domingo, 9 de dezembro de 2018

Ligando os pontos


Ligando os pontos

Quando penso que viverei em paz, resolvendo a meu modo os problemas de cada dia, sustentando como posso a calmaria do estômago, querendo uns momentos de prazer...
Daí os homoafetivos me pedem para lutar com eles contra o preconceito. Daí os homofóbicos me insultam porque escolhi o lado errado. Daí os cristãos me solicitam uma resposta quanto à libertinagem com o verdadeiro Deus. Daí os não-cristãos me patrulham porque não defendo a diversidade religiosa. Daí os esquerdistas me questionam a solidariedade com os excluídos. Daí os bolsonaristas me desprezam por não assinar por armas em legítima defesa. Daí os mais românticos cantam seu bolero, sonhando-me em uníssono. Daí os funkeiros botam o corpo na batida, julgando-me um frangote por não entrar na dança. Daí os maconheiros surfam para longe da caretice, apontando-me a praia para cair fora. Daí os de terno batem a rotina no cartão, insistindo comigo que o barato sai caro. Daí o macaquinho que não fala quer me indicar, à luz das ideias, como devo comer o pãozinho no café matinal; o que não vê deseja muito que eu não enrole a língua ao ler o Hipérion no original; o macaquinho que não ouve anseia por um OK monumental, petrificando-me feito estátua, mas nem o nosso Cristo me seduz à prostração. Daí tenho a pulga atrás da orelha querendo pular na sopa. Daí amigos exigem que brinde em nome da liberdade de reunião. Daí amigas reclamam da desigualdade de oportunidades. Daí há quem me diga o que não posso dizer, ainda que pense por mim que posso dizer o que eu quero. Daí há quem fale por mim o que não quero falar, adivinhando o que eu quero. Daí o suco gástrico ferve, a cabeça passa a doer, a boca resseca, o olho embaça e a mão que afaga recusa dar tapinhas nas costas.
E se eu fumasse, tragaria meu cigarrinho sossegadamente, deliciosamente, sem intermediários, porta-vozes, usurpadores, sem os tiranos de sorriso dócil a me censurar o vício, sem as tiranas de afetos profundos a me castrar a fantasia, sem esses sermões nas coronárias, sem as ladainhas na jugular. E daí eu bateria as cinzas ao acaso.
Mas, para me sentir em casa, trato de liberar os fantasmas. Sento no sofá, estico as pernas. Abro Ai de ti, Copacabana.
Como não sou uma ilha nem tiro onda, não resisto a fazer minhas as palavras do Velho Braga:
─ O pessoal anda muito desorientado.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, 09 de dezembro de 2018.

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