domingo, 23 de dezembro de 2018

A criança de Omelas


A criança de Omelas

Com as Festas de fim de ano já baforando seu cálido hálito, antecipei as compras dos itens indispensáveis à vida humana. Sem refrigerante, sem panetone. Nem pude comprar nozes e castanhas por conta de uma dieta compulsória, rica em frutas, legumes e quitutes integrais. À flor da pele, inapelavelmente, aprendi que o corpo em ordem gesta pedras vesiculares.
A propósito, interpelado por uma estranha no mercado, dou ao desconforto o sorriso protocolar de quem errou o ansiolítico. A mulher, tão perspicaz, pede-me o preço de castanhas, nozes e panetone. Sem lhe dar resposta alguma, cada produto de sua cesta merece comentário.
Se o preço da convivência é o sorriso paciente, a paisagem lunar de minha expressão não foi lida, azar o meu. As minhas reflexões naufragaram na saliva engolida a seco.
Frustrado, já que aquilo não iria parar, passei a ouvi-la. E a comentarista econômica estava convicta do seu papel. Daí que reprovava o abuso, escarnecia da inflação e inventava a minha concordância, silenciosamente pudica.
Não sou um curioso inveterado, doido por histórias alheias. Levo a vida a escrever, por isso não fico escutando o que falam e, perplexo, leio o que os praticantes da escrita saem por aí a dizer que fazem da audição o sonar do caráter humano.
Sem que me azedem o almoço, que vou ao supermercado depois de anestesiar a fome dos olhos, prefiro meus fantasmas sem entusiasmo, mímicos sem pantomima, e calados.
Talvez por conta da acidez inesperada do humor, peguei-me a anotar de cabeça as vírgulas ululantes da distinta oradora.
Leitora sobressaltada e leitor horrorizado, em alguns lugares ainda há fila de pessoas. Acreditem em mim, nem só de emojis brotam as filas.
Em tal estado de espírito, e com a memória desafiada a não deixar romper o fio, lutei para não cometer um poliedro verbal como arremedo de crônica.
No fundo, eu deveria admitir que o texto está sendo escrito com o sentido e a coesão que a vida finge ter, para, assim, ir trazendo-me pela mão até o porto seguro do esquecimento.
Ou seja, hei de vencer-me, esquecendo nas grutas abissais da mente o que de fato preciso lembrar para que o texto surja.
Meu corpo pensa, e vivo a senti-lo pensando. Com engenho débil, construí este diamante cuja opacidade aprisiona a luz.
À falta da convicção dos imbecis, perdoem-me.
Sem mais, Feliz Natal.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 23 de dezembro de 2018.

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