O
bonde 18
Em 2018, vivi sem o amor de quem desvali.
Entendo. Mas a leitura me fez ir além, e compreender a empatia.
Certo do controle sobre o que lia, abusei
das bolhas sociais. Em janeiro, Débora Nascimento alertava:
Uma pesquisa realizada recentemente na
Universidade de Yale ilustra um pouco como isso funciona. Bebês com idade em
torno de um ano foram colocados diante de um teatro de marionetes. No pequeno
tablado, um boneco com a camisa vermelha tentava abrir uma caixa sem conseguir
e, então, surgia um outro, de camisa azul, que atrapalhava a tentativa. No
final, ambos eram oferecidos às crianças. Todas escolheram o "boneco
bonzinho", o da camisa vermelha. Mas, depois, o teste mostrava o boneco
azul comendo uma papinha que elas também comiam. Então, diante dessa nova
informação, as crianças preferiam o "malvado". Agora havia um gosto
em comum, uma afinidade entre eles.
E para as mulheres que rebatem quando os
assediadores são denunciados, eu digo: isso não é sobre você, vai ver você não
faz parte do padrão. Pense por um minuto que o padrão dele possa ser o
seguinte: as meninas do primeiro período, bolsistas empolgadas por fazer um dos
cursos de cinema mais caros do país, jovens de periferia com uma trajetória
parecida com a do professor, de quem ele pode se aproximar com a desculpa de
ajudar a realizar seu sonho de cineasta, diretora, roteirista, num mercado tão
escroto e fechado em que você só entra se tiver indicação.
E, sim, nem todo homem é mentiroso, há
os que acobertam as mentiras, há os que apoiam as mentiras e há os que se calam
diante delas.
E você assiste à facada quase ao vivo, e
se controla para não desejar a morte do pobre do ser humano. E você vê o sujeito
morfinado recontar, na UTI, o milagre que fez de um misógino homofóbico racista
do baixo clero um mito da classe média escolarizada que tem pânico da
Venezuela. E você pensa que se danou, porque, depois do atentado, vai ser
difícil roubar-lhe a aura de Lázaro ressuscitado.
E você ama Ary Barroso, e canta com seu
filho o "Brasil do meu amor, terra de nosso Senhor", e tenta dizer
que aqui é bom, mas não consegue. E você olha a lua cheia, iluminando os
barracos da Rocinha, e tem vontade de gritar.
Passou o 19?
Felicidade! Tenho tempo, infelicidade.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, 27 de dezembro de 2018.
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