocará a baita dor de cabeça latejante nas têmporas.

O resultado? Quer mais chocolate.

Excedendo, nem pensa em correr ao banheiro, faz as necessidades no meio do farto tufo de capim, num capinzal da altura de um elefante, o que não acalma o intestino de modo algum.

Do bojo do capinzal onde se curva, voltado sobre si naquele ventre que ainda se mantém verde em pleno outono, é dali que aguarda que cabeças surjam no topo do muro. Ainda que possam dele se esconder, desconfia que se atrevem a vê-lo tão frágil.

Ali está ele: agachado, depois da evacuação repentina; imaginando o gosto da água suja da mangueira; sentindo já um gosto salgado, que o mijo do rato se mistura ao dourado do cobre dos canos que fazem a água incolor perder a sua falta de cor e ganhar um sabor de mar.

Não há mar, há mais um jato de urina sobre restos de goiaba.

Pelamor, é disparate associar a cor da goiaba com a da maçã, cuja carga é bíblica.

Ele não gosta do gosto que tem na boca. É que parece ter terra na boca e tem também o gosto do mar.

Nada de acreditar que formigas possam sair do ventre da Terra pra virem devorar as sobras que traz nas entranhas.

Devem achá-lo tolo por atinar que têm a intenção de baratiná-lo.

Caraca, não o obriguem a beber guaraná. É que tanto faz que seja em pó, lata ou engarrafado, guaraná dá coceira e dor de cabeça.

E tanta coisa está prestes a virar realidade.

Pode soar como mentira deslavada, só que achar dinheiro na rua é coisa que acontece, mas o que não se vê a toda hora é encontrar uma carteira com dinheiro que dê para comprar uma TV 75”, um celular com seis câmeras e uma bicicleta elétrica em dólar.

Não chove, mas a luz será cortada. A goiabeira tombará. A caminho de casa, o motor pifará. E temerá as águas. Viessem guinchar o carro. Rezará pra que o rio volte ao leito de cada dia. Quando vir que poderá andar sem afundar em buraco, sairá da baleia metálica. Com água pela canela, pensará num banho quente.

Bom, o que tem brotado diante do portão da sua casa é serralha.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 27 de março de 2022.

quinta-feira, 24 de março de 2022

Cavalo dado

 

Cavalo dado

 

De ilusão também se vive, pois ficar preso à realidade vinte e quatro horas por dia tem o efeito colateral de deixar a gente meio doida. Como o noticiário não está no gibi, viver só de atualidade é dose.

Deve ser por isso que devoro quadrinhos desde que comecei a ler. Antes de entrar na escola, ali por volta dos cinco anos, virei devorador. Dali em diante fiquei este doido que adora se empanturrar com história de todo quilate, de fotonovela vagabunda a mistério infantojuvenil.

Se lembro bem, a minha escalada teve início com Os Sobrinhos do Capitão. Quem comprava era o meu irmão, mas, no que ele cochilava, eu tinha sumido quintal adentro pra ler tudinho numa sentada, sentado num galho do abacateiro.

Todo consumo desenfreado deixa sequelas, e o garoto que fui tinha seus momentos de ir pegando no sono durante a aula. A professora ia falando, falando muita coisa interessante a quem precisava se manter interessado no que ela ia falando, falando. E eu me ausentava de corpo presente, abduzido pela irrealidade, viajante à carteira.

Acontecia de não aguentar, é que minha mente precisava dar a sua escapadinha por lugares menos monótonos, vinha a mim a compulsão de esvaziá-la, rearranjar os espaços internos, mover espreguiçadeiras, bater o pó da rede, liberar na consciência vazios pro que parecia estar a anos-luz do material que todo aluno não deveria ignorar.

Assim, o tempo era o nada suspenso num ponto entre a professora toda professoral e o quadro-negro caligraficamente adornado por letras e números. Era um nada tão hipnótico que nem me percebia abismado.

Com o queixo apoiado na mão, respirava de boca fechada.

Respiro, e não faço o pedido de uma vez.

Primeiro, tragam-me o suco de avocado, com umas pedras de gelo. Não importa o frio, se estou pedindo gelo extra no copo, tragam-me.

Não me falta parafuso na cachola, sobram-me desestimulantes.

