domingo, 6 de março de 2022

Gruta da Felicidade

 

Gruta da Felicidade

 

Estou exausto, fiquei o dia todo indo de um lado para outro debaixo de um sol de lascar. Então, além do esqueleto em pandarecos, imagine o bagaço da minha cachola. Os cabelos brancos ficaram mais revoltos com esta jornada estupidez afora, pois trabalhar o quanto que trabalhei é para formiga, não é para gente que gosta mesmo é de bebericar uma groselha fresca, pousar os pés num pufe fofo e cantarolar gracioso uns minuetos de Mozart irradiando divertimentos pela casa toda.

No estado em que me encontro, sem forças pra não dar ouvidos às sereias da lua plena, doparia a razão com um vinho de segunda se me permitisse um instante de insustentável placidez.

Todavia, às vezes de modo bruto e abrupto, o devaneio que navega à flor mansa da calmaria de uma noite estrelada naufraga em pesadelo o que seria sonho. Pois é, o selvagem do homem acorda suas garras pra furar o bote bem no meio do nada, e bau, bau, paz na nau mundial.

Posso ignorar os monstros com seus horrores contemporâneos, tão onipresentes quando as chagas estão sendo rasgadas, mas os escuto repassando os fatos.

Ora, vem cá.

Sem uísque com guaraná, não acho que urina apague os vestígios do fogo. Dou um jeito: fumo que nem transpiro.

Eu fugiria, mas a poltrona gosta de mim que até assumiu as curvas e retas do meu esqueleto. Acomodado ao teatro de revoluções a cada inspiração, sinto que estou mergulhando na Lagoa da Saudade.

Só pode ser pela sala. Às escuras.

Mas não culparei o copo vazio, porque, mesmo que estivesse cheio de birita barata, não queria outra pessoa pra ficar bêbada no meu lugar. Aliás, nem sou barata pra correr ao primeiro alvoroço.

Devia mesmo sair da sala. Querendo muito, tomaria a groselha que a esperança traria pra mim sem incumbir ilusões à vigília.

Na sala tem uma mesa. Na cabeceira desta mesa tem uma cadeira. Iluminada por um foco de luz amarelada que vem de cima, esta cadeira está vazia. No meio do estofado desta cadeira vazia tem um xis. O xis da cadeira de estofado rubro está pintado com tinta amarelo palha. Ou é amarelo palha ou a luz amarelada contamina o branco do xis.

Da cabeceira oposta à cadeira vazia, uma pessoa fala:

“Venha para onde possa vê-lo. Dê dois passos à esquerda para que possa vê-lo por inteiro. Tire as mãos dos bolsos. Não esconda as mãos nas costas. Manter as mãos à vista não significa agitá-las. Fazer vento pouco adiantará. Agitar os braços é ridículo. Vento à toa não vai mover moinho algum. Não serei moída por uma brisa besta. Não tenho medo do que vejo. Urge saber o que se passa. As folhagens vão tomando as paredes. Um rosto está surgindo. Posso vê-lo. A face do sonso manso é sua, não é minha. Não temo o senhor, senhor.”

Como é inteligente perceber, a porca não para na rosca espanada do parafuso, supõe-se, portanto, que a parede deixa torto o quadro?

Sem lero-lero, mesa redonda não tem cabeceira.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de março de 2022.

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