domingo, 30 de dezembro de 2018

A fumaça dos dias


A fumaça dos dias

Semana passada, em crônica que trata da relação de pai e filho, o escritor António Lobo Antunes me encantou ao afirmar, sobre a presença sonora do seu progenitor, que “nunca havia frio ao pé da sua voz”. Na minha bonomia, tomo o que se me apresenta de uma beleza imediata sem o estalar dos dedos da mente. Por minhas deficiências cognitivas, fui mastigando esta imagem, mas o meu tanto para atinar com o fogo foi preciso. E recordei uma voz antiga, sargaço para a represa dos meus escombros, que sou castor com vocação para ruínas e outros rastros não apagáveis.
Trazida à consciência, vindo das chamas insondáveis, a voz do demônio familiar, tão íntimo das gentes lá de casa. Bastava abrir a boca só para soltar a fumaça do charuto, sem o rococó dos anéis, prodígio que muito me maravilhava, que o grilo me sussurrava um tipo estranho de aflição.
Era tal o desassossego que até o meu kichute para todas as várzeas parecia menor.
Com o calo certo para doer meu sofrimento onde menos era de se esperar, o mefistofélico ancestral punha em alvoroço as minhas sinapses, tão pacatas de coração.
Posto a nu, o universo desvelado, revelado por uma voz?
Alguns, sorrindo, falariam que o ser resiste à falta da carne; outros, budistas de pouca espiritualidade, tirariam os sete véus de Maya.
Explicação simples sempre é o óbvio do argumento?
Acaso tivesse conhecido o pai de meu pai, o avô morto doze anos antes, pois os átomos moveram-se para este corpo em 1963.
Em outras palavras, sob a pele que me enquadra, não havia múmia a ser devolvida aos crentes de Yangchun. Fulcral, no entanto, era que em mim não tinha razão o autóctone dessa memória, logicamente adventícia.
Isso causa estranheza até em quem acha normal criança ter imaginação criativa o bastante para dar corpo à voz ancestral a partir de relatos que não ouviu.
Se não sei a quem moldei o timbre e, mais ainda, como dei a ele o fulgor de um deus, baforador dos puros da Bahia, como quem ouve a consciência turbada por um mistério elementar, terei eu escutado os meus diabinhos?
Para pelejar pelos seres abissais deste meu cérebro varonil, só mesmo em palavras, e todas tecidas pelos mil e um talentos de um Olavo, o Bilac, nosso bardo no vigor centenário.
Com as insolências da vida, sofro como posso.
Ô Seu António, em caso de memória sem espaço, um clique é fósforo.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 30 de dezembro de 2018.

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