Nana
Nina
Nina, a gatinha de olho vivo pra cochilo,
vai inspecionando as caixas como se nunca as tivesse visto. Sem nenhum aperto, a
serelepe sobe, anda e pula como bem entende. Se houvesse alguma mudança, vá lá,
isso explicaria aquela inspeção pormenorizada, mas, desde que foram colocadas
onde elas estão, faz meses, não tive, como ainda não tenho, a coragem necessária
para movê-las um dedinho, uma lasca de unha que fosse, nadica.
Seu Rodrigues, só vagais deixam bibliotecas
bagunçadas.
Eu a arrumaria se me obrigasse a tanto.
Desobrigado, não me aflijo com o pó dos dias que vai assentando na montanha de
papelão. Como me pegar atormentado é mais difícil por conta dos tranquilizantes
que ando tomando, a fibra forte está lassa.
Todavia, o lado ameno da vida permite
que fale: nada mal para uma só pessoa, pois, em outras palavras, sendo apenas
um, sou vários:
Covarde... Vagabundo... Indolente...
Porcalhão...
Algumas pessoas têm facilidade para,
numa palavra, definir outras, geralmente a quem menosprezam ou invejam, não sou
dessas. Aliás, pela digressão, acrescente-se que sou dispersivo, ou embromador.
Entretanto... A gata segue no jogo.
Curiosa por natureza, a bichana simplesmente
não é de ficar quieta sem ter motivo. O que está fazendo tem que ser acompanhado
de perto pra que não haja algum acidente, com ela ou causado por ela.
Silenciosa por conveniência, a
espevitada certamente ainda está na sala. Quando a danada dá uma sumida, e uma
das suas mais notórias peculiaridades é entregar-se ao desaparecimento
estratégico, o jeito é procurá-la ꟷ pé ante pé, chamando-a com dengo ou aos
gritos.
Enfim! A oncinha dócil de um palmo e
meio está deitada no espaço diminuto que existe entre a conjunção das paredes
com as caixas.
Como parece que a cara de sono está mais
para cara de cansada, a peludinha de olhos quase abertos vai ficando onde está porque,
sem estar preocupada em não passar a impressão de que esteja disposta a tirar
de cima de si a ansiedade geral com o seu repentino silêncio, a estimada felina
precisa dar uma gostosa descansadinha.
Recompor as forças para outras
estripulias é realmente deleitável, independentemente do papelão, da pouca
maciez do papelão, do odor meio nauseante do papelão empoeirado, faz bem parar
um pouco.
O sumiço da gatinha nada tem de
maquiavélico, a explicação mais simples é que a miau-miau está exausta de suas
tantas fuzarcas.
Como eu também sou um boboca besta, não vou
negar a qualquer membro quadrúpede do meu lar o direito a ter apagado o
holofote das minhas apreensões sobre o seu cangote.
No mato sem cachorro, gato pede água por
que é matreiro?
Se for, a beleza da história é que a realidade
nua e crua não basta, é preciso dar imaginação à memória: porque ela não varre a
poeira pra debaixo do tapete nem faz miar suas mil e uma Sherazades, Nina nana
de olho aberto.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 07 de abril de 2022.