domingo, 13 de janeiro de 2019

O décimo terceiro dia


O décimo terceiro dia

O ano que me cuide do jeito certo, com mel na torradinha e suspiros que sublimam na língua. Se me querem provar, que a sua inexperiência, meses, seja inédita. Ou, lá por novembro, à saída do calendário, irão lamentar a imprudência. E do que sou capaz, comigo afiado como uma navalha de barbeiro?
Ao sul de minhas preces, há uma frota de caravelas à linha d’água. Não me erradicarão do português. Abrasar-me-ão, têm a minha palavra, mas não passarão por mim pelo que falo.
Curtido na pele de bom brasileiro do bem, verei a mil, vinte, trinta mil a pedir, implorar, suplicar. Por alívio, pagarei para ver a picanha na grelha; desafiarei o Guilherme Tell que mofa ao lado; e o sol, o mesmo a cada aurora, não me desmentirá.
A mão que acolhe é a mesma que acaricia, soca e esmurra. Faço-o desde mim, pois dou ouvido ao que me recomendam os pacatos de coração. Porque similares, meus semelhantes.
Lobo civilizado pelo convívio, solto uns latidos de chihuahua. E corro atrás do que se mexe. Sem freio na boca, sem luz para o entendimento de que sombra tem vida própria e não para. A língua está cerrada, os dentes também.
Como um morcego dentro de casa, passo a soltar a minha voz catando milho no teclado. Anoto que rejeito o convite para a caminhada ecologicamente educativa, pois a nanotecnologia que a minha saúde precisa está em Harvard. E à contribuição voluntária nego os meus dados bancários, embora as crianças de Darfur mereçam comer e ser medicadas. Quase ponho meu endereço eletrônico num formulário daquela livraria que anda mal das pernas, mas não, prefiro ir folhear as páginas que nem pensei que leria.
Digo que não porto nem portarei um automóvel movido a GPS, e, de corpo presente, pelejarei por fatos justos mesmo a quem os queira desnudar. A eles, a você e a mim, digo o que a grita, no fundo, não quer calado em nós: que o mundo mude.
Assombrados com Ícaro, mais nos diverte o fracasso. Cegos por nos crermos menos covardes, damos guarida à soberba ao apupá-lo. Esquecemos, porém, que ele voou tão bem que usou as asinhas para peitar o Sol. Só que ninguém suporta afronta, o Rei mergulha o grego no mediterrâneo da sua altivez. Agora, o mortal é Mito.
Então, para revelar-se texto que prefere dobrar-se sobre si a ser simples, a crônica deve perder a aura de profecia.
Que este seja outro décimo terceiro dia.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 13 de janeiro de 2019.


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