quinta-feira, 10 de março de 2022

Abusado

 

Abusado

 

Uma preguicinha piscou pra mim, que eu vi. Que bom! Notei sua luz relaxante sobre mim, minando de cima a minha cabeça, que era nuvem e se adensou. E ficou boiando, não precipitou selvagem feito chuva de verão de quinze minutos de estragos estratosféricos.

Minha preguicinha queria me fazer mais solar, mais inspirado, mais feliz com a sensação de bem-estar, que tinha essa alegria a gerar uma leveza a tornar plano e macio o chão sob os pés.

Calçados em meias confortáveis, pelos tênis que têm meu número, os pés sabem se comportar, podem ir de boa pelo calçadão, e vou que até perco a doçura esvoaçante das borboletinhas tão singelas, mas me recupero ao notá-las tão graciosas.

E eu canto que não me espanta tanto sol que não desencana tanta gente vil que rouba os óculos do Drummond. Canto a manhãzinha bela que vai cantando a aura das princesinhas comedoras de mortadela.

Mortadela? Eu também quero!

Desejo muito ter a alma leve de irradiância benigna que a tudo toca, retoca, ri na dor, não dói no riso, goza a vida como num troca-troca de lágrimas por sorrisos, pesadelos por sonhos, frio a quem tem calor.

Caramba, carambola, cadê a chave de casa?

Abusando da manhãzinha bem-aventurada, perdi-a na caminhada. Procuro que procuro e nada. Não está nos bolsos da bermuda, caceta!

Contudo, eu não a perderia se tivesse ido em frente, se não tivesse parado pro sacolé. Se a praia não fosse tão fotogênica. Se a areia não estivesse tão bronzeada.

Mas parei. Olhei as ondas. Me deixei levar. E descuidei de mim.

Enquanto voltava, fui sofrendo a chateação de ter de ir ao chaveiro, levá-lo até minha casa, desconfiar do sujeito, temer a sua conversinha, ter na minha frente a sua cara lambida.

Ó mundo cruel. Ó vida tão desumana.

Xô tentação! Quero telefonar.

Sem brincadeira, no duro mesmo, tadinho de mim que virtualmente estou perdido, que os dias hoje são de guerras, batalhas e lutas. O cão caçando o cão. Dias de medo. Dias de morte.

Ô diação... Nem tem orelhão perto.

Bons dias de telefone fixo, nos anos dourados de cabine telefônica em Londres. Uma época de Bee Gees gemendo e Travolta quebrando tudo na pista. Num tempo que se sabia o quase nada de sempre sobre Vietnã, Angola, Moçambique, Biafra e Tibete.

Eu era boçal e não sabia. Gostava da alegria que é estar vivo.

Mostarda para mim não era gás e caía bem na salsicha. Eram dias de cachorrão na prensa, com repeteco!

Nem ontem nem amanhã, não vai ser agora que vou negar de jeito algum: eu sempre gostei de ter a mente alerta para captar as ondas do rádio; sempre me conectei com as ondas curtas do rádio; sempre tinha bombril na ponta da antena; sempre soube, mesmo que não soubesse que sabia, sempre disse: camarão que dorme a maré lava.

Vovó, pensei: bobo vira lobo na lua cheia?

Vovó dá o toque: felicidade que anoitece, alvorece.

Oba! Oba! Caída junto aos pés do poeta, a chave brilha.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 10 de março de 2022.

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