Cego
de amor
Com a realidade bem-comportada
atrapalhando quase um nada a visão clara dos fatos, o homem muito educado desce
à rua com seus conceitos nutridos nos bons modos que traz do berço. Afinal,
hoje em dia, é preciso estar certo da postura correta, de acordo com o figurino
da cabeça boa que sabe agir com propriedade na hora exata.
Sem tirar nem pôr, antes de chegar à
esquina, a verdade cristalina logo lhe dá bom-dia. Eis dois rapazes tomando uma
geral de policiais, isto é, os adolescentes, de boné e sem camisa, estão em pé,
com as pernas afastadas, as mãos pouco acima da nuca. Certamente, devem ter aprontado
alguma ― pensa o moralmente lúcido.
Sem tempo para ficar reparando na vida
dos outros, uma vez que a manhã tem suas tarefas por cumprir, o negócio é
acelerar o passo e ir direto para o banco.
À porta da agência, sentados sobre o
papelão, a mulher passa um cigarro para o homem. Em plena luz do dia e à vista
pública. E como fede, aquilo só pode ser droga. E isso não está nada certo ―
pensa o politicamente ético.
Com sorte, desvia da moça que cata latinha
que está trabalhando de cara limpa. Passa rápido pela farmácia, para pegar mais
máscaras e frascos de álcool em gel. E quede que venha alguém chamá-la ao
respeito ― pensa o cidadão indignado.
O mundo anda no avesso. Com uma
tempestade de poeira vindo do Saara para a América; com uma nuvem de gafanhotos
atacando as plantações na Argentina; com um ciclone devastando o Sul; tudo por
causa da conduta mundana ― pensa o fiel resignado.
Que a sua mente concentre-se na lida.
De lista na mão, vai pegando os itens.
Enquanto o segurança do supermercado dá uma dura no sujeito que está sujo,
cheirando mal, balançando de bêbado no setor de bebidas. Mais um vagabundo que
não toma vergonha ― pensa o naturalmente humanista.
Segura de si: a pessoa que não gagueja
quando grita com quem quer corrigi-la; a consciência tranquila que dorme o sono
dos justos; a alma satisfeita que lava o prato das suas refeições. Ela garante
que merece o que tem porque é tudo fruto do trabalho ― pensa o maior dos defensores
da história.
E verdade seja dita, sem medo e
preconceito algum. Que seria da civilização brasileira se homens como ele,
íntegro e incorruptível, não vigiasse, lutasse e perseverasse pela decência,
pela honradez, pela disciplina? A pátria já estaria entregue a quem só sabe
exigir direitos e mais direitos ― reflete o exemplar da nação pacífica, sem
vulcão e sem terremoto, de uma gente alegre e única, unida pelo mais sensual
dos sentimentos: a igualdade.
Tão leal a si mesmo, diz o singelamente
modesto brasileiro que é preciso tomar partido para agir com imparcialidade, é
preciso praticar a parcialidade do lícito que fundamenta a validade dos legítimos.
Com simpatia espetacular, salta um cordialmente
realista:
― Quem ama seu semelhante odeia não ser
correspondido.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 02 de julho de 2020.
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