quinta-feira, 29 de junho de 2023

Prosaico aperitivo

 

Prosaico aperitivo

 

Domingo é para sentar sossegado, balançar na varanda, bebericar um suco, ouvir o canto dos passarinhos, sintonizar-se com a brisa que farfalha folhas. Domingo é para ignorar latidos, miados e ramerrames. Domingo é para caminhar pela cidade sem que seja preciso ir a algum lugar. Domingo é bom para zanzar até que o corpo diga o momento de voltar. Domingo é dia de errar sem ter perdido a melhor parte. Domingo é esquecer-se de olhos fechados, de suco à mão, no doce balanço de quem não escolhe, apenas intui que o melhor a fazer é não fazer nada. Contudo, que não seja de segunda o que for do domingo.

O telefone toca; o Luisinho diz que está vindo.

Chegando com uma travessa de maionese, Dona Cremilda diz que o Luisinho avisou que o almoço vai ser na minha casa.

Nem temos tempo de comentar o tempo, nisso quem entra em cena é o Aristeu, convidado por dona Cremilda, pra quem almoço sem violão é macarronada sem parmesão, passável porque insossa.

À espera do Luisinho, vamos pra cozinha.

Pitando esquecido do cigarrinho, Aristeu vai dedilhando o que acha mais apropriado a este domingo sem latidos, miados e motocicletas de escapamento estrepitoso.

Dá-nos Noel, Cartola, Caymmi e Jobim.

ꟷ Cadê a Dolores Duran?

E Aristeu capricha: Por causa de você e Estrada do Sol.

Dona Cremilda veste um dos aventais que pouco uso. Ao vê-lo fora do armário, reconheço a graça de tê-lo comprado. Como senhorzinho careca, creio que fica bem em mim a precisão da Mafalda: “Não estou descabelada, meus cabelos é que têm liberdade de expressão”.

Luisinho chega, põe na mesa o frango assado e, mesmo que esteja babando na rede, que pronto o chamem pra fazer a caipirinha.

Dona Cremilda, Aristeu e eu estamos de acordo: o preço de quase tudo está alto, bem alto; o dragão que achávamos extinto está de volta, nem dá mais pra fazer o mercado com menos de cem.

ꟷ Coitado de quem precisa viver de salário-mínimo.

ꟷ Tem que fazer mágica.

ꟷ Mágica é truque; no truque, o mais fraco não tem chance.

ꟷ Quando a chance aparece, o pobre bica pra longe.

ꟷ Pobre não desperdiça nem faz pouco caso, isso é coisa de quem bate o escanteio e corre cabecear.

ꟷ Cadê o centroavante matador que não amarele na área?

ꟷ Pois é, cadê?

ꟷ Gente, domingo fica ótimo se a gente não se lembra da feira, dos políticos e dos boletos de farmácia e padaria.

ꟷ Bom seria a gente não surtar com boataria.

ꟷ Não perco um minuto com minuta do golpe.

ꟷ Pois eu viro num gole quando a cachacinha é de primeira ꟷ caído da rede, com jeito de quem poderia morgar a tarde inteirinha, adorando a carapuça de palhaço, o Luisinho entra na roda.

ꟷ Política não é apenas palhaçada, Luisinho.

ꟷ Dona Cremilda, nem circo é pra amador.

Sem prever esse presente, vamos combinar!, o franguinho assado, a maionese caseira, o papo-furado, A Noite do Meu Bem, putisgrila!, esse nosso almoço promete ser mesmo memorável.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 29 de junho de 2023.

terça-feira, 27 de junho de 2023

Sem novidade

 

Sem novidade

 

Que eu vá acertar o valor do serviço feito, ligam do escritório. Tudo bem, irei depois do almoço. Ainda que eu lembre o combinado, cobram a mais. Por quê? Porque não enviei os recibos médicos, odontológicos e psiquiátricos. Aviso que passarei no banco, informo que pagarei em dinheiro, estou muito agradecido por justificarem o valor majorado que terei de pagar. O que não escapa do pensamento é um comentário que a mim mesmo me rebaixaria, mas, educados, despedimo-nos.

Contrariam-me, silenciam-me.

Ainda que ranja os dentes e mordisque os lábios, o emudecimento é recurso a quem se exalta com impertinências. Se é para ter mais uma discussão estúpida, agastar-se é uma das fraquezas menores.

Posto que ajo sabendo que não tenho poder bastante que faça valer o que penso, desejo, o que espero que aceitem como verdadeiramente justa a razão sobre o que esteja em discussão, eu dou como irracional quem ousa me contrariar.

Por não depreciar o bem que uma afronta quase sempre produz em mim, valorizo o que evidencia meu desajuste momentâneo, o riso.