Preciso de alguns minutos para nem pensar na vida. Sei que posso esquecer os cães vadios indo de poste em poste. Quero caçar à toa as moscas que não escapolem pela saída.

De repente, tenho companhia.

Carlito está sentado comigo. Nem precisa abrir a boca. Com o olhar melancólico de gente sofrida pousado em mim, não estou abandonado. E estar bem acompanhado é o que importa.

Buster Keaton poderia vir juntar-se a nós, mas ele não aparece. É que poderia me confundir, tirando esfinges inumanas de sua persona.

Quem vem me espiar é Greta Garbo. E sua presença mexe comigo. E aquela boca. Se não desviar os olhos, conhecerão a febre da paixão, que tanto idolatro tal musa que diz muito ao meu espírito.

E quero cachorro-quente, mostarda e ketchup. Sal eu não posso.

Sorrindo pra mim no espelho, Zeppo está lá fora.

Preciso ir. De fato, preciso ir.

Ainda que sofra pelo tanto que tenho por fazer, serei afável e cortês, que isso sacode o menino comedido do meu coração.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de março de 2022.

terça-feira, 22 de março de 2022

Sem curinga

 

Sem curinga

 

As águas fechando o verão. A noite vindo. A cama que o corpo quer. Tudo indica outro domingo terminando tranquilo, mas...

É óbvio que um mas tem que entrar ou não haveria história, haveria tédio; e teríamos o cansaço de tanta sonolência entediada.

Mas a garoa da tardinha não acha veias nostálgicas em mim, que o meu peito não esquenta o sangue na minha cabeça. Sinto que estou gelado, mais frio que o normal.

É preciso passar um café, estourar pipoca, esperar que passe logo.

Mas pensamentos modorrentos cansam, aborrecem um bocado. Só ficando em pé para não cochilar. E já modorro o bastante para bocejos enfileirados, nem aguardo a água ferver. Com ela borbulhando, passo o café que sirvo rápido.

Ponho pressão em mim. Acelero. Queimo a boca. Firo a língua, mas não desisto de beber o café quente passado agora, neste momento a que me obrigo não perder de vista que é domingo.

Faz este friozinho de fim de tarde. Está garoando como previsto.

Sinto que devagar não irei longe, porque acabarei dormindo deitado no sofá, perdendo de ver um filme, ler um livro, ouvir música. Tudo isso porque teria paciência de esperar o café esfriar, para manter o costume de beber café frio.

Desta vez, contudo, o beberei quente.

Eu beberei quente porque não quero ler as borras. Não me deixarei frustrar com os restos na xícara, porque não saber qual o futuro traçado pelas sobras no fundo me fará atirar a xícara na parede.

Serei estúpido pra agir como estúpido. Sabendo que a hora seguirá, agirei contra mim. Contra a ideia de que tenho o dever de permanecer lúcido, raciocinando a favor de um fim de tarde de domingo sem entrar pelo desespero de não ter mais o que fazer comigo.

Mas deitar no sofá não é o mesmo que atirar xícaras na parede.

Que droga. Pus açúcar a mais.

Bebo assim mesmo, porque, distraído por um sorriso nervoso, acho pouco engraçada a ideia de que poderia estar aborrecido comigo. Não estou nem quero estar. Bebo, vou bebericando, e fico forçando pousar a xícara no pires como se ela fosse uma pena estragada pela ação da gravidade.

Sopro o café. Queria me divertir com o vaporzinho do café, mas não consigo. Pressinto que há pensamentos mórbidos que esperam minha distração, que perca o foco. Que eu sopre o café sem notar que o vapor sobe e o ar da cozinha continua úmido e gelado.

O outono chegou de repente. Ele veio antes do combinado.

Não quero correr pra sala. Não quero me apressar. Não tenho nada de ir furibundo me sentar diante da TV.

Todavia tenho TV. Vejo bombardeios. Contam-se os bebês mortos.

A ansiedade não ensina a anestesiar a intuição.

Como pular de paraquedas se não houver mais o amanhã? Puxaria o ar frio das alturas? Prenderia a respiração no instante do salto? Teria como atingir o alvo com o vento acima do calculado?

Não me belisco, mordisco o nó do indicador.

Eu não jogo sujo nem tento: bem cansado, eu adormeço.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de março de 2022.

