Inhambu na imbuia
Quando pede que se faça o que nem foi
cogitado ou fala o que nem se pensava ouvir, conselho bom nunca é ignorado.
Dá-se atenção por diferentes razões. Ou
pela surpresa causada ou por destapar cumbucas severamente lacradas ou pelo
aborrecimento de descobrir fracos os argumentos que estavam sendo tão sólidos
para manter calada a boca que abomina o pasmo do chilique.
Conselho, portanto, tem que ter esse
zunzunzum que só pernilongo sabe como usar ou seria vento que o assobio espalha
como canção.
Sábia canção que, de maneira suave, o
rádio trouxe pelo ar. Porém, o estardalhaço de ranger os batentes, as dobradiças,
os caixilhos e as ventanas fica por conta do baile comendo solto na sala de
jantar.
Se o tempo em que o trânsito fluía
sereno na velocidade adequada a uma vida menos perturbadora ainda fosse hoje, eu
teria apitado com a elegância dum guarda sob a sombra duma imbuia em flor.
Ao psiquiatra, já que me escondi atrás
da vergonha, não disse nada sobre o que teria feito. Feito não, teria comprado.
Porque, ora essa, eu queria muito tomar posse daquele apito.
Queria chamar inhambu, não queria ser
ouvido além do consultório do bom doutor. Queria passarinhos voando no ar bem
condicionado.
Mesmo sem saber do que eu poderia ter
feito, meu bom doutor me receitaria as panaceias de resultados excelentes, ou
não voltaria outra vez com as minhas frustrações de burguês tão remediado.
Seria falso testemunho se afirmasse que anos
e anos de tarja preta me mudaram para melhor, uma vez que meus gastos correntes
fazem de mim um legítimo pequeno-burguês mal pagador.
Você que lê com as lupas da
inteligência, você está entendendo os caminhos da lógica aqui estabelecidos: o
suposto burguês, na verdade, o pretendido pequeno-burguês, não passa de um joão-bobo.
Vento vai, joga o joão pra lá; vento
volta, o joão vem pra frente.
Assim queria a minha vida, com altos e
baixos, não esse sofrimento contínuo, essa terapia que não cura, essas mágoas
que não saram, o sufoco a cada mês, o ramerrão do lúmpen que não entra em
nenhuma loja de renome, em loja grande, iluminada como se retivesse o sol entre
quatro paredes, como loja bem-afamada na praça.
Por que eu aí entraria?
Entraria para verificar que tudo está na
arapuca da fortuna.
Ou o conselho de fugir a
constrangimentos, assédios e gatilhos não teria voltado à boca como resposta do
vento à falta de senso, que esta pessoa sóbria saberia se moldar surda ao
burburinho dos botecos.
Ou melaria tudo, por assobiar a melodia
de uma canção encaixando a letra de outra.
Como a carteira tem este tique nervoso
de barrar a oportunidade de me consultar mais de uma vez por mês com o doutor
psiquiatra, lá vão minhas rosas murchas de pétalas outrora vermelhas, lá vão
elas pedir mais mel com limão à água de garrafão.
E saio da sessão certo de que não sei
caçar inhambu, caçarei içá.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 08 de março de 2022.
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