terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Apenas mais um ranzinza


Apenas mais um ranzinza

Depois do meu balanceado almoço dominical, vou saltitante pelos canais da TV. Quando o tédio da digitação no controle já pespegava em mim o cansaço de nenhuma atração, aparece, me querendo atraído, o Paul Simon das adolescências.
No plural, porque a minha não foi a previsível transição para o rapaz, na qual os hormônios salpicavam o infante com acnes, espinhas e as liliputianas ilhas de pelos.
E a voz instável, típica de adolescente?
Eu mesmo caçoava da minha voz, porque, sem aviso, nos agudos da criança pipocavam os graves do adulto. E na Terra Preta da minha infância, nos anos setenta do século passado, eu andava gaiteando ─ como se as cordas vocais parodiassem um gaitista asmático.
Pela timidez míope adornada por uns óculos redondos de armação de tartaruga, imitação barata feita de plástico, ganhei o mundo com o futebol de botão, cujas partidas com meu irmão sacudiam a mesa da cozinha, nosso campo neutro.
Embora me coubesse, por minha iniciativa, preparar a Copa fraternal, preso à superfície colorida da escala do mapa-múndi, optava por naufragar a centímetros da percepção geopolítica da Ásia ao fingir cegueira para Paquistão e China, que jogavam duro com a Índia e o Vietnã.
Nesses dias dançantes, o adolescente autêntico tinha de ter a rebeldia juvenil, daquelas que mistura o Pink Floyd do Porco, o Raul Seixas da Mosca e o Prestes que os governos do Brasil adoravam abominar. Mas, para que o caldo entornasse, tinha por luta contrariar os coroas, uns velhacos tão somente porque mais velhos do que a minha geração.
Como transversais não são paralelas, volto ao topo.
As câmeras que registraram a apresentação do ex-parceiro do Garfunkel, no Hyde Park da Londres de 2012, pegavam um público certinho, que cantava canção depois de canção sem errar a letra e nem deixar as palmas quietas nas mãos.
Era até bacana que, mesmo no ombro a ombro pela visão do palco, a música pudesse juntar setentões como o cantautor; adultos maduros; maduros jovens; estudantes; e, por amor aos fatos, gente sem residência e um pence no bolso.
E as pessoas ali, todas embaladas pela ginga deste homem, branco, filho de professor universitário; um boa-pinta da Costa Leste estadunidense.
Sons do silêncio?
Alô, chapa, comigo suado, de olho no aquecimento global e nas migrações de haitianos, bolivianos, de venezuelanas...

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, 25 de dezembro de 2018.

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