quinta-feira, 2 de julho de 2020

Cego de amor


Cego de amor

Com a realidade bem-comportada atrapalhando quase um nada a visão clara dos fatos, o homem muito educado desce à rua com seus conceitos nutridos nos bons modos que traz do berço. Afinal, hoje em dia, é preciso estar certo da postura correta, de acordo com o figurino da cabeça boa que sabe agir com propriedade na hora exata.
Sem tirar nem pôr, antes de chegar à esquina, a verdade cristalina logo lhe dá bom-dia. Eis dois rapazes tomando uma geral de policiais, isto é, os adolescentes, de boné e sem camisa, estão em pé, com as pernas afastadas, as mãos pouco acima da nuca. Certamente, devem ter aprontado alguma ― pensa o moralmente lúcido.
Sem tempo para ficar reparando na vida dos outros, uma vez que a manhã tem suas tarefas por cumprir, o negócio é acelerar o passo e ir direto para o banco.
À porta da agência, sentados sobre o papelão, a mulher passa um cigarro para o homem. Em plena luz do dia e à vista pública. E como fede, aquilo só pode ser droga. E isso não está nada certo ― pensa o politicamente ético.
Com sorte, desvia da moça que cata latinha que está trabalhando de cara limpa. Passa rápido pela farmácia, para pegar mais máscaras e frascos de álcool em gel. E quede que venha alguém chamá-la ao respeito ― pensa o cidadão indignado.
O mundo anda no avesso. Com uma tempestade de poeira vindo do Saara para a América; com uma nuvem de gafanhotos atacando as plantações na Argentina; com um ciclone devastando o Sul; tudo por causa da conduta mundana ― pensa o fiel resignado.
Que a sua mente concentre-se na lida.
De lista na mão, vai pegando os itens. Enquanto o segurança do supermercado dá uma dura no sujeito que está sujo, cheirando mal, balançando de bêbado no setor de bebidas. Mais um vagabundo que não toma vergonha ― pensa o naturalmente humanista.
Segura de si: a pessoa que não gagueja quando grita com quem quer corrigi-la; a consciência tranquila que dorme o sono dos justos; a alma satisfeita que lava o prato das suas refeições. Ela garante que merece o que tem porque é tudo fruto do trabalho ― pensa o maior dos defensores da história.
E verdade seja dita, sem medo e preconceito algum. Que seria da civilização brasileira se homens como ele, íntegro e incorruptível, não vigiasse, lutasse e perseverasse pela decência, pela honradez, pela disciplina? A pátria já estaria entregue a quem só sabe exigir direitos e mais direitos ― reflete o exemplar da nação pacífica, sem vulcão e sem terremoto, de uma gente alegre e única, unida pelo mais sensual dos sentimentos: a igualdade.
Tão leal a si mesmo, diz o singelamente modesto brasileiro que é preciso tomar partido para agir com imparcialidade, é preciso praticar a parcialidade do lícito que fundamenta a validade dos legítimos.
Com simpatia espetacular, salta um cordialmente realista:
― Quem ama seu semelhante odeia não ser correspondido.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 02 de julho de 2020.

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