domingo, 20 de março de 2022

O dom natural

 

O dom natural

 

Ignorar não resolve. O clarão do curto deu susto, que pulei para trás no ato. O cheiro de queimado impregnou o ar da cozinha de imediato. O coração disparado retratou o alvoroço do impacto, e, até porque sei o básico de eletricidade, corri desligar o disjuntor.

Há elétrons, correntes contínua e alternada; e sei bem que bulir em fio desencapado dá choque. Já tomei muito choque, com o pé molhado ou de sandália de borracha. E levar choque é de arrepiar.

Deve ser simples trocar a resistência, mas acho complicado querer me meter numa área que não domino.

Deve ser fácil seguir as instruções para fazer a troca da resistência, só que eu me conheço, estou certo de que vou errar a mão.

Ora, deixar desligada a força não vai dar cabo do problema, o jeito, então, é chamar quem saiba consertar torneira elétrica.

É melhor pagar a quem entenda do riscado, faça o que tem que ser feito sem ficar enrolando e, o principal, não cobre os olhos da cara.

Sem dúvida, a pessoa indicada é o Pedro.

O Pedro faz de tudo um pouco. Sem ficar se gabando dos talentos, é jardineiro a quem precisa liquidar os pulgões nas azaleias sem matar os crisântemos, é marceneiro que faz uma cadeira de balanço de uma tarde pra outra, é serralheiro que reforma portão corroído por ferrugem antes que a gente passe aquele cafezinho esperto.

Mas a qualidade que mais me faz estimá-lo é a sua firmeza.

Não se espere dele que se travista de conselheiro que a todos tenha um sermão unissex pra tudo. Inflexibilidade é a sua fraqueza, uma vez que não lhe apetece transfigurar a sua discrição de casmurro.

Em boa hora lembrei-me de Pedro, lamentável, porém, foi saber de sua passagem, ocorrida há muito. Hesitei engolir que fora de enfisema pulmonar ou câncer nos brônquios, porque nunca o vi fumando.

Não acredito nessas histórias que brotam do nada. Aliás, a palavra de quem ataca sem fundamentar as críticas diz muito do maledicente. Ora, que a flor da inveja seque por falta de saliva que a adube.

E o Pedro não merecia o tanto que o achacavam.

Fulano achava gentil zombar das suíças mal aparadas, não bastava ser Pedro, tinha que ser Pedro III. Galhofeiro carrancudo, beltrano tinha que desmerecê-lo, apodando-o um qualquer Dom Pedro III. Entretanto, a sordidez decrépita reduzia-o a Terceiro.

Pra mim, sempre será Pedro.

E eu digo o porquê.

Você entra numa loja e alguém pergunta: “posso ajudar?” O Pedro não era desses, ele gostava de se fazer entender: “me faça ajudar”.

A Pedro não ocorria a ideia de ter permissão pra ser útil. Ficava feliz quando diziam o que queriam. Era mais que atender a um pedido. Não era pra ficar satisfeito que vivia. “OK, tenho consciência de que farei o que esperam de mim.” “Deixem comigo, sei que posso fazer o melhor.” “Darei o melhor de mim.” Quanta barbaridade. A Pedro era natural agir como instrumento.

Meu caro amigo, descanse em paz.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 20 de março de 2022.

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