 

domingo, 20 de março de 2022

O dom natural

 

O dom natural

 

Ignorar não resolve. O clarão do curto deu susto, que pulei para trás no ato. O cheiro de queimado impregnou o ar da cozinha de imediato. O coração disparado retratou o alvoroço do impacto, e, até porque sei o básico de eletricidade, corri desligar o disjuntor.

Há elétrons, correntes contínua e alternada; e sei bem que bulir em fio desencapado dá choque. Já tomei muito choque, com o pé molhado ou de sandália de borracha. E levar choque é de arrepiar.

Deve ser simples trocar a resistência, mas acho complicado querer me meter numa área que não domino.

Deve ser fácil seguir as instruções para fazer a troca da resistência, só que eu me conheço, estou certo de que vou errar a mão.

Ora, deixar desligada a força não vai dar cabo do problema, o jeito, então, é chamar quem saiba consertar torneira elétrica.

É melhor pagar a quem entenda do riscado, faça o que tem que ser feito sem ficar enrolando e, o principal, não cobre os olhos da cara.

Sem dúvida, a pessoa indicada é o Pedro.

O Pedro faz de tudo um pouco. Sem ficar se gabando dos talentos, é jardineiro a quem precisa liquidar os pulgões nas azaleias sem matar os crisântemos, é marceneiro que faz uma cadeira de balanço de uma tarde pra outra, é serralheiro que reforma portão corroído por ferrugem antes que a gente passe aquele cafezinho esperto.

Mas a qualidade que mais me faz estimá-lo é a sua firmeza.

Não se espere dele que se travista de conselheiro que a todos tenha um sermão unissex pra tudo. Inflexibilidade é a sua fraqueza, uma vez que não lhe apetece transfigurar a sua discrição de casmurro.

Em boa hora lembrei-me de Pedro, lamentável, porém, foi saber de sua passagem, ocorrida há muito. Hesitei engolir que fora de enfisema pulmonar ou câncer nos brônquios, porque nunca o vi fumando.

Não acredito nessas histórias que brotam do nada. Aliás, a palavra de quem ataca sem fundamentar as críticas diz muito do maledicente. Ora, que a flor da inveja seque por falta de saliva que a adube.

E o Pedro não merecia o tanto que o achacavam.

Fulano achava gentil zombar das suíças mal aparadas, não bastava ser Pedro, tinha que ser Pedro III. Galhofeiro carrancudo, beltrano tinha que desmerecê-lo, apodando-o um qualquer Dom Pedro III. Entretanto, a sordidez decrépita reduzia-o a Terceiro.

Pra mim, sempre será Pedro.

E eu digo o porquê.

Você entra numa loja e alguém pergunta: “posso ajudar?” O Pedro não era desses, ele gostava de se fazer entender: “me faça ajudar”.

A Pedro não ocorria a ideia de ter permissão pra ser útil. Ficava feliz quando diziam o que queriam. Era mais que atender a um pedido. Não era pra ficar satisfeito que vivia. “OK, tenho consciência de que farei o que esperam de mim.” “Deixem comigo, sei que posso fazer o melhor.” “Darei o melhor de mim.” Quanta barbaridade. A Pedro era natural agir como instrumento.

Meu caro amigo, descanse em paz.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 20 de março de 2022.

quinta-feira, 17 de março de 2022

Sem congelamento

 

Sem congelamento

 

Rente a mim passou uma pessoa que achei estar morta.

Custei a acreditar nos meus olhos.

Por serem naturais, costumam ir do esverdeado pro mel. Todavia, sem condições técnicas de captar aparições ectoplasmáticas, suponho haver correspondência da palheta da têmpera com oscilações do sutil ao escandaloso. Mutação cujos mecanismos me são obscuros.

O que vi, então?

O cérebro pode ter-se enganado, pois ele não tem nenhum eletrodo ou algum chip implantados na sua massa cinzenta. O que o deixa cego às manifestações que ultrapassam as regras da física natural.

Isto é, o cérebro e os olhos não me permitem enxergar os espíritos que podem estar vagando por aí. Por esta deficiência metafísica, creio que o lógico seria dizer que não foi uma alma carregada de sacolinhas que me deu calafrios bem realistas ao supô-la passando por mim.

Senti quem está vivíssimo.

Ao pé da letra, outra vez o mundo me frustra porque não aprendi a fazer feitiços, bruxedos e magias, pois estou restrito ao uso de recursos anatômicos próprios à espécie humana.

