quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Cerimônia do adeus


Cerimônia do adeus

Bem-aventurados os que pularam as sete ondas, de branco, transbordantes de esperanças para si e para os seus. Fechado em mim, ostra perturbada a defender-se das oferendas do mar. Ouvindo sereias que não cantam o vivo, sigo distraído.
De travesseiro acomodado, falhei com todos os foguetórios, talvez pujantes na TV. Deprimente que só, fiquei torcendo para que 2018 me escarrasse para 2019.
Ano Bom, vossa excelência poderia ao menos o fingimento da compreensão que sou solidário a todas, todos, todes. Quem não teme, pois, a contagem regressiva que a Terra está a nos indicar? Nem as pedras recolhidas à bile das minhas ânsias.
Sem condições de sossego, penso o que me destrói, sinto o que percebo. O paraíso e o inferno moldados carne, pondo-me sensível à passagem dos acontecimentos.
Queria ter a instrução de homens do circo. Saberia domar a serpentina e o confete que chegam cobrindo rosto e cocuruto? Nem mesmo com a ajuda dos olhos, melhorados na cegueira a tatear o grisalho de todo sentido, que, sozinho, só faz ilusão. E depois, correções das lentes e escorregões dos palpites geram confusão. Admito-a, até as que engenho por fixação. Quanto a dos terceiros, será para isso que existem os atentos, aqueles que vão pela vida a dispor as cascas de banana que, volta e meia, me perfazem um palhaço?
Queria mostrar a face oculta, a de atirador de facas. Cheia no segredo e minguante quando invocada. Mantenho-a elétrica no chato que não para quieto, louco de ir lá para cima, soltar os trapézios e rir de mim ao desabar no umbigo.
Engulo pitacos não solicitados. Sorvo do fel o veneno que não me faz desistir do próximo fracasso. Empenho-me nisso.
O homem é a desmedida de si. Sou.
Sei que posso, e cavo o poço com afinco. Cavado fundo, na profundidade da rabugice. É nele que atiro o troco dos outros desejos. Porque a mim me basta a pirraça do emburrecimento inexplicável. A cara fechada, de infeliz a meu modo.
Contudo, o poder de inquirir, investigar, examinar e pensar, de refletir e conceituar, tal capacidade é humana. Digo, do ser humano, da pessoa sapiens. Das mulheres e dos homens, na precisão do preciso.
Como já se faz hora, pergunto ao bichinho do goiaba que mora em mim, entre sinapses velhas de luta e outras no broto: a hora voa quando é da hora? Ele, iluminado, corre com a resposta.
Como a vida passa, é boa.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, 03 de janeiro de 2019.

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