Sem congelamento
Rente a mim passou uma pessoa que achei
estar morta.
Custei a acreditar nos meus olhos.
Por serem naturais, costumam ir do
esverdeado pro mel. Todavia, sem condições técnicas de captar aparições
ectoplasmáticas, suponho haver correspondência da palheta da têmpera com
oscilações do sutil ao escandaloso. Mutação cujos mecanismos me são obscuros.
O que vi, então?
O cérebro pode ter-se enganado, pois ele
não tem nenhum eletrodo ou algum chip implantados na sua massa cinzenta. O que
o deixa cego às manifestações que ultrapassam as regras da física natural.
Isto é, o cérebro e os olhos não me
permitem enxergar os espíritos que podem estar vagando por aí. Por esta
deficiência metafísica, creio que o lógico seria dizer que não foi uma alma
carregada de sacolinhas que me deu calafrios bem realistas ao supô-la passando por
mim.
Senti quem está vivíssimo.
Ao pé da letra, outra vez o mundo me frustra
porque não aprendi a fazer feitiços, bruxedos e magias, pois estou restrito ao
uso de recursos anatômicos próprios à espécie humana.
Se a vida faz-me obtuso, não sou idiota
de não me resignar a sê-lo. De bom grado, abro mão dos martelos superiores do
além-do-homem.
Como tenho parcos conhecimentos do funcionamento
dos miolos, posso maquinar tramoias quanto engendrar engenhosidades, mas não
calculo de cabeça a raiz quadrada de 21.320, mesmo que seja a soma dos dias que
vivi até agora, dia 16 de março de 2022.
A palmos de mim passou essa pessoa que disseram
estar morta há tempos. Apesar de carregar essa morte, eu a reconheci viva.
Ficasse no reconhecimento, falaria
banalidade. Contudo, nesta vida materialista, nunca tinha experimentado
sentimento tão difuso.
Tenho uma mente que funciona passo a
passo, juntando devagar o trigo, fabricando farinha e sovando pães. Sustos,
aliás, mais azedam a massa que colaboram pra degustação do que me afeta.
Se fosse pular pro finalmente indecoroso,
diria que a pessoa morta que cruzou comigo era réplica perfeita de quem tinha
carne no osso. E tal suprassumo tecnológico seria uma maravilha monstruosa.
Vai daí, o locutor diz que fulano é o
robozão matador cuja eficiência em fazer gols está faltando à sua equipe. Passa
o tempo, este robocop escorrega no gramado úmido, pois tem garoa no relvado
bretão.
Por que raio de interferência, a cachola
sente o chuvisco manso da pauliceia no cocuruto adolescente no Pacaembu? E logo
naquele jogo do meu tricolor com os periquitos? Pela primeira vez num estádio?
Com ajustes a quente, o piloto da
memória traz o Jorge Mendonça: depois do primeiro gol, ele vem comemorar com a
torcida do lado onde estou sentado; pro segundo gol, a finta faz Valdir Peres
deslizar como o CR7 no Teatro dos Sonhos.
Aproveito a partida com melancolia
renovada.
E pincelado com margarina resfriada, o
pãozinho vai descendo sem rangidos.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 17 de março de 2022.
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