quinta-feira, 7 de abril de 2022

Nana Nina

 

Nana Nina

 

Nina, a gatinha de olho vivo pra cochilo, vai inspecionando as caixas como se nunca as tivesse visto. Sem nenhum aperto, a serelepe sobe, anda e pula como bem entende. Se houvesse alguma mudança, vá lá, isso explicaria aquela inspeção pormenorizada, mas, desde que foram colocadas onde elas estão, faz meses, não tive, como ainda não tenho, a coragem necessária para movê-las um dedinho, uma lasca de unha que fosse, nadica.

Seu Rodrigues, só vagais deixam bibliotecas bagunçadas.

Eu a arrumaria se me obrigasse a tanto. Desobrigado, não me aflijo com o pó dos dias que vai assentando na montanha de papelão. Como me pegar atormentado é mais difícil por conta dos tranquilizantes que ando tomando, a fibra forte está lassa.

Todavia, o lado ameno da vida permite que fale: nada mal para uma só pessoa, pois, em outras palavras, sendo apenas um, sou vários:

Covarde... Vagabundo... Indolente... Porcalhão...

Algumas pessoas têm facilidade para, numa palavra, definir outras, geralmente a quem menosprezam ou invejam, não sou dessas. Aliás, pela digressão, acrescente-se que sou dispersivo, ou embromador.

Entretanto... A gata segue no jogo.

Curiosa por natureza, a bichana simplesmente não é de ficar quieta sem ter motivo. O que está fazendo tem que ser acompanhado de perto pra que não haja algum acidente, com ela ou causado por ela.

Silenciosa por conveniência, a espevitada certamente ainda está na sala. Quando a danada dá uma sumida, e uma das suas mais notórias peculiaridades é entregar-se ao desaparecimento estratégico, o jeito é procurá-la ꟷ pé ante pé, chamando-a com dengo ou aos gritos.

Enfim! A oncinha dócil de um palmo e meio está deitada no espaço diminuto que existe entre a conjunção das paredes com as caixas.

Como parece que a cara de sono está mais para cara de cansada, a peludinha de olhos quase abertos vai ficando onde está porque, sem estar preocupada em não passar a impressão de que esteja disposta a tirar de cima de si a ansiedade geral com o seu repentino silêncio, a estimada felina precisa dar uma gostosa descansadinha.

Recompor as forças para outras estripulias é realmente deleitável, independentemente do papelão, da pouca maciez do papelão, do odor meio nauseante do papelão empoeirado, faz bem parar um pouco.

O sumiço da gatinha nada tem de maquiavélico, a explicação mais simples é que a miau-miau está exausta de suas tantas fuzarcas.

Como eu também sou um boboca besta, não vou negar a qualquer membro quadrúpede do meu lar o direito a ter apagado o holofote das minhas apreensões sobre o seu cangote.

No mato sem cachorro, gato pede água por que é matreiro?

Se for, a beleza da história é que a realidade nua e crua não basta, é preciso dar imaginação à memória: porque ela não varre a poeira pra debaixo do tapete nem faz miar suas mil e uma Sherazades, Nina nana de olho aberto.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de abril de 2022.

terça-feira, 5 de abril de 2022

Dando Bandeira

 

Dando Bandeira

 

De repente, quando algo mexe comigo pra valer, não conto que não dou importância que não paro de pensar no assunto; é que não preciso me esforçar pra me interromper, a vida sabe fazê-lo por mim.

Outro dia, com o cérebro já meio zumbi, ensimesmado numa ânsia qualquer, cuja origem latejava obscura, então um raio caiu súbito.

A marca suja da vida.

Neste instante em que me encontrava pensativo, esquisito comigo, uma vez que a sensação de incômodo era mais um senão inexplicável, havia em mim esse vago mal-estar, essa fissura que não se sabe como surge, e pela qual a vida angustia.

Entre o sentimento e sua sombra, aflorava outro equívoco, que não me imaginei com a mão escorando o queixo, porque eu parecia mesmo um arremedo vulgar d’O Pensador.

A marca suja da vida, entretanto tal relâmpago foi desferido por uma boca que não parava de deformar a cara daquela pessoa. A graça veio da face improvável; que eu a observava segurando-me do riso, porque as risadas eu as silenciava dentro de mim. Deu-se, então, o choque da fala devera inesperada, pois nem desconfiava que alguém tão tagarela contivesse outras leituras, além das cabalas rosas do amor.

A marca suja da vida, não me importava que os meus ouvidos nem separassem o que falavam. Mas ouvi. De imediato, fui pegar um pouco mais de refrigerante. Mas, será que ouvi direito? Sim, um verso foi dito sem que antes estivesse dando bola pro que estavam falando. De fato, pude ouvir o verso do Manuel sendo dito. E de repente, tão logo ouvi o verso do poeta, deu em mim o estalo.

Como é que pode!

Fui encher o copo vazio por que bastou ser dito o verso do Bandeira pra dar uma sede por guaraná? Por que não por tubaína ou limonada?

Pus guaraná no copo que eu nem via que o segurava já vazio.

Desandei a beber guaraná. E abri outra garrafa, bebi-a inteira.

Por que o verso de Manuel Bandeira tinha realmente que me fazer trocar a prostração angustiada pela chateação estúpida?

Não conheço quem preencha os furos d’alma com guaraná. Sei de gente que afoga as mágoas em soníferos ou litros de uísque. Contudo, abdiquei do desejo pelo álcool, eu tomo guaraná como quem acha uma besteira das grandes tomar éter ou comer pizza fria.

A marca suja da vida, portanto, não está no vício, está na ilusão que não me impede de ficar embaraçado. O desejo, na verdade, ainda está em mim. Posso até querer controlar os meus impulsos. Procuro beber devagar, refletindo. Quero que a maneira como encaro a vida perca os laços com o preconceituoso. Quero agir como uma pessoa melhor, que sabe mesmo que guaraná não produz efeito algum que não seja fazer urinar um bocado.

Mesmo sabendo que iria ter que urinar de cinco em cinco minutos, ainda assim, bebi uma a uma as garrafas que encontrei.

Como tudo que é bom acaba no melhor da festa, não me irritei nem um pouco. Pra não ficar esquentando a moringa, fui embora a pé.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de abril de 2022.

domingo, 3 de abril de 2022

Ao infinito e além

 

Ao infinito e além

 

Embriagado pela bossa de sentir o ventinho no rosto após dois anos sob máscara de três camadas... Passa um carro barulhento, cujo rastro fuliginoso é mesmo de amargar.