Não sou o mesmo de quando saí de casa, porque, a quatro passos da porta que chaveei, elevaram a pressão:

ꟷ Quer comprar bombom?

Compraria se gostasse ou se estivesse disposto a ajudar.

ꟷ Tenha coração, é por uma boa causa.

Ainda que falte depois, é fraterno gastar sem medir o quanto?

Eu até tendia à colaboração espontânea, mas a insistência chateou tanto que não dei bola para a caixinha a cinco reais, um terço do preço cobrado em supermercado.

Não sou a pessoa que eu era antes de assistir ao noticiário, menos ainda depois dessa aporrinhação à saída da minha casa.

ꟷ Quer comprar capinha de celular?

Abordaram-me à entrada do contador, mas a minha situação era a mesmíssima de quando eu rejeitara a pechincha dos bombons.

ꟷ Não tenho celular.

ꟷ Tá tirando comigo, é?

ꟷ É verdade. Eu não tenho celular desde que fui assaltado.

ꟷ Roubaram, é?

ꟷ Se não tivessem levado meu relógio, diria que me assaltaram faz quinze minutos.

ꟷ Pensa que sou trouxa pra entrar nessa roubada?

Com a cabeça no travesseiro, quieto no quarto escuro, no momento de minimizar aflições, foi quando percebi que estava certo de que nada havia de errado comigo.

Sorrindo sozinho, meio dormindo, não estranhei a naturalidade com que rememorei o que eu ouvi na farmácia:

ꟷ Vovô Vivaldi, velhice pega ou só dá em velho?

Como Vovô Vivaldi nunca foi de varejar vivaldinos:

ꟷ Nelsinho, meu querido, seja um bom netinho e compre capinhas, bombons e bilhetes de loteria quando tiver o seu dinheiro.

Com a vivacidade dos dadivosos, virei sorrir, pois Vovô Vivaldi não era mais um mão-de-vaca, era mesmo um mestre.

Vovô Vivaldi, se nos carnavais da vida entrasse nas vestes de pirata da perna de pau, não me ratificaria nesse olho de vidro que não revela as maravilhas encruadas em quase tudo que a rua tem oferecido.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 27 de junho de 2023.

domingo, 25 de junho de 2023

O garboso Joaquim

 

O garboso Joaquim

 

Cientistas que se deslumbram com o admirável da natureza, ainda que compusessem redondilhas sobre o quão maravilhoso é entender-se consigo, porquanto pessoa sob o fluxo de desencantado lirismo que o cosmos carreia, por sentirem na mente a serenidade das marés, tais cientistas dispensam-se de explicar o poderio merencório da lua.

Pescadores, por sua vez, nem jogam minhoca fora nem buscam os porquês de certos cardumes pulularem de fase a outra, eles se dão por satisfeitos porque, ainda que manuseiem uma solitária vara, o coração, são amadores natos que amam o luar que os fisga.

Tarimbados, a turma da ciência e o pessoal do caniço não mordem a isca de quem torna difícil de acreditar em história contada como se o naturalmente maravilhoso fizesse verossímil a tilápia multiplicada entre o pigarro minguante e a cheia da tosse.

Todavia, os lunáticos confiam na auréola da lua, pois essa novidade sinaliza que o calor humano escapa da Terra mesmo nas madrugadas vazias, que o amor pode entusiasmar até mesmo as mentes distraídas, que o dragão de labaredas ceifadoras há milênios está de guarda pelo mais cavalheiro dos funâmbulos.

Corda bamba enamorada, por que se encanta a lua das eras?

Na rede do destino, o amor de Greta Garbo por Joaquim.

A atriz Greta por quem, Joaquim?

Cantam antiquíssimos alfarrábios que Joaquim nascera príncipe às margens do Ganges, mas, com obscuridades, um repentino sol brilhou às pessoas para que não pudessem mais cortejá-lo.

No lugar do adorável príncipe, embora passiva na suavidade da sua mansidão, viam a uma fera; ao paquiderme, temiam à besta o que eles não viam: transfigurada pela quimera, aquela alma desfortunada.

Joaquim, o príncipe, nesse elefante? Nesse, e neste.

Tal atração que o circo trouxe e expôs, subsumiu-se em cena.

Porque a natureza tem leis que os próprios legisladores hão de tê-las como suas, Joaquim ganhou o picadeiro, recebeu aplausos, causou arrepios, alvoroçou sensibilidades e magoou meninices, foi a fera que por ela houve rotundas paixões, tão abissais desejos.

Naquela noite de trovões e relâmpagos, no dia 24 de junho de 1947, no centro do Circo-Teatro Sonhos do Mundo, montado atrás da Matriz de São Francisco do Belo Monte, foi então que Greta Garbo parou de cantar Lili Marlene.

