O
décimo terceiro dia
O ano que me cuide do jeito certo, com
mel na torradinha e suspiros que sublimam na língua. Se me querem provar, que a
sua inexperiência, meses, seja inédita. Ou, lá por novembro, à saída do
calendário, irão lamentar a imprudência. E do que sou capaz, comigo afiado como
uma navalha de barbeiro?
Ao sul de minhas preces, há uma frota
de caravelas à linha d’água. Não me erradicarão do
português. Abrasar-me-ão, têm a minha palavra, mas não passarão por mim pelo
que falo.
Curtido na pele de bom brasileiro do
bem, verei a mil, vinte, trinta mil a pedir, implorar, suplicar. Por alívio, pagarei
para ver a picanha na grelha; desafiarei o Guilherme Tell que mofa ao lado; e o
sol, o mesmo a cada aurora, não me desmentirá.
A mão que acolhe é a mesma que
acaricia, soca e esmurra. Faço-o desde mim, pois dou ouvido ao que me
recomendam os pacatos de coração. Porque similares, meus semelhantes.
Lobo civilizado pelo convívio, solto
uns latidos de chihuahua. E corro atrás do que se mexe. Sem freio na boca, sem
luz para o entendimento de que sombra tem vida própria e não para. A língua
está cerrada, os dentes também.
Como um morcego dentro de casa, passo
a soltar a minha voz catando milho no teclado. Anoto que rejeito o convite para
a caminhada ecologicamente educativa, pois a nanotecnologia que a minha saúde
precisa está em Harvard. E à contribuição voluntária nego os
meus dados bancários, embora as crianças de Darfur mereçam comer e ser
medicadas. Quase ponho meu endereço eletrônico num formulário daquela livraria
que anda mal das pernas, mas não, prefiro ir folhear as páginas que nem pensei que
leria.
Digo que não porto nem portarei um automóvel movido a GPS, e, de corpo presente,
pelejarei por fatos justos mesmo a quem os queira desnudar. A eles, a você e a
mim, digo o que a grita, no fundo, não quer calado em nós: que o mundo mude.
Assombrados com Ícaro, mais nos
diverte o fracasso. Cegos por nos crermos menos covardes, damos guarida à
soberba ao apupá-lo. Esquecemos, porém, que ele voou tão bem que usou as asinhas
para peitar o Sol. Só que ninguém suporta afronta, o Rei mergulha o grego no
mediterrâneo da sua altivez. Agora, o mortal é Mito.
Então, para revelar-se texto que
prefere dobrar-se sobre si a ser simples, a crônica deve perder a aura de
profecia.
Que este seja outro décimo terceiro
dia.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 13 de janeiro de
2019.