quinta-feira, 3 de março de 2022

Gertrudes

 

Gertrudes

 

Ajeitando as bugigangas depois da mais recente mudança de casa, tentando assimilar uma outra ordem pra objetos e memórias, vi-me às voltas com a nostalgia.

A tal sentimentalismo não dedico muito ânimo, pois ficar suspirando porque certas imagens têm o encanto de falar de uma vida encoberta por silêncios profundos é postura que a mim não apraz nem reconforta; aborrece-me a banalidade de procurar com a pieguice realçar os traços poéticos do cotidiano.

Dispensado de sentir-me nostálgico piegas, lenta e amorosamente, ia desfazendo pequenas bolhas que porventura encontrava nas folhas de um álbum de fotografias. Mas foi juntando farelos que reparei a trilha que astutamente dirigia meu olhar.

Banhado na melancolia dessa compreensão, o sorriso manso selou o óbvio: meu ego, com a ginga de passista no delírio do carnaval, tinha distribuído as fotos mapeando o que era relevante quando escolheu a organização: ele queria marcada a minha passagem pelo mundo.

Era um apanhado de criança encenando sua meninice, era só isso mesmo. Sem fazer pose de adulto nem de adolescente, só eu na minha singeleza de menino, sem ostentações de pessoinha simpaticamente faceira.

Vai daí que reavivei as brasas da curiosidade.

As páginas dispunham de fotos duplicadas de objetos; por exemplo, o meu velotrol aparecia sozinho e depois comigo acompanhando-o. E assim: minha cachorrinha pequinesa estava sozinha e comigo junto; a minha caixa de engraxate surgia sem mim e noutra foto eu a trazia num ombro; a cabaninha de cobertor isolada e minha cara de curumim feliz entrava no par da dupla.

Tudo, tudo mesmo, tudo estava em duplicata.

Poderia especular, porém não é do meu feitio fazê-lo, gratuitamente ou trazendo a lume alguma razão neurótica. Criatura humana que sou, pessoa que nem sabe sondar suas neuroses, admito que as possuo e isso não altera os suores da ansiedade nem os soluços de tartamudo.

Pacóvio que revela o pavio aceso de uma apoplexia, quis ver.

Na foto da cabaninha, comigo e sem migo, o que ganha o primeiro plano, claro, é a estrutura montada com cobertas e cabos de vassoura.

Entretanto, no infinito das paralelas do corredor, estreito comprido, formado pelas paredes da casa onde vivi parte da infância e o paredão do sobrado vizinho, lá no fundo, junto a um janelão vertical que parecia uma porta, tinha um objeto escuro, pequeno e bem difícil de definir.

Matutando, quebrando a cabeça, sacudindo a poeira, removendo a pátina, escovando o azinhavre, tirei as teias e, vencidos os obstáculos e demovidas as venetas, fiquei de fato comovido.

Recordei o nome. Lembrado o nome, reanimei caraminholas e pude enxergar quem, embora entrado na idade, me coube batizá-lo.

Sem alardear correlações com a atualidade, as fotos redescobertas de Gertrudes revelam que o casco de um jabuti parece um murundu.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 03 de março de 2022.

Nenhum comentário:

Postar um comentário