Ele ruge, grunhe e sussurra. Esta miríade de ruídos não fere apenas os meus tímpanos, impregna as mucosas da boca.

Só pra cortar meu barato, o monstrengo tem que parar no vermelho do cruzamento e, como a combustão do motor permanece ativa, seguir poluindo a atmosfera que margeia o seu deslocamento.

Como ser que precisa respirar para manter-se vivo, acabo inalando aquela praga gasosa e, vapt-vupt, estou tossindo.

Entre o desejo de um passeio despretensioso e a frustração de fugir pisando firme, vejo-me compelido a trocar aquela vaporosa caminhada por uma desabalada carreira.

Dispensados os comprimidos na farmácia mais próxima, já à porta do lugar onde me livrarei das pilhas usadas, um terno boa-tarde alivia o ranço que me azeda o humor.

A moça que me aborda é uma pessoa querida.

Para não dar na vista o quanto estou irritado, não tagarelo sobre as pilhas, os remédios e o futuro do mundo, peço que me fale dos estudos, das descobertas alvissareiras, de seus ideais de acadêmica novata.

Sem que precise saber que me deixa à vontade, ajo naturalmente.

Me tranquiliza a informalidade. Noto a descontração. Ouço-a.

Como eu consigo realmente ouvi-la, posso me ignorar.

É algo libertador. É um processo efetivo de libertação interior. Tanto que me revelo um espectador de mim. Descubro-me capaz de assistir a mim mesmo enquanto ajo sem a necessidade de deixar transparecer o quanto estou feliz. E que felicidade imponderável é saber como sentir que uma vida justa, pouco cínica, é obra de uma consciência livre.

Assaz otimista, bastante radiante, verdadeiramente entusiasmada, a futura geneticista conta que tem aprendido como manipular DNA. Diz que virá o dia em que fatias específicas de material genético ajudarão a gerar mecanismos de defesa para cada pessoa. Prevendo o instante em que a nossa espécie poderá achar as reais condições de vencer as anomalias que outrora achávamos imbatíveis, ganharemos.

ꟷ Haveremos de derrotar nossos inimigos? Que loucura!

ꟷ Não, não tem nada de loucura. Pois onde há ciência, há método. Teorizar, implementar, analisar, reavaliar os dados, refazer quando for preciso, recolher os novos resultados, estudá-los sem esmorecer, mas sem se entrincheirar no campo do indubitável. E quem faz ciência sabe que o conhecimento hoje dado como aceitável amanhã poderá não ser. Como o trabalho de um indivíduo tem mesmo relações com a pesquisa de tantos outros, é normal manter a cabeça no lugar.

Sim, fugir às artimanhas dos jogos de guerra é saúde mental. Deve ser por isso que minha amiga brilhante trata de se apoiar em mim para calçar os chinelos de dedo comprados à lojinha que fica na esquina.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 03 de abril de 2022.

quinta-feira, 31 de março de 2022

Rancoroso nada

 

Rancoroso nada

 

Em pé ou sentada, no bar tem muita gente.

Tem quem não jogue conversa fora, nem um teco como santo nem um tico feito besta. Achando de forçar tanta doçura, tem quem amanse a raiva engolindo tubaína quente.

Em meio à estridência, uma pessoa se aquieta.

Parada diante da estufa de salgadinhos, faz um bom tempo que ela está olhando. Pra que tanta concentração se só tem um quibe?

A mão do braço na tipoia está engessada. Estar encostado, porém, não autoriza ninguém a desprezar os entregadores que, descarregada a bebida, tomam um cafezinho colados ao homem calado.

Vendo-o abstraído do entra-e-sai, seria adivinhação leviana atribuir à cachaça o poder de fixá-lo abduzido. Ele, aliás, nunca bebeu álcool, nem quando a filha mais velha o fez debutar como par de valsa.

O homem está afastado. Não tem como assentar tijolo. Ficará outro mês de molho. Chegaram a implantar parafusos e plaquinhas de titânio na munheca, mas, pelo que foi falado, tudo vai bem. Pra não ficar muito tempo parado, tem de pegar pesado na fisioterapia. Precisa voltar logo, que seja antes de completar um semestre de afastamento.

Tomá-lo como angustiado a depositar seus fantasmas num solitário quibe exposto no balcão de um bar diz o quão sinistros andam os seus dias. Sem dúvida, são dias infindos, dolorosos, difíceis de viver, mas o salgado não está ali como âncora da realidade.

A pessoa que não fala, que se esforça pra permanecer fechada, ela não é nenhuma companhia simpática. Entretanto, isso não desestimula quem chega desarmado, querendo puxar assunto.

A pessoas que nunca olham a gente no olho, em gentes assim, que fazem questão de olhar fixo um quibe, a elas convém prestar atenção, tentando compreendê-las pelo que não dizem.

Para dar um basta àquela cena angustiante, um bêbado de sorriso franco pede que lhe seja servido o salgadinho que sobra na estufa.

Nem precisa esquentar no micro-ondas, mas precisa de pimenta e de um limãozinho.

Assim que o pau d’água balançante pega o quibe, parte-o ao meio e estende uma metade ao sujeito que o observa sem queixo caído.

A generosidade é humana, ele é humano, logo ele é generoso pra caramba. Pra caramba é modo de dizer, pois ele é gente que dá o que pode só quando pode, sem que lhe faça falta. Pois é uma baita burrice repartir o que não tem como ser compartilhado.

Num instante, a situação é constrangedora.

Nada é dito. Os corpos ficam duros. Pigarros são forçados.

Contudo, o olhar do homem de gesso na mão é de ofendido que se recusa a aceitar que age por desfeita. No fundo, sua aspereza é a de quem lamenta o fado do quibe, que ficou pra trás.

Coxinhas, rissoles, esfihas, empadinhas, pastéis e bolinhos de ovo conhecem consumo fácil quando vendidos ainda tenros e apetitosos.

Não deseja criar caso, mas será que ninguém tem coragem de dizer que quibe frio com um grude de cheddar é de lascar?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 31 de março de 2022.

terça-feira, 29 de março de 2022

Um tapa besta

 

Um tapa besta

 

Uma bem-vinda vontade de comer bolo me pega pela saliva, que a boca vai enchendo, transborda e viro babar gostoso com a ideia de me esbaldar com o chocolate no recheio e nas lascas da cobertura.

