terça-feira, 15 de março de 2022

Cara a cara

 

Cara a cara

 

O furo na camisa, não pensarei mais nele. Também não vou culpar o espelho por colocar o furinho na minha polo favorita. Cinza, que é cor apropriada a quem tem compromissos. A apresentação sóbria pede os tons de cinza, e gola fechada. Sem bigode, fico mais bem apresentável de cinza. Se tivesse um cavanhaque, ficaria muito mais bonito. E penso em Freud, de inteligência indiscutível. Não creio que seja aconselhável contestar a figura impoluta de um homem de cavanhaque bem aparado que fuma cachimbo sem fazer careta nem soltar opinião atrás de outra. Ou seja, não é prudente que pareça casual nem premeditada a pessoa marcar presença como gente moderada pela razão. Não vou prescindir de exibir-me elegante, ainda que minha discreta camisa polo cinza sem nódoas nem caneta no bolsinho me ajude a realçar o charme dos meus músculos bem desenhados por pesos e contrapesos.

Lavo o rosto. Mal me levanto, vou lavá-lo. A água fria é necessária. Se não purga erros, dá um tapa no sono. Retira os restos do sono, que, sub-reptícios, querem que os perceba como orvalho na teia. Não numa teia qualquer, de aranha qualquer, mas numa teia tecida por tarântula.

Não creio que precise falar que Bob Dylan escreveu Tarântula nem que a teia embaixo da minha cama foi feita por uma tarântula. Porque entrar na mente de Bob Dylan para achar as conexões com o que estou dizendo é perder-se de vez no labirinto. Sono é labirinto, que a certeza não rompa o fio da meada. É preciso manter o fio intacto, sem nó. Pois falar da existência de Bob Dylan ou de quem não leu nem vai ler o livro Tarântula, que Bob Dylan assina, contribui para comprovar que tal livro foi escrito. E corrente de água fria leva embora as teias do sono.

Por favor, seja gentil. Mesmo que tenha sido eu a afirmar que a teia embaixo da minha cama é obra de uma tarântula que nunca leu o livro de Bob Dylan, bote fé que eu falo uma verdade pública.

Melhor esquecer a teia toda.

Afinal, dormi bem. Não acordei com tarântula tecendo teia embaixo da cama. Minha noite foi tranquila, de sono contínuo. Nem sei se fiquei virando na cama; só sei que não acendi a luz pra olhar se tinha aranha debaixo da cama. Nem vou olhar, ali está bem sujo. É tanta sujeira que os tufos parecem nuvens.

Prefiro me lembrar da piscina de bolinha. Toda colorida. Sonhei que nadava numa piscina que parecia não ter bordas. Eu não via as bordas. Mas não pensava em sair nem pensava na exaustão dos meus braços.

O relógio disparou o alarme da hora marcada.

Entrei resoluto na clínica. Fui dizendo que o dentista iria me chamar dali a dez minutos, às nove e meia. Esta é uma característica definidora da minha maneira de ser no mundo. Reforço os detalhes em prol desta identidade de pessoa que respeita os combinados.

Sorridente, foi chocante encarar a mulher sorridente:

ꟷ Senhor, sua consulta será amanhã de manhã, às dez e meia.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de março de 2022.

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