Ligação direta
Sentado à mesa na varanda, almocei
tranquilo. Sem ficar tenso com gente a um palmo do meu nariz, fiz o prato em
paz. Não tive que comer em três minutos. No maior sossego, paguei e, besta de panduio
cheio, enfiei dois reais de gorjeta na caixinha dos funcionários que fica o ano
inteiro pegando fuligem no balcãozinho do caixa.
Comi bem. Fui mão aberta. Mas não
pretendo posar de bobo alegre, uma vez que não é propriamente alegria o que
estou sentindo.
Sei que não estou tendo nenhum dia
difícil, porém posso estragá-lo de repente. Sou dado a repentes. E tenho uma
facilidade tal que muitas vezes meço o que faço pelas tristezas que vão mesmo me
derrubar do alto da minha felicidade.
Quando flutuo na bolha de uma saciedade
fugaz, sou frágil. Pra não explodir por nada, tenho que ficar na minha cola. De
fato, sou instável. Indo tomar sorvete dois quarteirões mais adiante, posso
fazer a dança da chuva.
Não debaterei a ideia: a consistência
deliciosa de picolés, sundaes e cornetos depende de mim. Portanto, vou lento,
desacelero, dou folga à geladeira para que a sua magia mecânica cause o efeito
desejado: o saboroso do sorvete continue inabalável.
Há pardais nos fios elétricos. Sem dar
na vista, estudo-os. É preciso pensar com rapidez. Não chego a correr o olhar, pisco
e disfarço. Paro à sombra de um arbusto. Reparo, os bichos me deixam confuso. E
toda confusão me faz perder a paz de espírito. A troco de quê?
Minha cabeça mantém demônios, fantasmas
e outras criaturas nos meus subterrâneos. Lá onde o sol perde o calor, aí onde
a luz gela os pensamentos, aqui em mim que me aquieto no canto, o posto no qual
sou outro, sou carcereiro enjaulado.
Queria urrar à lua noturna, mas é no sol
que transpiro.
Amigo, não pergunte o que acho que seja
a sanidade. Sei lá, talvez seja ir fazendo o que tenho feito sem ficar me
preocupando com o que faço enquanto vou fazendo. Se não for sanidade, é
normalidade. Quem sabe, a insanidade bem poderia ser a consciência de estar
vivendo a me ocupar de pardais no meio-fio.
E novamente estou sentado. Dentro do
posto da esquina, sentado à mesa sem suar que nem maratonista atrás do ouro tão
sonhado.
Tomo sorvete, não planejei tomá-lo no
intervalo do almoço. Todavia hoje estou impossível. Nem ligo, e faço o que me dá
na telha.
Entra uma noiva. Pega a chave do
banheiro. Porta afora, some.
Um minuto depois, entra outra noiva.
Parece ter chorado há pouco. Conversa com um funcionário. Feito um raio, some.
Duas noivas numa tacada só? Que demais!
Será que vai ter casamento coletivo na
vizinhança?
Voltam as moças. Voltam abraçadas.
Dengosas. Carinhosas. Estão aos muxoxos. Pagam uma cerveja, e vão. Bebendo no
gargalo, vão.
Cai minha ficha.
Sigo-as com o olhar. As felizardas
entram num táxi parado.
Tem uma fila enorme de automóveis.
Como chuva de verão, me precipito: tem
promoção relâmpago.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 13 de março de 2022.
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