Abro o parêntese. Pra evitar diz-que-me-disse, vou logo explicando: chocolate escuro é pesado e ataca a gastrite. Só isso. Eu prefiro comer branco em vez de escuro por causa da saúde. Repito que é só por isso. Fecho o parêntese.

Ficar maravilhado com algo tão singelo é que me faz acreditar num mundo menos atormentado. É claro, não vou agir como imbecil, porque muitas angústias terão mais condições de entrar em segundo plano se houver bolo para todos.

Em existindo, acho até que seja possível haver convivência pacífica entre homens de terno e mulheres de laquê, meninos com bodoques e meninas com patins, senhoras pés-de-valsa e senhores do dominó.

Aliás, antes da harmonia entre pessoas de distintas prioridades, eu confio que a lei alcança profundidade muito ética no fundamental: todo mundo tem direito a roncar numa rede depois de um bolo bom.

O importante é que haja espaço permitido a quem deseja armar sua rede, que haja tempo para fazer a digestão e que haja quem possibilite ter como se empanturrar de bolo quando a gente bem quiser.

Neste momento, porém, não estou numa varanda nem vou inventar de procurar uma rede. Posso estar parado, mas não estou abobado.

E com tanta coisa vibrando, ao meu redor e em mim, sei que o caos é mundano. É do mundo, e mais ainda: é urbano.

Ô instinto animal de bicho homem!

Como não desejo me perder, sequer em pensamento, sinto estar a um passo de uma ideia. Como bolo saído do forno, as palavras certas dão ideia boa de ser compartilhada com quem queira desfrutá-la.

Poderia pensar melhor, com moderação e juízo se a minha barriga não estivesse roncando. Porque o ronco parece onça, não consigo me concentrar. Sem me dominar, preciso escapar do pesadelo que é não ter equilíbrio pra não vidrar no que me falta.

Não sei como domesticar essa força que me faz querer bolo.

Queria controlada a fonte de desejos, mas há fissuras obscuras em minha cachola que permitem esta necessidade que se apodera de mim e me faz querer rodar por aí atrás de um pedaço de bolo.

Queria ficar longe do sereno da madrugada na minha careca.

Queria tanto poder ficar saciado, satisfeito e feliz só com a ideia de que posso comer um dedinho de bolo de chocolate.

Queria que a barriga roncando não me envergonhasse como estou envergonhado, que nem fome eu tenho, caramba.

Embora esteja sozinho, disfarço e ponho a mão sobre a roncadora desembestada, afinal, manter a postura é sinal de bons modos.

Abro outro parêntese. O que leva esta pessoa a trocar um bolo de chocolate por um copo de leite? Como não ficar possesso com quem agita mundos e fundos pra beber leitinho frio? Fecho outro parêntese.

De mim mesmo, tomo um tapa.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 29 de março de 2022.

domingo, 27 de março de 2022

Tolo de ouro

 

Tolo de ouro

 

Entre um pigarro e outro, é forte a impressão de que se confirme o pressentimento: algo está para acontecer bem na rua onde mora.

Pela sensação, só pode ter a ver com a casa ao lado, ou não estaria com vontade quiçá desmiolada de pular o muro do quintal para ir beber água fresca da mangueira.

Não invade o terreno alheio, come chocolate. Porque chocolate tem este poder tal que comê-lo faz com que vá arrefecendo certos desejos, os que mais pondera desequilibrados, muito açucarados.

Às vezes, no entanto, custa um pouco mais do que o normal, como se a falta de ar só fosse passar se enfiasse na boca aquele troço sujo, a ponta do esguicho diuturnamente exposta a urina de rato.

Pagando o sobrepreço, depois de terminada a segunda barra, nem se lembra do impulso maluco, pensa que tem que mudar o tipo, porque o 70% meio amargo o faz disparar a tosse até quase desmaiar, o que provocará a baita dor de cabeça latejante nas têmporas.

O resultado? Quer mais chocolate.

Excedendo, nem pensa em correr ao banheiro, faz as necessidades no meio do farto tufo de capim, num capinzal da altura de um elefante, o que não acalma o intestino de modo algum.

Do bojo do capinzal onde se curva, voltado sobre si naquele ventre que ainda se mantém verde em pleno outono, é dali que aguarda que cabeças surjam no topo do muro. Ainda que possam dele se esconder, desconfia que se atrevem a vê-lo tão frágil.

Ali está ele: agachado, depois da evacuação repentina; imaginando o gosto da água suja da mangueira; sentindo já um gosto salgado, que o mijo do rato se mistura ao dourado do cobre dos canos que fazem a água incolor perder a sua falta de cor e ganhar um sabor de mar.

Não há mar, há mais um jato de urina sobre restos de goiaba.

Pelamor, é disparate associar a cor da goiaba com a da maçã, cuja carga é bíblica.

Ele não gosta do gosto que tem na boca. É que parece ter terra na boca e tem também o gosto do mar.

Nada de acreditar que formigas possam sair do ventre da Terra pra virem devorar as sobras que traz nas entranhas.

Devem achá-lo tolo por atinar que têm a intenção de baratiná-lo.

Caraca, não o obriguem a beber guaraná. É que tanto faz que seja em pó, lata ou engarrafado, guaraná dá coceira e dor de cabeça.

E tanta coisa está prestes a virar realidade.

Pode soar como mentira deslavada, só que achar dinheiro na rua é coisa que acontece, mas o que não se vê a toda hora é encontrar uma carteira com dinheiro que dê para comprar uma TV 75”, um celular com seis câmeras e uma bicicleta elétrica em dólar.

Não chove, mas a luz será cortada. A goiabeira tombará. A caminho de casa, o motor pifará. E temerá as águas. Viessem guinchar o carro. Rezará pra que o rio volte ao leito de cada dia. Quando vir que poderá andar sem afundar em buraco, sairá da baleia metálica. Com água pela canela, pensará num banho quente.

Bom, o que tem brotado diante do portão da sua casa é serralha.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 27 de março de 2022.

quinta-feira, 24 de março de 2022

Cavalo dado

 

Cavalo dado

 

De ilusão também se vive, pois ficar preso à realidade vinte e quatro horas por dia tem o efeito colateral de deixar a gente meio doida. Como o noticiário não está no gibi, viver só de atualidade é dose.

