terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Sábado


Sábado

Diante do Romeu e Julieta que os noticiários me resgataram para a infância, sufoco. Reconheço a canção. Desconcertado, sinto a perplexidade. Há um dedo de covardia e uma pitada de repulsa. Lembro amarguras que vivi, e ainda me intoxicam.
Perplexo? Sou presa involuntária da ansiedade que toma conta das aflições e me conduz de olhos abertos por onde nem vejo. Neste apagão, emerge-me da memória o que fiz. O surto é vigoroso, mas não é pânico.
Nos últimos anos, de 2013 para cá, o bicho tem mostrado as garras e roçado as presas na minha carne despreparada para o abate. Por isso, ando um tanto angustiado, meio depressivo, querendo sair voando sem vassoura.
Mas a Terra é azul.
A vida, esta trama à vista de todos, cega todo mundo. De tal sorte que dor, sofrimento, medo e angústia, alegria e felicidade, empatia e simpatia acabam por tornar invisível essa realidade que temos bem diante do nariz: nós mesmos.
Confesso um pragmatismo vacilante, incorporo-o. Sem ele, a rua de Paris em que os carros ardem haveria de tornar-se a paralela à rua onde vivo, moro e estou domiciliado. Mas não, o fogo de Paris não queima as pestanas; meu sono, sim.
Tolero em mim a existência melancólica? À insônia da ânsia escapam-me indiscrições.
Atravesso a madrugada, certo de que na calçada do outro lado o mendigo que me observou saindo do banco vai seguir lúcido. Àquele que traz nas roupas a limpeza, todavia, falta-lhe a dignidade do caráter. Esta pessoa opaca e vazia: eu.
A aurora vem. Não peço por ousadia, coragem e intrepidez. Isca da morte a querer fugir do destino, caço no ar a panaceia, mas a desculpa me escapa. Sei, a dignidade é para os fortes.
Não durmo, pois todo paraíso me põe a sós comigo.
Aí, gostaria de ter visto o Deus das Goiabeiras descer para o bar. Amigo do dono, do cachorro famélico e da moça da foto, ele beberia três copos de tubaína Vichi sem fazer careta. A sua mão deixaria de tremer. A sua barriga voltaria a trabalhar. Sem juízo, a vida seria sempre domingo. O Guarani X Treze de Maio dos melhores dias.
Adeus tubaína. Tchau goiabeiras.
Minha miséria não conhece mais os domingos dessa Ibiúna.
O suor do meu rosto não esgota, cansa. As rugas comem os segundos, as horas, semanas, décadas. Escuto a minha vida.
Se tem uma saída?
No xeque-mate sem bispo, sigo sendo a vítima na imolação que executo.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 18 de dezembro de 2018.






Nenhum comentário:

Postar um comentário