Frente a frente com Joaquim, o astro majestático que atendia dócil aos comandos de uma exibida amazona equilibrista, foi que a Esfinge Melancólica acabou petrificada.

Vendo-a terrificada, apaixonada pelo bicho de alma de príncipe, foi então que Marlene Dietrich, não a Cigana Feiticeira mas a pajem, tirou da ribalta a Greta alumbrada, outro Mito Mudo.

Quiçá possam contestar a patacoada, já que o bom pressentimento diz que emendar soneto ruim não faz melhor ao poeta mixuruca, tolere-se: o dito não passa de outra pérola extraordinária.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de junho de 2023.

quinta-feira, 22 de junho de 2023

Redemunho

 

Redemunho

 

O barulho veio de fora; fui ao quintal. Olhei que olhei; sem nada que assombrasse, dei meia-volta. Com a mão na maçaneta, o pé-de-vento varreu de minhas expectativas a inocência do curioso: era chuva o que vinha, era a entrada de outra frente fria, a que trazia chuva.

Ainda que o tempo contasse a ladainha de temporal anunciando-se por rajadas súbitas, nenhuma vaca passou por sobre casas e nenhuns namorados largaram dos beijos pro espanto de ter uma vaca mugindo alucinada em sobrevoo pelos telhados familiares.

Nas cercanias de jardins bem podados, dado o fim do mistério, que a ventania, natural, pressupunha que alguma coisa caíra pela sua força à passagem, folguei em beber vinho, esticar as pernas, não me escorar em almofadas: melhor, a leitura era-me oásis cativante.

Outra vez houve ruídos; dos vários seguidos, destacou-se um. Uma vez estrondoso, e grave, foi o que alarmou o pavor; tal acontecido deu-se dentro, e perto, foi algo diverso do rangido dos dentes.

O saci que vira em um cisco não haveria de ser quem testemunhasse a meu favor. Tornado corajoso, compreendi que eu mesmo era quem, pé ante pé, averiguaria a origem do ocorrido.

Pois então, mesmo cismado, lá fui eu.

E dei com gatos.

Vi a janela pela qual os dois entraram, corridos pela chuva. Lembrei-me do vidro espatifado que derrubara à tarde. A janela escancarada, porque já esvaecido o cheiro de álcool, fechei-a. Os cacos, no chão da despensa, que ali eles restassem pro dia seguinte. A dupla, ela correra para longe do meu alívio, que nenhum E.T. viera abrigar-se na mesma residência em que ambos nos encontrávamos, os bichanos assustados e eu aflito, porque me acutilavam intuições sobre o ouvido.

Minha mente não esquece, nem de repente, o que me atormenta.

Como não dormia, apelei aos barbitúricos; passava de uma da tarde quando fui acordado por uma sede danada.

Já que a luz me feria nas retinas, e para não dar na cara, pus óculos escuros de lentes espelhadas e fui ao bar.

E fui penhorado desse mantra: 1, 2, 3, fico melhor a cada vez.

E pedi o meu refri: 1, 2, 3, estou de bode, Marinês.

Me sentei e informaram-me que houve uma briga no bar; foram dois chapas conhecidos que vieram, beberam, jogaram dardo e resolveram que a desordem começaria por uma coisa qualquer, até banal.

Quem primeiro testemunhou o que houve na noite de ontem foi um barbudão com uma tatuagem de uma risonha caveira fumando charuto no bombado tríceps esquerdo.

Ele disse que a briga foi por causa de umas fotos que não deveriam estar no celular de quem as exibiu mesmo sabendo que a pancadaria começaria tão logo elas fossem vistas.

Outra testemunha refutou o barrigudo tatuado, porque, nesta outra versão, o quebra-quebra só ficou perigosamente descontrolado assim que o dono do bar reconheceu a filha de treze anos naquelas poses.

ꟷ 1, 2, 3, me exclua dessa, Marinês.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de junho de 2023.

terça-feira, 20 de junho de 2023

A fila anda

 

A fila anda

 

Estou com sono. Mas não vou, não quero, não posso dormir em pé, em público. Com todo mundo olhando, além de muito me desagradar, é patético. Além de patético, é ridículo babar com todo mundo olhando.

A caçoarem de mim, todos sorrindo, rindo, indo.

Só eu é que não vou. Eu cochilo, toscanejo, ronco e babo.

Estou com sono, mas não cochilarei sentado, seja num ônibus, seja esperando ser chamado pra consulta. Prefiro, preciso, quero muito não ser pego pelo sono, seja sentado, em pé ou em público.

