Tempo
dos infernos
A impassibilidade das placas ensina-me
que há portas pelas quais não se entra bem como portas que não servem de saída.
E de repente, vendo TV, lendo Jonathan Swift, contando gatos no escuro ou à
espera da dor sem dentista... Impiedosamente, vem. Que sensação horrível, a de
estar preso em mim, forçado a vivenciá-la do começo ao fim. São tempestades
nervosas. E muitos as conhecem pelo singelo nome de chilique. Tenho-o. E como não
fujo da metafísica do conflito, aumento o melodrama.
A coisa diz meu nome num corisco?
Se tem porta aberta, corro fechá-la. Não
sou besta, passo a chave. Fechadura é fabricada para ter utilidade, tenha. Se
bem que a brisa da tarde e os cantos da passarinhada convidam a paranoias menores.
Mas com a prevenção não se brinca.
Fujo de mim de jornal em punho. Pelo
menos, acredito.
Para entender o Brasil dos meus dias,
leio o que tomo por importante. É imprescindível a leitura dos fatos. Para saber
das realidades, informam-me as notícias.
O auxílio-reclusão é pago a menos de
8% dos presidiários, pessoas cujo salário é inferior a R$ 1.300,00, gente que, pelo
menos por 24 meses, deve ter contribuído com a Previdência. Ou seja, não é
qualquer preso que tem a ajuda.
Aliás, são os seus familiares que
recebem, desde que haja a comprovação de que o preso é arrimo. Por ser em cota única, quanto maior o número de dependentes, menor o dinheiro por pessoa.
Detalhe. O valor do benefício é
proporcional ao que foi pago pelo contribuinte no período superior ou igual ao tempo
que a lei determina.
Querem o fim da apregoada bolsa-bandido, como se fosse um prêmio a
todo criminoso que está na cadeia. Querem a mão do benefício invertida. Em vez
de a família do preso receber, tomam por justo que a família da vítima fatal
receba a ajuda ou, em caso de lesão que incapacite, a vítima seja aposentada
por invalidez. Não é preciso acabar com a ajuda-reclusão, pois a lei em vigor
diz que tanto a vítima como a sua família têm direito ao benefício, desde que a
vítima tenha sido ou seja contribuinte da Previdência Social.
Direito não é privilégio. E a Terra
não para. Certo?
Como o ano legislativo não acabou, na
sessão da Câmara de quinta foi lembrado o AI-5. Para os 20 cartazes com
retratos das vítimas havia 11 deputados.
Cuspindo fogo, fecho o jornal.
Esquento tanto, o Niño nem precisa lufar o inferno.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 16 de dezembro de
2018.
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