Cara a cara
O furo na camisa, não pensarei mais
nele. Também não vou culpar o espelho por colocar o furinho na minha polo
favorita. Cinza, que é cor apropriada a quem tem compromissos. A apresentação
sóbria pede os tons de cinza, e gola fechada. Sem bigode, fico mais bem
apresentável de cinza. Se tivesse um cavanhaque, ficaria muito mais bonito. E penso
em Freud, de inteligência indiscutível. Não creio que seja aconselhável contestar
a figura impoluta de um homem de cavanhaque bem aparado que fuma cachimbo sem
fazer careta nem soltar opinião atrás de outra. Ou seja, não é prudente que
pareça casual nem premeditada a pessoa marcar presença como gente moderada pela
razão. Não vou prescindir de exibir-me elegante, ainda que minha discreta
camisa polo cinza sem nódoas nem caneta no bolsinho me ajude a realçar o charme
dos meus músculos bem desenhados por pesos e contrapesos.
Lavo o rosto. Mal me levanto, vou
lavá-lo. A água fria é necessária. Se não purga erros, dá um tapa no sono. Retira
os restos do sono, que, sub-reptícios, querem que os perceba como orvalho na
teia. Não numa teia qualquer, de aranha qualquer, mas numa teia tecida por
tarântula.
Não creio que precise falar que Bob
Dylan escreveu Tarântula nem que a teia embaixo da minha cama foi feita por uma
tarântula. Porque entrar na mente de Bob Dylan para achar as conexões com o que
estou dizendo é perder-se de vez no labirinto. Sono é labirinto, que a certeza
não rompa o fio da meada. É preciso manter o fio intacto, sem nó. Pois falar da
existência de Bob Dylan ou de quem não leu nem vai ler o livro Tarântula, que
Bob Dylan assina, contribui para comprovar que tal livro foi escrito. E corrente
de água fria leva embora as teias do sono.
Por favor, seja gentil. Mesmo que tenha
sido eu a afirmar que a teia embaixo da minha cama é obra de uma tarântula que
nunca leu o livro de Bob Dylan, bote fé que eu falo uma verdade pública.
Melhor esquecer a teia toda.
Afinal, dormi bem. Não acordei com
tarântula tecendo teia embaixo da cama. Minha noite foi tranquila, de sono
contínuo. Nem sei se fiquei virando na cama; só sei que não acendi a luz pra olhar
se tinha aranha debaixo da cama. Nem vou olhar, ali está bem sujo. É tanta
sujeira que os tufos parecem nuvens.
Prefiro me lembrar da piscina de
bolinha. Toda colorida. Sonhei que nadava numa piscina que parecia não ter bordas.
Eu não via as bordas. Mas não pensava em sair nem pensava na exaustão dos meus braços.
O relógio disparou o alarme da hora
marcada.
Entrei resoluto na clínica. Fui dizendo
que o dentista iria me chamar dali a dez minutos, às nove e meia. Esta é uma
característica definidora da minha maneira de ser no mundo. Reforço os detalhes
em prol desta identidade de pessoa que respeita os combinados.
Sorridente, foi chocante encarar a
mulher sorridente:
ꟷ Senhor, sua consulta será amanhã de
manhã, às dez e meia.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 15 de março de 2022.
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