Faz tempo, na adolescência, eu aprendi que bobear é acordar com o rosto pintado. Tornado um arremedo de palhaço, eu aprendi que não se deve cochilar em qualquer canto. Porque há lugares melhores para roncar sem medo, sem temer a fanfarrice alheia.

Tenho onde dormir, tenho casa.

O sofá já está moldado, a forma do meu corpo deformou-o, que nele me assento como mamão com açúcar. É mesmo uma delícia cochilar sem que me olhem, tenham pena, não queiram me acordar pra que eu dê vexame, babe, que, ao respirar, eu ronque feito leitoa.

Estou com sono, e cansado. Mas não o bastante, tanto que continuo sentado no sofá. Não estou esgotado, tanto que não me deito, não vou me deitar na cama.

Estou com sono, cansado, mas me decido: como não tem problema deitar no sofá, tirar uma pestana, eu pego um livro, o primeiro da pilha, e retorno à leitura pela página que está marcada.

Que coisa boa. A opção pela leitura mostra que escolhi bem: o sono me abandona a pouco e pouco, o cansaço se dissipa a cada página, o sofá não é mais um incômodo, tanto que penso, repenso, recompensa-me pensar e repensar: não perco tempo achando que sou um bobalhão que baba a qualquer tempo, a qualquer lado.

Tenho contas para pagar, irei pagá-las. Tenho coisas para comprar, comprá-las-ei. Quando não tenho tempo para ler, faço que sim.

Vou lendo, sigo lendo, tanto aprecio que eu nem vejo: estou comigo, suspenso em mim, viajo a céu aberto, vou a pé, vou em velocidade de santo de barro, ando devagar e caminho tranquilo, vou pisando o chão da rua, pisando a calçada, sentindo pedras, pedrinhas e pedregulhos; sem prestar conta do que sinto: estou no mundo, sou o mundo.

Já que muito me entretém, não largo do livro nem me quero livre do gosto que me dá a leitura: com espírito entretido, cativado de contente, entro na fila que tenho, posso, escolho eu para entrá-la.

Umedeço a ponta do indicador que nem percebo, na gostosura que é ir lendo sem que me aborreça do entorno.

Reflito aos sussurros; vou na vazão dos pensamentos que nem ligo que me ajuízem atormentado da ideia.

Muito empolgado, eu encaro que nem vejo quem encaro.

E o encarado diz que sou o seguinte a dar um passo adiante.

Como não adianta nada, que a fila ande o que tenha para andar, eu sigo lento, ajustado, sigo feliz: o próximo que vem atrás, que ele passe.

Dar lugar, pois sim? A vida é curta para não ser solidário.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 20 de junho de 2023.

domingo, 18 de junho de 2023

Assombroso

 

Assombroso

 

Se era pra perder dinheiro, aquele homem tinha sorte.

Devoto de Judas Tadeu, agradecia ao santo por cada real que tinha o privilégio de desperdiçar ou as suas orações seriam vazias. Para que os centavos fossem repostos, era preciso malbaratá-los.

Como não era de esperar a banda passar, corria atrás do prejuízo.

Porque assumiu a missão de tocar pessoalmente o lava-rápido, que funcionava, sem pausa para o almoço, das oito às cinco de sábados e domingos, contava que o boca a boca tornasse popular a sua empresa, que foi à falência somente um mês depois de aberta.

Tal lição foi aprendida: a vantagem de ser empregado é não ter que arrancar os cabelos quando falta grana para cobrir despesas, o patrão que se vire pra honrar o salário depois do mês trabalhado.

Embora falido, estava pronto pro vindouro sucesso.

Pra maior alegria pessoal na superação dos fracassos, pela dor de ter falhas, sem medo da felicidade coletiva que há de vir, saber-se qual legítimo agente para mudanças ꟷ tal tentação é tabu.

Precaver-se dos próprios impulsos?

Saber o que a vida ensina é estar consciente de que o aprendizado é mesmo para valer quando a pessoa não mente apenas para angariar vantagens a todo momento; só nas circunstâncias em que o saldo será positivo é que escamotear o negativo não será fingimento vão.

Motivar-se pro futuro? Espelhar-se em famigerados sortudos.

Como não era de lamuriar-se de trabalhar pra não passar fome, ele não jogaria fora a graninha contada porque há sempre uma lotérica na esquina mais próxima das suas ansiedades.

Sem bufunfa sobrando, só apostar quando a dobra é certa?

De fato, invejável é quem remedia a pobreza acertando no bicho, uma vez que é quem vai de ônibus e volta em carro elétrico.

Há de ver que ultimamente estava bem mais sensível aos anúncios de que bastava jogar para ganhar. Ora, o que ganhasse com facilidade, perderia facilmente. Quanto maior fosse a fortuna, maior o valor de se entregar ao fiasco.

