domingo, 6 de janeiro de 2019

Ano Bom


Ano Bom

Com o olhar indiscreto de pessoa responsável, nas palavras de Paulo Mendes Campos, abro uma janela sem fio, a tela do computador. Antes mesmo de tomar café e sair para enfrentar os humores do mundo envergando o sorriso de idiota convicto, o ano começa comigo na leitura diária dos jornais. Há décadas, faço isso. Com a disposição de quem se deixa espantar pelo que as folhas trazem, de novo ou outra vez. O que mudou foi a leitura mais higiênica, pois a tinta já não suja os meus dedos. O fígado, contudo, permanece sujeito à impotência para suportar descargas por demais tacanhas e dogmáticas.
Enfim, começa o ano. De perspectivas várias, tão sedutoras. Alimento para esperanças. Uma delas, atávica até, leva muitas pessoas, dos mais variados espectros, a depositar na mudança do calendário o que o Tempo precisa para andar comportado, previsível, humano como nós. A folhinha, de acordo com quem acredita nisso, é o espelho do retorno do eterno que vive em cada um de nós.
Dia primeiro? Sigo na caminhada. De olho na realidade que não bebe espumante. À direita, descalça na areia, a menina deslizou em fezes nada míticas. À esquerda, o garoto precisou fugir da asa delta que pousou como se um urubu enamorado lhe tivesse prometido amores.
As ondas, indiferentes aos pedidos, trazem dejetos que não afundaram bem longe da costa. Talvez haja a mão providencial de Gaia, preventiva ao desovar as imundícies. Sujeiras que nós outros, seres humanos, fabricamos e descartamos sem a tal da consciência ecológica que juramos promover.
Nem o Netuno embarca nas promessas. O clima não espera que apadrinhem as ações urgentes. E há quem jogue na nossa cara o pastelão do deboche. Para 2020, eles já têm o pedido: o minuto continue a ter 60 segundos, a hora 60 minutos e o dia 24 horas. Assim no ano passado, assim no próximo. Para eles, pedir é fato. Então, as pessoas parem de se preocupar à toa. Há tanto a se fazer. Até clepsidras.
Paciência?
A saliva azeda. O estômago não digere a leitura do que não engulo.
A primeira medida econômica do governo: o salário mínimo de R$ 954,00 foi para R$ 998,00. Os ouvidos do INPC e as mãos do PIB perderam R$ 8,00.
Com tanta queimada, desprezar o Executivo cioso das leis e a Câmara que incinera a responsabilidade fiscal é cortar lenha para a fogueira.
Resta a honestidade que o pudor permite: ave 2023!

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 06 de janeiro de 2019.

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