quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

O bonde 18


O bonde 18

Em 2018, vivi sem o amor de quem desvali. Entendo. Mas a leitura me fez ir além, e compreender a empatia.
Certo do controle sobre o que lia, abusei das bolhas sociais. Em janeiro, Débora Nascimento alertava:
Uma pesquisa realizada recentemente na Universidade de Yale ilustra um pouco como isso funciona. Bebês com idade em torno de um ano foram colocados diante de um teatro de marionetes. No pequeno tablado, um boneco com a camisa vermelha tentava abrir uma caixa sem conseguir e, então, surgia um outro, de camisa azul, que atrapalhava a tentativa. No final, ambos eram oferecidos às crianças. Todas escolheram o "boneco bonzinho", o da camisa vermelha. Mas, depois, o teste mostrava o boneco azul comendo uma papinha que elas também comiam. Então, diante dessa nova informação, as crianças preferiam o "malvado". Agora havia um gosto em comum, uma afinidade entre eles.
Ana Paula Lisboa, em julho, sobre os malvados:
E para as mulheres que rebatem quando os assediadores são denunciados, eu digo: isso não é sobre você, vai ver você não faz parte do padrão. Pense por um minuto que o padrão dele possa ser o seguinte: as meninas do primeiro período, bolsistas empolgadas por fazer um dos cursos de cinema mais caros do país, jovens de periferia com uma trajetória parecida com a do professor, de quem ele pode se aproximar com a desculpa de ajudar a realizar seu sonho de cineasta, diretora, roteirista, num mercado tão escroto e fechado em que você só entra se tiver indicação.
E, sim, nem todo homem é mentiroso, há os que acobertam as mentiras, há os que apoiam as mentiras e há os que se calam diante delas.
Em setembro, Fernanda Torres retratou um Brasil:
E você assiste à facada quase ao vivo, e se controla para não desejar a morte do pobre do ser humano. E você vê o sujeito morfinado recontar, na UTI, o milagre que fez de um misógino homofóbico racista do baixo clero um mito da classe média escolarizada que tem pânico da Venezuela. E você pensa que se danou, porque, depois do atentado, vai ser difícil roubar-lhe a aura de Lázaro ressuscitado.
E você ama Ary Barroso, e canta com seu filho o "Brasil do meu amor, terra de nosso Senhor", e tenta dizer que aqui é bom, mas não consegue. E você olha a lua cheia, iluminando os barracos da Rocinha, e tem vontade de gritar.
Passou o 19?
Felicidade! Tenho tempo, infelicidade.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, 27 de dezembro de 2018.

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