domingo, 5 de julho de 2020

Zaragata


Zaragata

De bobeira, por intuição. Talvez por que seja domingo, ou por que esteja com uma sensação de alívio. Quiçá o sufoco da ocasião tenha saído dar uma voltinha no quarteirão.
Uma saída...
E ir sem pressa. Ir com a disposição dos descobridores. Não, indo com olhos que inventam o caminho. Ir disposto a inventar-se menos pesado, angustiado. E deixar-se ir mais afeito ao contentamento que não se explica, vive-se. Uma maravilha.
Tratar de viver os sentimentos que estão vindo sem mais. Porque o instante é agora, com o sabor do inadiável, do que se faz único.
Tolice? Bobeira, mesmo. De uma leveza. De quem não está nem aí para projetos, projeções, programações.
De graça. Bem engraçada.
O negócio mesmo é não ter cabeça para negociar. Poder degustar o momento. Fazê-lo, o prazer de estar de bobeira, inegociável. Então, por que um grão de silêncio quer se passar por algaravia?
Uma palavra cheia de luz. Praias que escancaram o horizonte. De alegrias contagiantes. E de tamanha magnitude: algaravia.
Ó algaravia que está na alma, dá-me, ó encanto, a calma de quem ouve a grama crescendo. Por um momento, ouve sem perceber.
Ó algaravia que brota da lama, venha-me, ó quietude, traga-me a chama que ilumina o ar que respiro. Por um segundo, brilhe a paz.
Ó algaravia que resgata o corpo, abriga-me, ó sopro, no lume que regenera o músculo estafado, o tendão agastado, o nervo enfatuado.
Por um instante, por este instante, sem cálculo. Para existir a seu bel-prazer, pelo bom de vivê-lo à medida de sua oportunidade.
Assim, os olhos encontram os olhos. Que sorriem. Estão sorrindo. Sem saber que sorriem, que podem sorrir, nem pedem para sorrir. Os olhos dão com o olhar que encontra porque não o estava procurando. Porque havia de descobrir o que não estava encoberto. Porque há de revelar o que não está oculto.
Basta este encontro, o fortuito.
Entretanto, para que o acaso possa o enlace, a união de universos tão distintos, é preciso estar desatento, distraído, como ausente de si, em si. Entretanto, que se permita a presença na lacuna, no vazio que se abre entre um passo e outro, na passada que não cessa.
Então, neste estado de espírito, nesta emergência do que ignora o sentido do que está sendo feito, nesta existência que dispensa o teor do que se vive, aí o inefável, o indizível, o incomunicável, sorri.
É o sorriso da gata que se lambia todinha, se limpava de alguma coisa invisível, se entrega àquilo, e, repentinamente, o inesperado se desprende.
Da cor da beterraba... Da terra.
A danadinha esteve fuçando os vasos. A discreta esteve cobrindo suas pegadas. Esta bichinha de sete meses, tranquilamente no sofá, no seu lugarzinho no sofá, é aí que ela basta a si mesma, é daí que o infinito escapa e, sorrindo, se deixa materializar como encantamento.
Nana nina não? Sim.
Só um bobo para acolher a misericórdia que mia.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 05 de julho de 2020.

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