Aceitou que o orientassem. Havia dezena, centena e milhar. Jogou cem, ganhou duzentos. Apostou no milhar, dobrou o mil apostado.

Que fazer com a experiência adquirida?

Quando menino, sonhara alto, sonhara com a Europa.

“Quero passar um mês jogando. Irei de cassino em cassino. E tudo o que ganhar, eu hei de perdê-lo”.

A Mega da Virada? Melhor evitá-la. E máquinas caça-níqueis? Isso.

Jogar nas maquininhas, isso o atraiu aos botecos mais fuleiros.

Jogar discretamente, isso o limitou a tirar mil reais por máquina.

Jogar anonimamente, pelos mil reais, isso o fez jogar apenas uma vez por semana em cada máquina.

Sem que ninguém jurasse, juntou um milhão de reais.

Pronto, foi à Europa. Ganhou aqui, ali, acolá. Chegou ao milhão de euros. Dobrou-o? Pois, ousou triplicá-lo.

Fez a festa na Europa toda? No Mediterrâneo.

Casou-se com a crazy crupiê do primeiro cruzeiro? Bingo!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de junho de 2023.

quinta-feira, 15 de junho de 2023

A descoberto

 

A descoberto

 

Doutora, sou-lhe grato por ajudar-me a compreender que é fácil ver a realidade do que está visível e que o problema está em fazer os olhos conhecerem o imprevisto da realidade.

Doutora, hoje eu entendo que consegui superar minhas dificuldades pra perceber que a vida é basicamente o que sinto. Doutora, reconheço que o conhecimento mais profundo eu aprendi a construí-lo com a sua mediação, pois sem a sua colaboração eu continuaria pensando que a realidade que existe é só a que eu vivo.

Doutora, a senhora fez-me ver que silêncios abrem feridas mas nem toda mágoa precisa ser cicatrizada. É fundamental as dores educarem a ir além do sentimentalismo, pois emocionante é revelar-se em carne viva no mundo descoberto além das opacidades.

Doutora, eu sei, mesmo quando estou à vontade com o que desejo, não estou livre do mundo. É autoengano achar conveniente perder-me da realidade em nome da paz espiritual que traz resignação.

Quando não ouço a revolta que trago em mim, doutora, escuto-me na indiferença que me faz insensível.

Como não quero acomodar-me à escuridão que entorpece, porque a apatia me afeiçoa a mim, gosto de andar na chuva.

Quando chove, saio dar uma volta, uma volta bem longa, demorada o bastante para que os meus olhos fiquem limpos ou identifiquem quais as impurezas do dia a dia que me irritam.

Porque não vejo de outro modo, acho degradante atrelar quem sou ao cidadão que não protela nada do que tenha que ser atendido, como se as demandas diárias fossem de fato barreiras a serem vencidas.

Desculpe, doutora, mas não acho abuso eu sentar molhado. Porque indigno é reforçar: se o pagamento garante a qualidade da sessão, tem também que afiançar alguns direitos não descritos.

Mas eu não vim dar pito; conto que a senhora responda: quem teme se conhecer não quer revelado nenhum monstro?

Doutora, tenho essa questão porque lembrei o que ocorreu faz vinte anos. Desde aquele acontecido na chuva, creio que o mundo, de forma veladamente engenhosa, é movido pelo insólito.

Acho que a ciência nem queira dar explicação. Não interessa, pois o sentido do evento eu entrevi com ajuda da senhora.

Naquela época eu estava desempregado, pois tinha parado de dar aula e duvidava dessa vocação que é escrever.

Nesse dia de chuva, o Camões puxou conversa. E falamos de igual. O Poeta sentia o que me fez errar debaixo do aguaceiro. Ele percebia o que fui fuçar na caçamba de lixo.

Saber quem era? Foi fácil, doutora, foi pelo tapa-olho.

O esquisitíssimo caolho, que enxerga 2013 em tudo o que esmiuça, quando me falou, comigo encharcado de brasilidade, ensopado desde o cocuruto, fez-me ver a figura borrada, enevoada pelo não vivido.

Minha senhora, embora eu não tenha nascido escritor, fissurado no mundo ainda não escrito, este clássico estrangeiro põe-me estimulado a perseverar no papo com a vida toda.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de junho de 2023.

terça-feira, 13 de junho de 2023

Fora do padrão

 

Fora do padrão

 

Aquele homem queria parar, mas não sabia como. Se soubesse ou se alguém o tivesse alertado, como não soube nem ninguém lhe gritou que prestasse atenção, deu-se aquele incidente.

Ele não sabia como parar e as pessoas preferiam ignorá-lo, sem ter a ajuda de quem fosse, então, aconteceu que ele caiu no buraco.

