terça-feira, 8 de março de 2022

Inhambu na imbuia

 

Inhambu na imbuia

 

Quando pede que se faça o que nem foi cogitado ou fala o que nem se pensava ouvir, conselho bom nunca é ignorado.

Dá-se atenção por diferentes razões. Ou pela surpresa causada ou por destapar cumbucas severamente lacradas ou pelo aborrecimento de descobrir fracos os argumentos que estavam sendo tão sólidos para manter calada a boca que abomina o pasmo do chilique.

Conselho, portanto, tem que ter esse zunzunzum que só pernilongo sabe como usar ou seria vento que o assobio espalha como canção.

Sábia canção que, de maneira suave, o rádio trouxe pelo ar. Porém, o estardalhaço de ranger os batentes, as dobradiças, os caixilhos e as ventanas fica por conta do baile comendo solto na sala de jantar.

Se o tempo em que o trânsito fluía sereno na velocidade adequada a uma vida menos perturbadora ainda fosse hoje, eu teria apitado com a elegância dum guarda sob a sombra duma imbuia em flor.

Ao psiquiatra, já que me escondi atrás da vergonha, não disse nada sobre o que teria feito. Feito não, teria comprado. Porque, ora essa, eu queria muito tomar posse daquele apito.

Queria chamar inhambu, não queria ser ouvido além do consultório do bom doutor. Queria passarinhos voando no ar bem condicionado.

Mesmo sem saber do que eu poderia ter feito, meu bom doutor me receitaria as panaceias de resultados excelentes, ou não voltaria outra vez com as minhas frustrações de burguês tão remediado.

Seria falso testemunho se afirmasse que anos e anos de tarja preta me mudaram para melhor, uma vez que meus gastos correntes fazem de mim um legítimo pequeno-burguês mal pagador.

Você que lê com as lupas da inteligência, você está entendendo os caminhos da lógica aqui estabelecidos: o suposto burguês, na verdade, o pretendido pequeno-burguês, não passa de um joão-bobo.

Vento vai, joga o joão pra lá; vento volta, o joão vem pra frente.

Assim queria a minha vida, com altos e baixos, não esse sofrimento contínuo, essa terapia que não cura, essas mágoas que não saram, o sufoco a cada mês, o ramerrão do lúmpen que não entra em nenhuma loja de renome, em loja grande, iluminada como se retivesse o sol entre quatro paredes, como loja bem-afamada na praça.

Por que eu aí entraria?

Entraria para verificar que tudo está na arapuca da fortuna.

Ou o conselho de fugir a constrangimentos, assédios e gatilhos não teria voltado à boca como resposta do vento à falta de senso, que esta pessoa sóbria saberia se moldar surda ao burburinho dos botecos.

Ou melaria tudo, por assobiar a melodia de uma canção encaixando a letra de outra.

Como a carteira tem este tique nervoso de barrar a oportunidade de me consultar mais de uma vez por mês com o doutor psiquiatra, lá vão minhas rosas murchas de pétalas outrora vermelhas, lá vão elas pedir mais mel com limão à água de garrafão.

E saio da sessão certo de que não sei caçar inhambu, caçarei içá.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de março de 2022.

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