Deve ser por isso que devoro quadrinhos desde que comecei a ler. Antes de entrar na escola, ali por volta dos cinco anos, virei devorador. Dali em diante fiquei este doido que adora se empanturrar com história de todo quilate, de fotonovela vagabunda a mistério infantojuvenil.

Se lembro bem, a minha escalada teve início com Os Sobrinhos do Capitão. Quem comprava era o meu irmão, mas, no que ele cochilava, eu tinha sumido quintal adentro pra ler tudinho numa sentada, sentado num galho do abacateiro.

Todo consumo desenfreado deixa sequelas, e o garoto que fui tinha seus momentos de ir pegando no sono durante a aula. A professora ia falando, falando muita coisa interessante a quem precisava se manter interessado no que ela ia falando, falando. E eu me ausentava de corpo presente, abduzido pela irrealidade, viajante à carteira.

Acontecia de não aguentar, é que minha mente precisava dar a sua escapadinha por lugares menos monótonos, vinha a mim a compulsão de esvaziá-la, rearranjar os espaços internos, mover espreguiçadeiras, bater o pó da rede, liberar na consciência vazios pro que parecia estar a anos-luz do material que todo aluno não deveria ignorar.

Assim, o tempo era o nada suspenso num ponto entre a professora toda professoral e o quadro-negro caligraficamente adornado por letras e números. Era um nada tão hipnótico que nem me percebia abismado.

Com o queixo apoiado na mão, respirava de boca fechada.

Respiro, e não faço o pedido de uma vez.

Primeiro, tragam-me o suco de avocado, com umas pedras de gelo. Não importa o frio, se estou pedindo gelo extra no copo, tragam-me.

Não me falta parafuso na cachola, sobram-me desestimulantes.

Preciso de alguns minutos para nem pensar na vida. Sei que posso esquecer os cães vadios indo de poste em poste. Quero caçar à toa as moscas que não escapolem pela saída.

De repente, tenho companhia.

Carlito está sentado comigo. Nem precisa abrir a boca. Com o olhar melancólico de gente sofrida pousado em mim, não estou abandonado. E estar bem acompanhado é o que importa.

Buster Keaton poderia vir juntar-se a nós, mas ele não aparece. É que poderia me confundir, tirando esfinges inumanas de sua persona.

Quem vem me espiar é Greta Garbo. E sua presença mexe comigo. E aquela boca. Se não desviar os olhos, conhecerão a febre da paixão, que tanto idolatro tal musa que diz muito ao meu espírito.

E quero cachorro-quente, mostarda e ketchup. Sal eu não posso.

Sorrindo pra mim no espelho, Zeppo está lá fora.

Preciso ir. De fato, preciso ir.

Ainda que sofra pelo tanto que tenho por fazer, serei afável e cortês, que isso sacode o menino comedido do meu coração.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de março de 2022.

terça-feira, 22 de março de 2022

Sem curinga

 

Sem curinga

 

As águas fechando o verão. A noite vindo. A cama que o corpo quer. Tudo indica outro domingo terminando tranquilo, mas...

É óbvio que um mas tem que entrar ou não haveria história, haveria tédio; e teríamos o cansaço de tanta sonolência entediada.

Mas a garoa da tardinha não acha veias nostálgicas em mim, que o meu peito não esquenta o sangue na minha cabeça. Sinto que estou gelado, mais frio que o normal.

É preciso passar um café, estourar pipoca, esperar que passe logo.

Mas pensamentos modorrentos cansam, aborrecem um bocado. Só ficando em pé para não cochilar. E já modorro o bastante para bocejos enfileirados, nem aguardo a água ferver. Com ela borbulhando, passo o café que sirvo rápido.

Ponho pressão em mim. Acelero. Queimo a boca. Firo a língua, mas não desisto de beber o café quente passado agora, neste momento a que me obrigo não perder de vista que é domingo.

Faz este friozinho de fim de tarde. Está garoando como previsto.

Sinto que devagar não irei longe, porque acabarei dormindo deitado no sofá, perdendo de ver um filme, ler um livro, ouvir música. Tudo isso porque teria paciência de esperar o café esfriar, para manter o costume de beber café frio.

Desta vez, contudo, o beberei quente.

Eu beberei quente porque não quero ler as borras. Não me deixarei frustrar com os restos na xícara, porque não saber qual o futuro traçado pelas sobras no fundo me fará atirar a xícara na parede.

Serei estúpido pra agir como estúpido. Sabendo que a hora seguirá, agirei contra mim. Contra a ideia de que tenho o dever de permanecer lúcido, raciocinando a favor de um fim de tarde de domingo sem entrar pelo desespero de não ter mais o que fazer comigo.

Mas deitar no sofá não é o mesmo que atirar xícaras na parede.

Que droga. Pus açúcar a mais.

Bebo assim mesmo, porque, distraído por um sorriso nervoso, acho pouco engraçada a ideia de que poderia estar aborrecido comigo. Não estou nem quero estar. Bebo, vou bebericando, e fico forçando pousar a xícara no pires como se ela fosse uma pena estragada pela ação da gravidade.

Sopro o café. Queria me divertir com o vaporzinho do café, mas não consigo. Pressinto que há pensamentos mórbidos que esperam minha distração, que perca o foco. Que eu sopre o café sem notar que o vapor sobe e o ar da cozinha continua úmido e gelado.

O outono chegou de repente. Ele veio antes do combinado.

Não quero correr pra sala. Não quero me apressar. Não tenho nada de ir furibundo me sentar diante da TV.

Todavia tenho TV. Vejo bombardeios. Contam-se os bebês mortos.

A ansiedade não ensina a anestesiar a intuição.

Como pular de paraquedas se não houver mais o amanhã? Puxaria o ar frio das alturas? Prenderia a respiração no instante do salto? Teria como atingir o alvo com o vento acima do calculado?

Não me belisco, mordisco o nó do indicador.

Eu não jogo sujo nem tento: bem cansado, eu adormeço.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de março de 2022.

 

domingo, 20 de março de 2022

O dom natural

 

O dom natural

 

Ignorar não resolve. O clarão do curto deu susto, que pulei para trás no ato. O cheiro de queimado impregnou o ar da cozinha de imediato. O coração disparado retratou o alvoroço do impacto, e, até porque sei o básico de eletricidade, corri desligar o disjuntor.

