Que
coisa mais doida
O jornalista Zuza Homem de Mello anuncia
uma biografia de João Gilberto. Hum...
Pessoas admitidas à privacidade do famigerado
bossa-novista de Chega de Saudade relatam
que o baiano, premiado com um desses raros fenômenos da natureza, tinha ouvido
absoluto. O compositor de Bim Bom era
capaz de reconhecer uma nota musical sem precisar de referências. Sua percepção
era de um profundíssimo apuro, o que lhe permitia identificar semitons de imediato.
Assim, para dar ao público sem audição
naturalmente preciosa ou tecnicamente estudada, ele ensaiava durante horas,
ficando a repetir um único acorde até expressar as variações microscópicas que podia
escutar de modo tão aguçado.
A sua técnica não estava a serviço da
perfeição como costumam julgar, dava-se em função educadora, para que os tímpanos
comuns pudessem gozar de experiência estética peculiaríssima.
Talvez seja historinha ao redor do mito,
mas contam que o Mestre de Juazeiro tinha verdadeira fascinação por pessoas
azuis, aquelas que têm voz afinada em si
bemol e não em dó maior como a
maioria.
Sei. Algo me diz que o referido músico
era... doidinho.
É carinhosamente crítico este doidinho. O exemplo de ser humano
diferente da chamada loucura “normal”, dos que se acham um Nero ou Napoleão. O
termo é aplicável àqueles que vão levando uma vida pacata, cotidiana, sem
grandes abismos metafísicos, que, entretanto, tem particular fixação por algum
detalhe, alguma minúcia, o que só a eles deixam malucos a ponto do exagero, da
desmedida, de se verem atirados ao sério, de fazê-los parecer dementes de tão
atraídos.
Bem capazes de ficarem horas e horas no
bendito acorde, até que o gato, bicho que possui uma audição assombrosamente aumentada,
resolve pegar o chapéu para ir miar em outro canto. Fato este, aliás, sempre citado
quando se quer carimbar como mal-agradecido quem prefere a privação das
sutilezas expressas naquele bim bom bim bom bom bom.
Caramba, isso de associar cor com a
pessoa, por sua voz ou pela aura da sua presença, dá o que pensar. Será que foi
por causa desse ouvido absurdamente refinado que Van Gogh usava cores berrantes,
fora do padrão, ou teria cortado a própria orelha?
Opa. Sem a pretensão de retificar o
que me parece um equívoco, não sigo quem diz o mesmo em relação a Arthur
Rimbaud. No poema Vogais ele tratou
de associar vogais a cores, assim o A é preto; o E é branco; o I é vermelho; O
é azul; U é verde.
Ah tá! Quando ouço “dia” não imagino
algo rubro-negro. Por certo, minhas limitações põem o sol brilhando no céu de anil.
Aliás, longe de mim querer me juntar ao
poeta francês ou ao pintor holandês, que tinham certos cacoetes, de nascença ou
pela força de hábitos invulgares. Como gosto muitíssimo de ambos, fico tentado
a chamá-los... doidões.
E?
E no vaivém da vida, valsa mal este cronista...
doido.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 07 de julho de 2020.