Com a queda, bateu a cabeça num cano e a vala encheu de água; só quando chegaram os primeiros trabalhadores, perto das sete, uma ambulância foi chamada.

Se tivessem reparado, veriam que sofria para andar. Se buscassem a raiz daquela dificuldade, saberiam das dores nos pés e em ambos os calcanhares.

Se lhe perguntassem, culparia o ácido úrico pela gota.

Apesar dos gastos para manter-se bêbado a maior parte do dia, não era amargurado nem se ressentia da vida. Aliás, não entendia o porquê de não beber uma taça de vinho à noite, achava bem esquisito.

Sofria. Se sofria tanto, por que o amor o mobilizava?

Ele só queria amar o próximo, mas sua barba grisalha tornava difícil que percebessem qual sua missão. As pessoas diziam que a barba era falsa, o ho ho ho era forçado e o barrigão era enchimento; no todo, não passava de um Papai Noel de araque.

Pra piorar, o cheiro de cachaça incomodava até mesmo as crianças. Não tinha jeito de ser amado pelo próximo, daí que o seu amor estava voltado pros vira-latas.

Não era amor exclusivo, mas fiel o bastante. Tanto era com os cães que nem precisava chamá-los, de manhã ou à tarde, para que viessem deitar perto. Gostavam de sol e baba, e tanto gostavam que a lambiam escorrida da boca.

Habituara-se a deitarem juntos.

O Papai Noel de araque sofria quando abraços e beijinhos lhe eram negados. Por doer-lhe tanto, bebia mais. O enjeitado queria ser amado, abraçado, que o beijassem. Só os cães lambiam sua boca.

Por falta de quem o aceitasse amável, o homem chamado de Papai Noel de araque não choramingava. O sono vinha logo. Não tinha de se sentir uma pessoa desprezada. Queria ter quem o amasse, o deixasse abraçar, beijá-lo, desejar-lhe o bem. Pena que não tinha.

O homem solitário tomara banho, jantara, desnudara-se, pegara no sono; sonhou, porém não ficava assuntando conexões entre um pardal abatido por pedrada e o frango assado dos domingos.

Todavia, tal homem não era de araque.

O barrigão era por causa dos pratões de comida. E bebendo o tanto que bebia, era inexplicável que encarasse aquelas montanhas.

A risada era esquisita porque pegara infecção. Durante uma chuva que não parava, com a enchente pelo peito, veio cobra ou ratazana do banhado. A picada coçava, a ferida sangrava. Deram injeções. Curado, mas com a voz rouca.

A barba era real. Não era para trabalhar na época natalina, era pra não virar monstro da cara rubra, pois o rosto ficava empipocado a cada vez que se barbeava.

O socorrista sequer sorriu ao escutá-lo:

ꟷ É errado amar quem não quer ser amado?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 13 de junho de 2023.

domingo, 11 de junho de 2023

Por amor aos fatos

 

Por amor aos fatos

 

Pastel de carne seca com garapa levam-me à feira quase que toda semana; falto quando chove, mas peço que entreguem em casa.

Sem relógio a confranger-me a bebê-la gelada; com pimentinha que me destempere a língua: desdenho da minha medíocre pessoa quando sucumbo achar deliciosa uma vida sem aditivos.

Dou vivas às pílulas que me condicionam mentalmente estável, um sujeito confiável, aperfeiçoado pela cachola quimicamente adulterada, outro homem comum que escolhe ter consciência das coisas boas que possa fazer; por óbvio, faço-as pro irrestrito bem geral.

Azeitado pros eixos do cotidiano, contem comigo para tagarelar que a concórdia humana é a boa nova que a qualquer momento haverá de ser comunicada via celular.

Creio que a rede é fonte incontornável pra quem espontaneamente aumenta a confusão debaixo desse céu candidamente anil.

Não duvido que preciso estar em sintonia com medos e alegrias da época em que vivo ou, na ignorância de como ajo, estarei feito ameba, sincronizado por inércia às petulâncias do mundo.

Entre fazer o bem por escolha própria e ser feliz sob pressão, mordo o pastel frito na hora, aprecio o limão posto na garapa e acredito que o telefone que carrego logo tocará.

Se o mundo anda intragável, trato de lutar pra transmutá-lo.

Enquanto como e bebo, eu teria razão se rateasse com a estudante que veio a mim com um questionário sobre hábitos de leitura. Não sei se por prevenção ou acaso, mas ela de mim mantém uma distância tal que me possibilita escutá-la sem alucinações de cenófobo zureta.

Quantos livros eu leio por semana, mês, ano? Sei lá.

Gosto mais de ler romance, contos ou poesia? Crônicas.

Quais meus autores favoritos? Aquelas e aqueles que ainda não li.