Há elétrons, correntes contínua e alternada; e sei bem que bulir em fio desencapado dá choque. Já tomei muito choque, com o pé molhado ou de sandália de borracha. E levar choque é de arrepiar.

Deve ser simples trocar a resistência, mas acho complicado querer me meter numa área que não domino.

Deve ser fácil seguir as instruções para fazer a troca da resistência, só que eu me conheço, estou certo de que vou errar a mão.

Ora, deixar desligada a força não vai dar cabo do problema, o jeito, então, é chamar quem saiba consertar torneira elétrica.

É melhor pagar a quem entenda do riscado, faça o que tem que ser feito sem ficar enrolando e, o principal, não cobre os olhos da cara.

Sem dúvida, a pessoa indicada é o Pedro.

O Pedro faz de tudo um pouco. Sem ficar se gabando dos talentos, é jardineiro a quem precisa liquidar os pulgões nas azaleias sem matar os crisântemos, é marceneiro que faz uma cadeira de balanço de uma tarde pra outra, é serralheiro que reforma portão corroído por ferrugem antes que a gente passe aquele cafezinho esperto.

Mas a qualidade que mais me faz estimá-lo é a sua firmeza.

Não se espere dele que se travista de conselheiro que a todos tenha um sermão unissex pra tudo. Inflexibilidade é a sua fraqueza, uma vez que não lhe apetece transfigurar a sua discrição de casmurro.

Em boa hora lembrei-me de Pedro, lamentável, porém, foi saber de sua passagem, ocorrida há muito. Hesitei engolir que fora de enfisema pulmonar ou câncer nos brônquios, porque nunca o vi fumando.

Não acredito nessas histórias que brotam do nada. Aliás, a palavra de quem ataca sem fundamentar as críticas diz muito do maledicente. Ora, que a flor da inveja seque por falta de saliva que a adube.

E o Pedro não merecia o tanto que o achacavam.

Fulano achava gentil zombar das suíças mal aparadas, não bastava ser Pedro, tinha que ser Pedro III. Galhofeiro carrancudo, beltrano tinha que desmerecê-lo, apodando-o um qualquer Dom Pedro III. Entretanto, a sordidez decrépita reduzia-o a Terceiro.

Pra mim, sempre será Pedro.

E eu digo o porquê.

Você entra numa loja e alguém pergunta: “posso ajudar?” O Pedro não era desses, ele gostava de se fazer entender: “me faça ajudar”.

A Pedro não ocorria a ideia de ter permissão pra ser útil. Ficava feliz quando diziam o que queriam. Era mais que atender a um pedido. Não era pra ficar satisfeito que vivia. “OK, tenho consciência de que farei o que esperam de mim.” “Deixem comigo, sei que posso fazer o melhor.” “Darei o melhor de mim.” Quanta barbaridade. A Pedro era natural agir como instrumento.

Meu caro amigo, descanse em paz.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 20 de março de 2022.

quinta-feira, 17 de março de 2022

Sem congelamento

 

Sem congelamento

 

Rente a mim passou uma pessoa que achei estar morta.

Custei a acreditar nos meus olhos.

Por serem naturais, costumam ir do esverdeado pro mel. Todavia, sem condições técnicas de captar aparições ectoplasmáticas, suponho haver correspondência da palheta da têmpera com oscilações do sutil ao escandaloso. Mutação cujos mecanismos me são obscuros.

O que vi, então?

O cérebro pode ter-se enganado, pois ele não tem nenhum eletrodo ou algum chip implantados na sua massa cinzenta. O que o deixa cego às manifestações que ultrapassam as regras da física natural.

Isto é, o cérebro e os olhos não me permitem enxergar os espíritos que podem estar vagando por aí. Por esta deficiência metafísica, creio que o lógico seria dizer que não foi uma alma carregada de sacolinhas que me deu calafrios bem realistas ao supô-la passando por mim.

Senti quem está vivíssimo.

Ao pé da letra, outra vez o mundo me frustra porque não aprendi a fazer feitiços, bruxedos e magias, pois estou restrito ao uso de recursos anatômicos próprios à espécie humana.

Se a vida faz-me obtuso, não sou idiota de não me resignar a sê-lo. De bom grado, abro mão dos martelos superiores do além-do-homem.

Como tenho parcos conhecimentos do funcionamento dos miolos, posso maquinar tramoias quanto engendrar engenhosidades, mas não calculo de cabeça a raiz quadrada de 21.320, mesmo que seja a soma dos dias que vivi até agora, dia 16 de março de 2022.

A palmos de mim passou essa pessoa que disseram estar morta há tempos. Apesar de carregar essa morte, eu a reconheci viva.

Ficasse no reconhecimento, falaria banalidade. Contudo, nesta vida materialista, nunca tinha experimentado sentimento tão difuso.

Tenho uma mente que funciona passo a passo, juntando devagar o trigo, fabricando farinha e sovando pães. Sustos, aliás, mais azedam a massa que colaboram pra degustação do que me afeta.

Se fosse pular pro finalmente indecoroso, diria que a pessoa morta que cruzou comigo era réplica perfeita de quem tinha carne no osso. E tal suprassumo tecnológico seria uma maravilha monstruosa.

Vai daí, o locutor diz que fulano é o robozão matador cuja eficiência em fazer gols está faltando à sua equipe. Passa o tempo, este robocop escorrega no gramado úmido, pois tem garoa no relvado bretão.

Por que raio de interferência, a cachola sente o chuvisco manso da pauliceia no cocuruto adolescente no Pacaembu? E logo naquele jogo do meu tricolor com os periquitos? Pela primeira vez num estádio?

Com ajustes a quente, o piloto da memória traz o Jorge Mendonça: depois do primeiro gol, ele vem comemorar com a torcida do lado onde estou sentado; pro segundo gol, a finta faz Valdir Peres deslizar como o CR7 no Teatro dos Sonhos.

Aproveito a partida com melancolia renovada.

