terça-feira, 7 de julho de 2020

Que coisa mais doida


Que coisa mais doida

O jornalista Zuza Homem de Mello anuncia uma biografia de João Gilberto. Hum...
Pessoas admitidas à privacidade do famigerado bossa-novista de Chega de Saudade relatam que o baiano, premiado com um desses raros fenômenos da natureza, tinha ouvido absoluto. O compositor de Bim Bom era capaz de reconhecer uma nota musical sem precisar de referências. Sua percepção era de um profundíssimo apuro, o que lhe permitia identificar semitons de imediato.
Assim, para dar ao público sem audição naturalmente preciosa ou tecnicamente estudada, ele ensaiava durante horas, ficando a repetir um único acorde até expressar as variações microscópicas que podia escutar de modo tão aguçado.
A sua técnica não estava a serviço da perfeição como costumam julgar, dava-se em função educadora, para que os tímpanos comuns pudessem gozar de experiência estética peculiaríssima.
Talvez seja historinha ao redor do mito, mas contam que o Mestre de Juazeiro tinha verdadeira fascinação por pessoas azuis, aquelas que têm voz afinada em si bemol e não em dó maior como a maioria.
Sei. Algo me diz que o referido músico era... doidinho.
É carinhosamente crítico este doidinho. O exemplo de ser humano diferente da chamada loucura “normal”, dos que se acham um Nero ou Napoleão. O termo é aplicável àqueles que vão levando uma vida pacata, cotidiana, sem grandes abismos metafísicos, que, entretanto, tem particular fixação por algum detalhe, alguma minúcia, o que só a eles deixam malucos a ponto do exagero, da desmedida, de se verem atirados ao sério, de fazê-los parecer dementes de tão atraídos.
Bem capazes de ficarem horas e horas no bendito acorde, até que o gato, bicho que possui uma audição assombrosamente aumentada, resolve pegar o chapéu para ir miar em outro canto. Fato este, aliás, sempre citado quando se quer carimbar como mal-agradecido quem prefere a privação das sutilezas expressas naquele bim bom bim bom bom bom.
Caramba, isso de associar cor com a pessoa, por sua voz ou pela aura da sua presença, dá o que pensar. Será que foi por causa desse ouvido absurdamente refinado que Van Gogh usava cores berrantes, fora do padrão, ou teria cortado a própria orelha?
Opa. Sem a pretensão de retificar o que me parece um equívoco, não sigo quem diz o mesmo em relação a Arthur Rimbaud. No poema Vogais ele tratou de associar vogais a cores, assim o A é preto; o E é branco; o I é vermelho; O é azul; U é verde.
Ah tá! Quando ouço “dia” não imagino algo rubro-negro. Por certo, minhas limitações põem o sol brilhando no céu de anil.
Aliás, longe de mim querer me juntar ao poeta francês ou ao pintor holandês, que tinham certos cacoetes, de nascença ou pela força de hábitos invulgares. Como gosto muitíssimo de ambos, fico tentado a chamá-los... doidões.
E?
E no vaivém da vida, valsa mal este cronista... doido.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 07 de julho de 2020.

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