Se a vida faz-me obtuso, não sou idiota de não me resignar a sê-lo. De bom grado, abro mão dos martelos superiores do além-do-homem.

Como tenho parcos conhecimentos do funcionamento dos miolos, posso maquinar tramoias quanto engendrar engenhosidades, mas não calculo de cabeça a raiz quadrada de 21.320, mesmo que seja a soma dos dias que vivi até agora, dia 16 de março de 2022.

A palmos de mim passou essa pessoa que disseram estar morta há tempos. Apesar de carregar essa morte, eu a reconheci viva.

Ficasse no reconhecimento, falaria banalidade. Contudo, nesta vida materialista, nunca tinha experimentado sentimento tão difuso.

Tenho uma mente que funciona passo a passo, juntando devagar o trigo, fabricando farinha e sovando pães. Sustos, aliás, mais azedam a massa que colaboram pra degustação do que me afeta.

Se fosse pular pro finalmente indecoroso, diria que a pessoa morta que cruzou comigo era réplica perfeita de quem tinha carne no osso. E tal suprassumo tecnológico seria uma maravilha monstruosa.

Vai daí, o locutor diz que fulano é o robozão matador cuja eficiência em fazer gols está faltando à sua equipe. Passa o tempo, este robocop escorrega no gramado úmido, pois tem garoa no relvado bretão.

Por que raio de interferência, a cachola sente o chuvisco manso da pauliceia no cocuruto adolescente no Pacaembu? E logo naquele jogo do meu tricolor com os periquitos? Pela primeira vez num estádio?

Com ajustes a quente, o piloto da memória traz o Jorge Mendonça: depois do primeiro gol, ele vem comemorar com a torcida do lado onde estou sentado; pro segundo gol, a finta faz Valdir Peres deslizar como o CR7 no Teatro dos Sonhos.

Aproveito a partida com melancolia renovada.

E pincelado com margarina resfriada, o pãozinho vai descendo sem rangidos.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de março de 2022.

terça-feira, 15 de março de 2022

Cara a cara

 

Cara a cara

 

O furo na camisa, não pensarei mais nele. Também não vou culpar o espelho por colocar o furinho na minha polo favorita. Cinza, que é cor apropriada a quem tem compromissos. A apresentação sóbria pede os tons de cinza, e gola fechada. Sem bigode, fico mais bem apresentável de cinza. Se tivesse um cavanhaque, ficaria muito mais bonito. E penso em Freud, de inteligência indiscutível. Não creio que seja aconselhável contestar a figura impoluta de um homem de cavanhaque bem aparado que fuma cachimbo sem fazer careta nem soltar opinião atrás de outra. Ou seja, não é prudente que pareça casual nem premeditada a pessoa marcar presença como gente moderada pela razão. Não vou prescindir de exibir-me elegante, ainda que minha discreta camisa polo cinza sem nódoas nem caneta no bolsinho me ajude a realçar o charme dos meus músculos bem desenhados por pesos e contrapesos.

Lavo o rosto. Mal me levanto, vou lavá-lo. A água fria é necessária. Se não purga erros, dá um tapa no sono. Retira os restos do sono, que, sub-reptícios, querem que os perceba como orvalho na teia. Não numa teia qualquer, de aranha qualquer, mas numa teia tecida por tarântula.

Não creio que precise falar que Bob Dylan escreveu Tarântula nem que a teia embaixo da minha cama foi feita por uma tarântula. Porque entrar na mente de Bob Dylan para achar as conexões com o que estou dizendo é perder-se de vez no labirinto. Sono é labirinto, que a certeza não rompa o fio da meada. É preciso manter o fio intacto, sem nó. Pois falar da existência de Bob Dylan ou de quem não leu nem vai ler o livro Tarântula, que Bob Dylan assina, contribui para comprovar que tal livro foi escrito. E corrente de água fria leva embora as teias do sono.

Por favor, seja gentil. Mesmo que tenha sido eu a afirmar que a teia embaixo da minha cama é obra de uma tarântula que nunca leu o livro de Bob Dylan, bote fé que eu falo uma verdade pública.

Melhor esquecer a teia toda.