A adolescente escreve as respostas sem sorrir ou encarar-me, até que ela quer saber qual personagem eu gostaria de ser.

ꟷ Sem dúvida, é a Emília.

De testa franzida, interpela-me a aluna:

ꟷ Senhor, será a Emília do Sítio do Pica-Pau Amarelo?

ꟷ Ela mesma.

ꟷ O senhor vai ter que trocar porque a Emília é uma boneca, não é personagem humano que seja masculino.

ꟷ Não posso pretender ser a Emília?

ꟷ Vou explicar melhor, senhor. Para não ter confusão, a professora acha que o homem tem que escolher um personagem que seja homem e a mulher tem que escolher uma personagem que seja mulher.

“Regras simples facilitam a vida.”

Posto que entendo os fatos da circunstância, não digo o que penso; para atender ao proposto pela simpática pesquisadora, digo:

ꟷ Garota, glorioso seria voltar ao mundo como a célebre criaturinha apaixonante nomeada Orlando por Virginia Woolf.

Basta ouvir ‘Orlando’ pra identificá-lo como homem, então, dela eu mereço um sorriso, o de quem dá sua aprovação.

Sei me portar de maneira civilizada, é sorrindo que a agrado. Já que também sorrio de dentro pra fora, tal sorriso me sai tão verdadeiro.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de junho de 2023.

quinta-feira, 8 de junho de 2023

Doce balanço

 

Doce balanço

 

Quisera hoje folgar, mas nem cansaço nem fastio chancelam minha disposição para ficar de papo pro ar. Como querendo a gente encontra o que legitime o ócio, apelo à falta de assunto para ir às ruas em busca do que se me revele pitoresco ou afete-me por estranheza, ineditismo ou avacalhação descarada.

A caminho do bar, depois de reconhecer desanimadora a labuta de repaginar o que não me satisfizera ontem nem há pouco e pra que não me entorpeça em amargura, beberei laranjada.

Sem açúcar e sem açodamento, atento à movimentação dentro do bar, tenho uma jarra de laranjada para beber, e a vou bebendo de gole em gole. Com alguma tranquilidade, pois eu a bebo sozinho.

Ainda que esteja decepcionado comigo por escafeder-me da página em branco, eu seria grato a quem me houvesse proposto um servicinho remunerado.

Nada de espantoso, pois me apetece que o valor prometido não me demova de conjeturar que uma jaqueta, tentação em couro há meses corporificada na vitrine, a mim não esteja afortunadamente reservada.

Não fantasio: ela exposta, desejo-a. Tão logo eu junte a quantia que preciso para comprá-la, será minha.

Se fosse de sonhar, ou de assumir o que tenho sonhado, vislumbro-me convertido no Lou Reed que a cachola afeiçoa-me revistá-lo tal qual o recordo na capa de Transformer, tremendamente sensual.

Como desafinado é pesadelo até no chuveiro, reconheço que tenho dotes minúsculos, como cantor e manequim irremediavelmente sexy.

Uma vez que bar não dá palco a quem não sabe cantar, não pedirei vodca na laranjada e manterei a bossa de que tenho muito a ouvir.

Ouço o burburinho, falam de mortes e achaques, dizem que odeiam e amam. Pouco a pouco estou envolvido, até meneio sins e nãos.

Antes de vir sentar-se comigo, Luisinho pede uma KS gelada e um pacotinho de amendoim japonês.

Reclama do quanto terá de pagar à Receita. Não tem dúvida que o escritório deve ter errado na sua declaração. Pela renda que tem, acha um absurdo não entrar em alguma faixa de isenção. Se falam tanto em inteligência artificial, por que o sistema não o reconhece pobre?

Meneio nem sim nem não, que ele entende como quer.

ꟷ O país tem forçado a gente passar por uma fase complicada.

ꟷ Complicadíssima, faz quinhentos anos que ela não passa.

Para aliviar, peço uma porção de calabresa na chapa.

Para entortar de vez, Luisinho pede uma caipirinha.

Os dois homens da mesa ao lado não param de falar, e acham que prisão por falta de pagamento de pensão é vergonhosa, pois deveriam prender criminosos de colarinho branco, que é vergonhoso um tribunal condenar salafrários e descondená-los, que nunca obrigam poluidor de rio a despoluí-lo, que o ouro extraído de terra demarcada é exportado ilegalmente, meninos são forçados a fazer a mata virar carvão.

Doce de pessoa, Luisinho mata a charada:

ꟷ Botam coisa na água que a gente bebe, camará.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de junho de 2023.

terça-feira, 6 de junho de 2023

Espeloteado

 

Espeloteado

 

Se o convidarem, não se precipite. Embora o rancoroso mostre-se satisfeito quando contrafeito, veja-se entre quem não adula nem deseja que o bajule. Por se importar com a tranquilidade, particularmente com a sua, recuse rastejar seu ego festeiro entre festeiros.

