domingo, 13 de março de 2022

Ligação direta

 

Ligação direta

 

Sentado à mesa na varanda, almocei tranquilo. Sem ficar tenso com gente a um palmo do meu nariz, fiz o prato em paz. Não tive que comer em três minutos. No maior sossego, paguei e, besta de panduio cheio, enfiei dois reais de gorjeta na caixinha dos funcionários que fica o ano inteiro pegando fuligem no balcãozinho do caixa.

Comi bem. Fui mão aberta. Mas não pretendo posar de bobo alegre, uma vez que não é propriamente alegria o que estou sentindo.

Sei que não estou tendo nenhum dia difícil, porém posso estragá-lo de repente. Sou dado a repentes. E tenho uma facilidade tal que muitas vezes meço o que faço pelas tristezas que vão mesmo me derrubar do alto da minha felicidade.

Quando flutuo na bolha de uma saciedade fugaz, sou frágil. Pra não explodir por nada, tenho que ficar na minha cola. De fato, sou instável. Indo tomar sorvete dois quarteirões mais adiante, posso fazer a dança da chuva.

Não debaterei a ideia: a consistência deliciosa de picolés, sundaes e cornetos depende de mim. Portanto, vou lento, desacelero, dou folga à geladeira para que a sua magia mecânica cause o efeito desejado: o saboroso do sorvete continue inabalável.

Há pardais nos fios elétricos. Sem dar na vista, estudo-os. É preciso pensar com rapidez. Não chego a correr o olhar, pisco e disfarço. Paro à sombra de um arbusto. Reparo, os bichos me deixam confuso. E toda confusão me faz perder a paz de espírito. A troco de quê?

Minha cabeça mantém demônios, fantasmas e outras criaturas nos meus subterrâneos. Lá onde o sol perde o calor, aí onde a luz gela os pensamentos, aqui em mim que me aquieto no canto, o posto no qual sou outro, sou carcereiro enjaulado.

Queria urrar à lua noturna, mas é no sol que transpiro.

Amigo, não pergunte o que acho que seja a sanidade. Sei lá, talvez seja ir fazendo o que tenho feito sem ficar me preocupando com o que faço enquanto vou fazendo. Se não for sanidade, é normalidade. Quem sabe, a insanidade bem poderia ser a consciência de estar vivendo a me ocupar de pardais no meio-fio.

E novamente estou sentado. Dentro do posto da esquina, sentado à mesa sem suar que nem maratonista atrás do ouro tão sonhado.

Tomo sorvete, não planejei tomá-lo no intervalo do almoço. Todavia hoje estou impossível. Nem ligo, e faço o que me dá na telha.

Entra uma noiva. Pega a chave do banheiro. Porta afora, some.

Um minuto depois, entra outra noiva. Parece ter chorado há pouco. Conversa com um funcionário. Feito um raio, some.

Duas noivas numa tacada só? Que demais!

Será que vai ter casamento coletivo na vizinhança?

Voltam as moças. Voltam abraçadas. Dengosas. Carinhosas. Estão aos muxoxos. Pagam uma cerveja, e vão. Bebendo no gargalo, vão.

Cai minha ficha.

Sigo-as com o olhar. As felizardas entram num táxi parado.

Tem uma fila enorme de automóveis.

Como chuva de verão, me precipito: tem promoção relâmpago.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 13 de março de 2022.

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