Gruta da Felicidade
Estou exausto, fiquei o dia todo indo de
um lado para outro debaixo de um sol de lascar. Então, além do esqueleto em
pandarecos, imagine o bagaço da minha cachola. Os cabelos brancos ficaram mais revoltos
com esta jornada estupidez afora, pois trabalhar o quanto que trabalhei é para
formiga, não é para gente que gosta mesmo é de bebericar uma groselha fresca, pousar
os pés num pufe fofo e cantarolar gracioso uns minuetos de Mozart irradiando divertimentos
pela casa toda.
No estado em que me encontro, sem forças
pra não dar ouvidos às sereias da lua plena, doparia a razão com um vinho de
segunda se me permitisse um instante de insustentável placidez.
Todavia, às vezes de modo bruto e abrupto,
o devaneio que navega à flor mansa da calmaria de uma noite estrelada naufraga em
pesadelo o que seria sonho. Pois é, o selvagem do homem acorda suas garras pra
furar o bote bem no meio do nada, e bau, bau, paz na nau mundial.
Posso ignorar os monstros com seus horrores
contemporâneos, tão onipresentes quando as chagas estão sendo rasgadas, mas os escuto
repassando os fatos.
Ora, vem cá.
Sem uísque com guaraná, não acho que urina
apague os vestígios do fogo. Dou um jeito: fumo que nem transpiro.
Eu fugiria, mas a poltrona gosta de mim
que até assumiu as curvas e retas do meu esqueleto. Acomodado ao teatro de
revoluções a cada inspiração, sinto que estou mergulhando na Lagoa da Saudade.
Só pode ser pela sala. Às escuras.
Mas não culparei o copo vazio, porque, mesmo
que estivesse cheio de birita barata, não queria outra pessoa pra ficar bêbada no
meu lugar. Aliás, nem sou barata pra correr ao primeiro alvoroço.
Devia mesmo sair da sala. Querendo
muito, tomaria a groselha que a esperança traria pra mim sem incumbir ilusões à
vigília.
Na sala tem uma mesa. Na cabeceira desta
mesa tem uma cadeira. Iluminada por um foco de luz amarelada que vem de cima,
esta cadeira está vazia. No meio do estofado desta cadeira vazia tem um xis. O
xis da cadeira de estofado rubro está pintado com tinta amarelo palha. Ou é
amarelo palha ou a luz amarelada contamina o branco do xis.
Da cabeceira oposta à cadeira vazia, uma
pessoa fala:
“Venha para onde possa vê-lo. Dê dois
passos à esquerda para que possa vê-lo por inteiro. Tire as mãos dos bolsos.
Não esconda as mãos nas costas. Manter as mãos à vista não significa agitá-las.
Fazer vento pouco adiantará. Agitar os braços é ridículo. Vento à toa não vai
mover moinho algum. Não serei moída por uma brisa besta. Não tenho medo do que
vejo. Urge saber o que se passa. As folhagens vão tomando as paredes. Um rosto
está surgindo. Posso vê-lo. A face do sonso manso é sua, não é minha. Não temo
o senhor, senhor.”
Como é inteligente perceber, a porca não
para na rosca espanada do parafuso, supõe-se, portanto, que a parede deixa
torto o quadro?
Sem lero-lero, mesa redonda não tem
cabeceira.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 06 de março de 2022.
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