E pincelado com margarina resfriada, o pãozinho vai descendo sem rangidos.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de março de 2022.

terça-feira, 15 de março de 2022

Cara a cara

 

Cara a cara

 

O furo na camisa, não pensarei mais nele. Também não vou culpar o espelho por colocar o furinho na minha polo favorita. Cinza, que é cor apropriada a quem tem compromissos. A apresentação sóbria pede os tons de cinza, e gola fechada. Sem bigode, fico mais bem apresentável de cinza. Se tivesse um cavanhaque, ficaria muito mais bonito. E penso em Freud, de inteligência indiscutível. Não creio que seja aconselhável contestar a figura impoluta de um homem de cavanhaque bem aparado que fuma cachimbo sem fazer careta nem soltar opinião atrás de outra. Ou seja, não é prudente que pareça casual nem premeditada a pessoa marcar presença como gente moderada pela razão. Não vou prescindir de exibir-me elegante, ainda que minha discreta camisa polo cinza sem nódoas nem caneta no bolsinho me ajude a realçar o charme dos meus músculos bem desenhados por pesos e contrapesos.

Lavo o rosto. Mal me levanto, vou lavá-lo. A água fria é necessária. Se não purga erros, dá um tapa no sono. Retira os restos do sono, que, sub-reptícios, querem que os perceba como orvalho na teia. Não numa teia qualquer, de aranha qualquer, mas numa teia tecida por tarântula.

Não creio que precise falar que Bob Dylan escreveu Tarântula nem que a teia embaixo da minha cama foi feita por uma tarântula. Porque entrar na mente de Bob Dylan para achar as conexões com o que estou dizendo é perder-se de vez no labirinto. Sono é labirinto, que a certeza não rompa o fio da meada. É preciso manter o fio intacto, sem nó. Pois falar da existência de Bob Dylan ou de quem não leu nem vai ler o livro Tarântula, que Bob Dylan assina, contribui para comprovar que tal livro foi escrito. E corrente de água fria leva embora as teias do sono.

Por favor, seja gentil. Mesmo que tenha sido eu a afirmar que a teia embaixo da minha cama é obra de uma tarântula que nunca leu o livro de Bob Dylan, bote fé que eu falo uma verdade pública.

Melhor esquecer a teia toda.

Afinal, dormi bem. Não acordei com tarântula tecendo teia embaixo da cama. Minha noite foi tranquila, de sono contínuo. Nem sei se fiquei virando na cama; só sei que não acendi a luz pra olhar se tinha aranha debaixo da cama. Nem vou olhar, ali está bem sujo. É tanta sujeira que os tufos parecem nuvens.

Prefiro me lembrar da piscina de bolinha. Toda colorida. Sonhei que nadava numa piscina que parecia não ter bordas. Eu não via as bordas. Mas não pensava em sair nem pensava na exaustão dos meus braços.

O relógio disparou o alarme da hora marcada.

Entrei resoluto na clínica. Fui dizendo que o dentista iria me chamar dali a dez minutos, às nove e meia. Esta é uma característica definidora da minha maneira de ser no mundo. Reforço os detalhes em prol desta identidade de pessoa que respeita os combinados.

Sorridente, foi chocante encarar a mulher sorridente:

ꟷ Senhor, sua consulta será amanhã de manhã, às dez e meia.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de março de 2022.

domingo, 13 de março de 2022

Ligação direta

 

Ligação direta

 

Sentado à mesa na varanda, almocei tranquilo. Sem ficar tenso com gente a um palmo do meu nariz, fiz o prato em paz. Não tive que comer em três minutos. No maior sossego, paguei e, besta de panduio cheio, enfiei dois reais de gorjeta na caixinha dos funcionários que fica o ano inteiro pegando fuligem no balcãozinho do caixa.

Comi bem. Fui mão aberta. Mas não pretendo posar de bobo alegre, uma vez que não é propriamente alegria o que estou sentindo.

Sei que não estou tendo nenhum dia difícil, porém posso estragá-lo de repente. Sou dado a repentes. E tenho uma facilidade tal que muitas vezes meço o que faço pelas tristezas que vão mesmo me derrubar do alto da minha felicidade.

Quando flutuo na bolha de uma saciedade fugaz, sou frágil. Pra não explodir por nada, tenho que ficar na minha cola. De fato, sou instável. Indo tomar sorvete dois quarteirões mais adiante, posso fazer a dança da chuva.

Não debaterei a ideia: a consistência deliciosa de picolés, sundaes e cornetos depende de mim. Portanto, vou lento, desacelero, dou folga à geladeira para que a sua magia mecânica cause o efeito desejado: o saboroso do sorvete continue inabalável.

Há pardais nos fios elétricos. Sem dar na vista, estudo-os. É preciso pensar com rapidez. Não chego a correr o olhar, pisco e disfarço. Paro à sombra de um arbusto. Reparo, os bichos me deixam confuso. E toda confusão me faz perder a paz de espírito. A troco de quê?

Minha cabeça mantém demônios, fantasmas e outras criaturas nos meus subterrâneos. Lá onde o sol perde o calor, aí onde a luz gela os pensamentos, aqui em mim que me aquieto no canto, o posto no qual sou outro, sou carcereiro enjaulado.

Queria urrar à lua noturna, mas é no sol que transpiro.

Amigo, não pergunte o que acho que seja a sanidade. Sei lá, talvez seja ir fazendo o que tenho feito sem ficar me preocupando com o que faço enquanto vou fazendo. Se não for sanidade, é normalidade. Quem sabe, a insanidade bem poderia ser a consciência de estar vivendo a me ocupar de pardais no meio-fio.

E novamente estou sentado. Dentro do posto da esquina, sentado à mesa sem suar que nem maratonista atrás do ouro tão sonhado.

Tomo sorvete, não planejei tomá-lo no intervalo do almoço. Todavia hoje estou impossível. Nem ligo, e faço o que me dá na telha.

Entra uma noiva. Pega a chave do banheiro. Porta afora, some.

Um minuto depois, entra outra noiva. Parece ter chorado há pouco. Conversa com um funcionário. Feito um raio, some.

Duas noivas numa tacada só? Que demais!

Será que vai ter casamento coletivo na vizinhança?

Voltam as moças. Voltam abraçadas. Dengosas. Carinhosas. Estão aos muxoxos. Pagam uma cerveja, e vão. Bebendo no gargalo, vão.

Cai minha ficha.

Sigo-as com o olhar. As felizardas entram num táxi parado.

Tem uma fila enorme de automóveis.

Como chuva de verão, me precipito: tem promoção relâmpago.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 13 de março de 2022.

quinta-feira, 10 de março de 2022

Abusado

 

Abusado

 

Uma preguicinha piscou pra mim, que eu vi. Que bom! Notei sua luz relaxante sobre mim, minando de cima a minha cabeça, que era nuvem e se adensou. E ficou boiando, não precipitou selvagem feito chuva de verão de quinze minutos de estragos estratosféricos.

