terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Agora hoje


Agora hoje

Há mais de meio século venho colhendo abóboras, isso me fez compreender que, de uma hora para outra, expressões vêm infestar a comunicação. Porém não o fazem como abobrinhas, que são fonte de nutrientes necessários ao bom funcionamento do corpo de quem não é alérgico a elas.
Faço referência a abóboras, abobrinhas e, logo acrescento, a abotoaduras, por causa de um sacerdote da Paróquia Nossa Senhora das Dores de Ibiúna. Como quem não perderia tempo em adaptar-se à vulgaridade da nossa casualidade nos trajes e nos costumes, era missionário, e veio da China.
Se por um segundo, o interlocutor desavisado via a capa do janota, era no instante seguinte, entretanto, que o pragmatismo ecumênico do cura exibia as suas páginas mais tolerantes, de vigário consciente do trabalho a que estava destinado a fazer no Brasil.
Sem informações, seria por minha conta a garantia de que o clérigo viera do país de Confúcio para algum rincão mil vezes mais pecador do que a minha cidade natal. Sempre tive para mim que o sol tupinambá já tinha feito a gentileza de assentar a batina à vênia capital do roliço orientador, deveras espiritual.
Espirituoso, desafiando-nos com o xadrez, o padre trazia os coroinhas para a casa paroquial e, então, conversava conosco sobre virtudes e pecados. Embora estivesse atento à formação de almas, o nosso Buda bonachão era tão sedutor porque agia sem a ladainha pétrea de um colonizador.
Procedimento bem distante daquele Fernando Pessoa que, crítico de certos preceitos do cristianismo, assinava, ortônimo, que era lógico e legítimo o europeu civilizado sair mundo afora a escravizar e obrigar “povos selvagens” a adotar elementos de civilização, todavia “sem o degenerado conceito igualitário, com que o cristianismo envenenou os nossos conceitos sociais.
Valha-me, Valium.
Alhos com bugalhos?
Perdoe-me a metafísica, o corpo impõe limites. Na memória, ao pé da missa, não afogo o enxadrista e o menino. Esse que é parecido comigo, semelhante àquele que poderia ter vindo. Na alegria, não fosse este que o percebe e nutre. Inconfessável, e outro.
O circuito do tempo é curto.
Pelo pouco que me sei: celebro o instante ao cuidar do dia. Meu tempo é hoje, Paulinho da Viola. Meu tempo é agora, Mãe Stella de Oxóssi.
Já hoje, o presente do instante? Logo agora, o instante do momento? O momento do presente: agora hoje.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, 01 de janeiro de 2019.

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