Cerimônia
do adeus
Bem-aventurados os que pularam as sete
ondas, de branco, transbordantes de esperanças para si e para os seus. Fechado
em mim, ostra perturbada a defender-se das oferendas do mar. Ouvindo sereias que não cantam o vivo, sigo distraído.
De travesseiro acomodado, falhei com
todos os foguetórios, talvez pujantes na TV. Deprimente que só, fiquei torcendo
para que 2018 me escarrasse para 2019.
Ano Bom, vossa excelência poderia ao
menos o fingimento da compreensão que sou solidário a todas, todos, todes. Quem
não teme, pois, a contagem regressiva que a Terra está a nos indicar? Nem as
pedras recolhidas à bile das minhas ânsias.
Sem condições de sossego, penso o que
me destrói, sinto o que percebo. O paraíso e o inferno moldados carne, pondo-me
sensível à passagem dos acontecimentos.
Queria ter a instrução de homens do
circo. Saberia domar a serpentina e o confete que chegam cobrindo rosto e
cocuruto? Nem mesmo com a ajuda dos olhos, melhorados na cegueira a tatear o
grisalho de todo sentido, que, sozinho, só faz ilusão. E depois, correções das
lentes e escorregões dos palpites geram confusão. Admito-a, até as que engenho
por fixação. Quanto a dos terceiros, será para isso que existem os atentos,
aqueles que vão pela vida a dispor as cascas de banana que, volta e meia, me perfazem
um palhaço?
Queria mostrar a face oculta, a de
atirador de facas. Cheia no segredo e minguante quando invocada. Mantenho-a elétrica
no chato que não para quieto, louco de ir lá para cima, soltar os trapézios e rir
de mim ao desabar no umbigo.
Engulo pitacos não solicitados. Sorvo
do fel o veneno que não me faz desistir do próximo fracasso. Empenho-me nisso.
O homem é a desmedida de si. Sou.
Sei que posso, e cavo o poço com
afinco. Cavado fundo, na profundidade da rabugice. É nele que atiro o troco dos
outros desejos. Porque a mim me basta a pirraça do emburrecimento inexplicável.
A cara fechada, de infeliz a meu modo.
Contudo, o poder de inquirir,
investigar, examinar e pensar, de refletir e conceituar, tal capacidade é
humana. Digo, do ser humano, da pessoa sapiens.
Das mulheres e dos homens, na precisão do preciso.
Como já se faz hora, pergunto ao
bichinho do goiaba que mora em mim, entre sinapses velhas de luta e outras no
broto: a hora voa quando é da hora? Ele, iluminado, corre com a resposta.
Como a vida passa, é boa.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, 03 de janeiro de 2019.
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