Minha preguicinha queria me fazer mais solar, mais inspirado, mais feliz com a sensação de bem-estar, que tinha essa alegria a gerar uma leveza a tornar plano e macio o chão sob os pés.

Calçados em meias confortáveis, pelos tênis que têm meu número, os pés sabem se comportar, podem ir de boa pelo calçadão, e vou que até perco a doçura esvoaçante das borboletinhas tão singelas, mas me recupero ao notá-las tão graciosas.

E eu canto que não me espanta tanto sol que não desencana tanta gente vil que rouba os óculos do Drummond. Canto a manhãzinha bela que vai cantando a aura das princesinhas comedoras de mortadela.

Mortadela? Eu também quero!

Desejo muito ter a alma leve de irradiância benigna que a tudo toca, retoca, ri na dor, não dói no riso, goza a vida como num troca-troca de lágrimas por sorrisos, pesadelos por sonhos, frio a quem tem calor.

Caramba, carambola, cadê a chave de casa?

Abusando da manhãzinha bem-aventurada, perdi-a na caminhada. Procuro que procuro e nada. Não está nos bolsos da bermuda, caceta!

Contudo, eu não a perderia se tivesse ido em frente, se não tivesse parado pro sacolé. Se a praia não fosse tão fotogênica. Se a areia não estivesse tão bronzeada.

Mas parei. Olhei as ondas. Me deixei levar. E descuidei de mim.

Enquanto voltava, fui sofrendo a chateação de ter de ir ao chaveiro, levá-lo até minha casa, desconfiar do sujeito, temer a sua conversinha, ter na minha frente a sua cara lambida.

Ó mundo cruel. Ó vida tão desumana.

Xô tentação! Quero telefonar.

Sem brincadeira, no duro mesmo, tadinho de mim que virtualmente estou perdido, que os dias hoje são de guerras, batalhas e lutas. O cão caçando o cão. Dias de medo. Dias de morte.

Ô diação... Nem tem orelhão perto.

Bons dias de telefone fixo, nos anos dourados de cabine telefônica em Londres. Uma época de Bee Gees gemendo e Travolta quebrando tudo na pista. Num tempo que se sabia o quase nada de sempre sobre Vietnã, Angola, Moçambique, Biafra e Tibete.

Eu era boçal e não sabia. Gostava da alegria que é estar vivo.

Mostarda para mim não era gás e caía bem na salsicha. Eram dias de cachorrão na prensa, com repeteco!

Nem ontem nem amanhã, não vai ser agora que vou negar de jeito algum: eu sempre gostei de ter a mente alerta para captar as ondas do rádio; sempre me conectei com as ondas curtas do rádio; sempre tinha bombril na ponta da antena; sempre soube, mesmo que não soubesse que sabia, sempre disse: camarão que dorme a maré lava.

Vovó, pensei: bobo vira lobo na lua cheia?

Vovó dá o toque: felicidade que anoitece, alvorece.

Oba! Oba! Caída junto aos pés do poeta, a chave brilha.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 10 de março de 2022.

terça-feira, 8 de março de 2022

Inhambu na imbuia

 

Inhambu na imbuia

 

Quando pede que se faça o que nem foi cogitado ou fala o que nem se pensava ouvir, conselho bom nunca é ignorado.

Dá-se atenção por diferentes razões. Ou pela surpresa causada ou por destapar cumbucas severamente lacradas ou pelo aborrecimento de descobrir fracos os argumentos que estavam sendo tão sólidos para manter calada a boca que abomina o pasmo do chilique.

Conselho, portanto, tem que ter esse zunzunzum que só pernilongo sabe como usar ou seria vento que o assobio espalha como canção.

Sábia canção que, de maneira suave, o rádio trouxe pelo ar. Porém, o estardalhaço de ranger os batentes, as dobradiças, os caixilhos e as ventanas fica por conta do baile comendo solto na sala de jantar.

Se o tempo em que o trânsito fluía sereno na velocidade adequada a uma vida menos perturbadora ainda fosse hoje, eu teria apitado com a elegância dum guarda sob a sombra duma imbuia em flor.

Ao psiquiatra, já que me escondi atrás da vergonha, não disse nada sobre o que teria feito. Feito não, teria comprado. Porque, ora essa, eu queria muito tomar posse daquele apito.

Queria chamar inhambu, não queria ser ouvido além do consultório do bom doutor. Queria passarinhos voando no ar bem condicionado.

Mesmo sem saber do que eu poderia ter feito, meu bom doutor me receitaria as panaceias de resultados excelentes, ou não voltaria outra vez com as minhas frustrações de burguês tão remediado.

Seria falso testemunho se afirmasse que anos e anos de tarja preta me mudaram para melhor, uma vez que meus gastos correntes fazem de mim um legítimo pequeno-burguês mal pagador.

Você que lê com as lupas da inteligência, você está entendendo os caminhos da lógica aqui estabelecidos: o suposto burguês, na verdade, o pretendido pequeno-burguês, não passa de um joão-bobo.

Vento vai, joga o joão pra lá; vento volta, o joão vem pra frente.

Assim queria a minha vida, com altos e baixos, não esse sofrimento contínuo, essa terapia que não cura, essas mágoas que não saram, o sufoco a cada mês, o ramerrão do lúmpen que não entra em nenhuma loja de renome, em loja grande, iluminada como se retivesse o sol entre quatro paredes, como loja bem-afamada na praça.

Por que eu aí entraria?

Entraria para verificar que tudo está na arapuca da fortuna.

Ou o conselho de fugir a constrangimentos, assédios e gatilhos não teria voltado à boca como resposta do vento à falta de senso, que esta pessoa sóbria saberia se moldar surda ao burburinho dos botecos.

Ou melaria tudo, por assobiar a melodia de uma canção encaixando a letra de outra.

Como a carteira tem este tique nervoso de barrar a oportunidade de me consultar mais de uma vez por mês com o doutor psiquiatra, lá vão minhas rosas murchas de pétalas outrora vermelhas, lá vão elas pedir mais mel com limão à água de garrafão.