Afinal, dormi bem. Não acordei com tarântula tecendo teia embaixo da cama. Minha noite foi tranquila, de sono contínuo. Nem sei se fiquei virando na cama; só sei que não acendi a luz pra olhar se tinha aranha debaixo da cama. Nem vou olhar, ali está bem sujo. É tanta sujeira que os tufos parecem nuvens.

Prefiro me lembrar da piscina de bolinha. Toda colorida. Sonhei que nadava numa piscina que parecia não ter bordas. Eu não via as bordas. Mas não pensava em sair nem pensava na exaustão dos meus braços.

O relógio disparou o alarme da hora marcada.

Entrei resoluto na clínica. Fui dizendo que o dentista iria me chamar dali a dez minutos, às nove e meia. Esta é uma característica definidora da minha maneira de ser no mundo. Reforço os detalhes em prol desta identidade de pessoa que respeita os combinados.

Sorridente, foi chocante encarar a mulher sorridente:

ꟷ Senhor, sua consulta será amanhã de manhã, às dez e meia.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de março de 2022.

domingo, 13 de março de 2022

Ligação direta

 

Ligação direta

 

Sentado à mesa na varanda, almocei tranquilo. Sem ficar tenso com gente a um palmo do meu nariz, fiz o prato em paz. Não tive que comer em três minutos. No maior sossego, paguei e, besta de panduio cheio, enfiei dois reais de gorjeta na caixinha dos funcionários que fica o ano inteiro pegando fuligem no balcãozinho do caixa.

Comi bem. Fui mão aberta. Mas não pretendo posar de bobo alegre, uma vez que não é propriamente alegria o que estou sentindo.

Sei que não estou tendo nenhum dia difícil, porém posso estragá-lo de repente. Sou dado a repentes. E tenho uma facilidade tal que muitas vezes meço o que faço pelas tristezas que vão mesmo me derrubar do alto da minha felicidade.

Quando flutuo na bolha de uma saciedade fugaz, sou frágil. Pra não explodir por nada, tenho que ficar na minha cola. De fato, sou instável. Indo tomar sorvete dois quarteirões mais adiante, posso fazer a dança da chuva.

Não debaterei a ideia: a consistência deliciosa de picolés, sundaes e cornetos depende de mim. Portanto, vou lento, desacelero, dou folga à geladeira para que a sua magia mecânica cause o efeito desejado: o saboroso do sorvete continue inabalável.

Há pardais nos fios elétricos. Sem dar na vista, estudo-os. É preciso pensar com rapidez. Não chego a correr o olhar, pisco e disfarço. Paro à sombra de um arbusto. Reparo, os bichos me deixam confuso. E toda confusão me faz perder a paz de espírito. A troco de quê?

Minha cabeça mantém demônios, fantasmas e outras criaturas nos meus subterrâneos. Lá onde o sol perde o calor, aí onde a luz gela os pensamentos, aqui em mim que me aquieto no canto, o posto no qual sou outro, sou carcereiro enjaulado.

Queria urrar à lua noturna, mas é no sol que transpiro.

Amigo, não pergunte o que acho que seja a sanidade. Sei lá, talvez seja ir fazendo o que tenho feito sem ficar me preocupando com o que faço enquanto vou fazendo. Se não for sanidade, é normalidade. Quem sabe, a insanidade bem poderia ser a consciência de estar vivendo a me ocupar de pardais no meio-fio.

E novamente estou sentado. Dentro do posto da esquina, sentado à mesa sem suar que nem maratonista atrás do ouro tão sonhado.

Tomo sorvete, não planejei tomá-lo no intervalo do almoço. Todavia hoje estou impossível. Nem ligo, e faço o que me dá na telha.

Entra uma noiva. Pega a chave do banheiro. Porta afora, some.

Um minuto depois, entra outra noiva. Parece ter chorado há pouco. Conversa com um funcionário. Feito um raio, some.

Duas noivas numa tacada só? Que demais!

Será que vai ter casamento coletivo na vizinhança?

Voltam as moças. Voltam abraçadas. Dengosas. Carinhosas. Estão aos muxoxos. Pagam uma cerveja, e vão. Bebendo no gargalo, vão.

Cai minha ficha.

Sigo-as com o olhar. As felizardas entram num táxi parado.

Tem uma fila enorme de automóveis.

Como chuva de verão, me precipito: tem promoção relâmpago.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 13 de março de 2022.