quinta-feira, 17 de março de 2022

Sem congelamento

 

Sem congelamento

 

Rente a mim passou uma pessoa que achei estar morta.

Custei a acreditar nos meus olhos.

Por serem naturais, costumam ir do esverdeado pro mel. Todavia, sem condições técnicas de captar aparições ectoplasmáticas, suponho haver correspondência da palheta da têmpera com oscilações do sutil ao escandaloso. Mutação cujos mecanismos me são obscuros.

O que vi, então?

O cérebro pode ter-se enganado, pois ele não tem nenhum eletrodo ou algum chip implantados na sua massa cinzenta. O que o deixa cego às manifestações que ultrapassam as regras da física natural.

Isto é, o cérebro e os olhos não me permitem enxergar os espíritos que podem estar vagando por aí. Por esta deficiência metafísica, creio que o lógico seria dizer que não foi uma alma carregada de sacolinhas que me deu calafrios bem realistas ao supô-la passando por mim.

Senti quem está vivíssimo.

Ao pé da letra, outra vez o mundo me frustra porque não aprendi a fazer feitiços, bruxedos e magias, pois estou restrito ao uso de recursos anatômicos próprios à espécie humana.

Se a vida faz-me obtuso, não sou idiota de não me resignar a sê-lo. De bom grado, abro mão dos martelos superiores do além-do-homem.

Como tenho parcos conhecimentos do funcionamento dos miolos, posso maquinar tramoias quanto engendrar engenhosidades, mas não calculo de cabeça a raiz quadrada de 21.320, mesmo que seja a soma dos dias que vivi até agora, dia 16 de março de 2022.

A palmos de mim passou essa pessoa que disseram estar morta há tempos. Apesar de carregar essa morte, eu a reconheci viva.

Ficasse no reconhecimento, falaria banalidade. Contudo, nesta vida materialista, nunca tinha experimentado sentimento tão difuso.

Tenho uma mente que funciona passo a passo, juntando devagar o trigo, fabricando farinha e sovando pães. Sustos, aliás, mais azedam a massa que colaboram pra degustação do que me afeta.

Se fosse pular pro finalmente indecoroso, diria que a pessoa morta que cruzou comigo era réplica perfeita de quem tinha carne no osso. E tal suprassumo tecnológico seria uma maravilha monstruosa.

Vai daí, o locutor diz que fulano é o robozão matador cuja eficiência em fazer gols está faltando à sua equipe. Passa o tempo, este robocop escorrega no gramado úmido, pois tem garoa no relvado bretão.

Por que raio de interferência, a cachola sente o chuvisco manso da pauliceia no cocuruto adolescente no Pacaembu? E logo naquele jogo do meu tricolor com os periquitos? Pela primeira vez num estádio?

Com ajustes a quente, o piloto da memória traz o Jorge Mendonça: depois do primeiro gol, ele vem comemorar com a torcida do lado onde estou sentado; pro segundo gol, a finta faz Valdir Peres deslizar como o CR7 no Teatro dos Sonhos.

Aproveito a partida com melancolia renovada.

E pincelado com margarina resfriada, o pãozinho vai descendo sem rangidos.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de março de 2022.

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