E saio da sessão certo de que não sei caçar inhambu, caçarei içá.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de março de 2022.

domingo, 6 de março de 2022

Gruta da Felicidade

 

Gruta da Felicidade

 

Estou exausto, fiquei o dia todo indo de um lado para outro debaixo de um sol de lascar. Então, além do esqueleto em pandarecos, imagine o bagaço da minha cachola. Os cabelos brancos ficaram mais revoltos com esta jornada estupidez afora, pois trabalhar o quanto que trabalhei é para formiga, não é para gente que gosta mesmo é de bebericar uma groselha fresca, pousar os pés num pufe fofo e cantarolar gracioso uns minuetos de Mozart irradiando divertimentos pela casa toda.

No estado em que me encontro, sem forças pra não dar ouvidos às sereias da lua plena, doparia a razão com um vinho de segunda se me permitisse um instante de insustentável placidez.

Todavia, às vezes de modo bruto e abrupto, o devaneio que navega à flor mansa da calmaria de uma noite estrelada naufraga em pesadelo o que seria sonho. Pois é, o selvagem do homem acorda suas garras pra furar o bote bem no meio do nada, e bau, bau, paz na nau mundial.

Posso ignorar os monstros com seus horrores contemporâneos, tão onipresentes quando as chagas estão sendo rasgadas, mas os escuto repassando os fatos.

Ora, vem cá.

Sem uísque com guaraná, não acho que urina apague os vestígios do fogo. Dou um jeito: fumo que nem transpiro.

Eu fugiria, mas a poltrona gosta de mim que até assumiu as curvas e retas do meu esqueleto. Acomodado ao teatro de revoluções a cada inspiração, sinto que estou mergulhando na Lagoa da Saudade.

Só pode ser pela sala. Às escuras.

Mas não culparei o copo vazio, porque, mesmo que estivesse cheio de birita barata, não queria outra pessoa pra ficar bêbada no meu lugar. Aliás, nem sou barata pra correr ao primeiro alvoroço.

Devia mesmo sair da sala. Querendo muito, tomaria a groselha que a esperança traria pra mim sem incumbir ilusões à vigília.

Na sala tem uma mesa. Na cabeceira desta mesa tem uma cadeira. Iluminada por um foco de luz amarelada que vem de cima, esta cadeira está vazia. No meio do estofado desta cadeira vazia tem um xis. O xis da cadeira de estofado rubro está pintado com tinta amarelo palha. Ou é amarelo palha ou a luz amarelada contamina o branco do xis.

Da cabeceira oposta à cadeira vazia, uma pessoa fala:

“Venha para onde possa vê-lo. Dê dois passos à esquerda para que possa vê-lo por inteiro. Tire as mãos dos bolsos. Não esconda as mãos nas costas. Manter as mãos à vista não significa agitá-las. Fazer vento pouco adiantará. Agitar os braços é ridículo. Vento à toa não vai mover moinho algum. Não serei moída por uma brisa besta. Não tenho medo do que vejo. Urge saber o que se passa. As folhagens vão tomando as paredes. Um rosto está surgindo. Posso vê-lo. A face do sonso manso é sua, não é minha. Não temo o senhor, senhor.”

Como é inteligente perceber, a porca não para na rosca espanada do parafuso, supõe-se, portanto, que a parede deixa torto o quadro?

Sem lero-lero, mesa redonda não tem cabeceira.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de março de 2022.

quinta-feira, 3 de março de 2022

Gertrudes

 

Gertrudes

 

Ajeitando as bugigangas depois da mais recente mudança de casa, tentando assimilar uma outra ordem pra objetos e memórias, vi-me às voltas com a nostalgia.

A tal sentimentalismo não dedico muito ânimo, pois ficar suspirando porque certas imagens têm o encanto de falar de uma vida encoberta por silêncios profundos é postura que a mim não apraz nem reconforta; aborrece-me a banalidade de procurar com a pieguice realçar os traços poéticos do cotidiano.

Dispensado de sentir-me nostálgico piegas, lenta e amorosamente, ia desfazendo pequenas bolhas que porventura encontrava nas folhas de um álbum de fotografias. Mas foi juntando farelos que reparei a trilha que astutamente dirigia meu olhar.

Banhado na melancolia dessa compreensão, o sorriso manso selou o óbvio: meu ego, com a ginga de passista no delírio do carnaval, tinha distribuído as fotos mapeando o que era relevante quando escolheu a organização: ele queria marcada a minha passagem pelo mundo.

Era um apanhado de criança encenando sua meninice, era só isso mesmo. Sem fazer pose de adulto nem de adolescente, só eu na minha singeleza de menino, sem ostentações de pessoinha simpaticamente faceira.

Vai daí que reavivei as brasas da curiosidade.

As páginas dispunham de fotos duplicadas de objetos; por exemplo, o meu velotrol aparecia sozinho e depois comigo acompanhando-o. E assim: minha cachorrinha pequinesa estava sozinha e comigo junto; a minha caixa de engraxate surgia sem mim e noutra foto eu a trazia num ombro; a cabaninha de cobertor isolada e minha cara de curumim feliz entrava no par da dupla.

Tudo, tudo mesmo, tudo estava em duplicata.

Poderia especular, porém não é do meu feitio fazê-lo, gratuitamente ou trazendo a lume alguma razão neurótica. Criatura humana que sou, pessoa que nem sabe sondar suas neuroses, admito que as possuo e isso não altera os suores da ansiedade nem os soluços de tartamudo.

Pacóvio que revela o pavio aceso de uma apoplexia, quis ver.

Na foto da cabaninha, comigo e sem migo, o que ganha o primeiro plano, claro, é a estrutura montada com cobertas e cabos de vassoura.

Entretanto, no infinito das paralelas do corredor, estreito comprido, formado pelas paredes da casa onde vivi parte da infância e o paredão do sobrado vizinho, lá no fundo, junto a um janelão vertical que parecia uma porta, tinha um objeto escuro, pequeno e bem difícil de definir.

Matutando, quebrando a cabeça, sacudindo a poeira, removendo a pátina, escovando o azinhavre, tirei as teias e, vencidos os obstáculos e demovidas as venetas, fiquei de fato comovido.

Recordei o nome. Lembrado o nome, reanimei caraminholas e pude enxergar quem, embora entrado na idade, me coube batizá-lo.

Sem alardear correlações com a atualidade, as fotos redescobertas de Gertrudes revelam que o casco de um jabuti parece um murundu.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 03 de março de 2022.