Acredite, embora goste de demonstrar-se atento ao instante, a ele não se apegue, que o momento passa e segue virando. Se hoje é lama grudada na roupa, amanhã são cacos contando histórias.

Torne-se menos impetuoso, conscientize-se, dar like é registrar-se ativo, comentar com sinceridade fotos postadas faz com que seja visto como rude. Como incomoda tal rudeza sinceramente consciente, pode crer que o consideram um chato, petulante, um babaca metido a besta. Que seja. Só esteja seguro que é preferível ir dar pipocas a rinoceronte, pela distância daquelas pessoas, convivas de caco cheio.

Bastante distante, pra que as palavras desairosas não o atinjam em um dos seus pontos fracos, as orelhas. Pois orelha queimando diz que reprimendas e contestações voam ligeiras e cobrem quilômetros assim que profetizadas por aquelas bocas encharcadas de cachaça.

Vá para longe e fique lá pelo tempo necessário para que as pragas esfriem no caminho. Lembre-se de que há quem o queira adestrado, a tirar selfies com todo mundo, que isso é normal, bacana, coisa de gente bem simpática.

Seja antipático, vá à festa para contrariar quem o queira sorridente, sóbrio, um exemplo maravilhoso de pessoa iluminada. Dê o melhor de si: leve a escuridão e faça trovejar. Seja autêntico, pois não é problema seu que o repilam, que desgostem de temporais.

Sim, pecado é faltar à festa boa. Frente à felicidade fotogênica, não seja outro ressentido. Comentários irônicos não bastam, esteja lá com o semblante carregado, de quem pode chover a qualquer momento.

No clima da festa, com você já alegrinho, pela malícia de mentiroso que não se envergonha das próprias bazófias, solte essa: o rinoceronte come pipoca.

Com certeza a alegria embriaga, brinde a isso.

Embriagado, seria um pecado não se alegrar com as fanfarronices de achar falhas morais em quem não se anima com a embriaguez que a consciência ventila ao bel-prazer de gozar na hora o que tenha para ser gozado.

Porque dá pelota do quão verdadeira é esta ideia, você a pensa de passagem: maravilhoso é ir ao zoológico que a cidade não tem.

Já que a invenção coloca-o no mapa, o zoo existe. E qualquer um pode achá-lo, basta usar a bússola afetiva que o configura mais longe que a inexistência: na mente em que o coração não a cativa.

Onde ofegante o afobado?

Onde convém visitar quando o medo puxa pelo ar, sufoca, paralisa. Onde as verdades desconcertantes são içadas do pântano mental em que a gente naufragada nem se sabe encoberta pelo vistoso do coral.

Travesso, se rinocerontes são bestas, belo é ser coral.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de junho de 2023.

domingo, 4 de junho de 2023

O sogro

 

O sogro

 

Livre da chateação de querer-se perfeita, pessoa interessante que revela o que é capaz não pela felicidade que possa alcançar, mas pelo que compreende de si ao entender-se com as coisas do mundo, à flor da pele, Dona Cremilda faz-se brisa.

Sobrevivendo ao sufoco do tempo rarefeito, não se dispensa de ver na folhinha que encargos terá no domingo: tem anotado um churrasco de aniversário pra ir. Só depois do meio-dia, irá.

Com uma elegância sutil, chega sem fanfarras, senta-se ao lado de quem não está cativado pelo celular. Conversa amenidades, distrai-se, sorri de vez em quando. Com meninas e meninos que brincam com os cachorros, diverte-se. Bebe suco, come quibe. Com a barra do vestido suja de barro, sem temer um tombo nesta terra, corre com os cães.

Pelas cervejinhas a mais, a aniversariante inventou de contar:

Precisamos que chovia e a chuva havida foi a dádiva ansiosamente pedida e nossa súplica atendida caiu madrugada adentro e madrugada afora, tanto que houvemos por bem que chorássemos e emocionados choramos. Por nossa gratidão, por sermos ouvidos pelas nuvens, pela água das nuvens, pela terra que acolheu a chuva, recolheu fecunda a água da madrugada, o que nos encheu de alegria, convictos de sermos abençoados. Pessoas íntegras, inteiramente humanos, que somos nós de corpo e alma, tanto que choramos e suplicamos, seres penhorados de gratidão, fomos dormir e dormimos. Não sonhamos pesadelos com a morte pela água nem com a carência d’água no chão, tanto choramos de contentamento que fomos dormir e dormimos. E apenas dormimos, exauridos por dentro e extenuados por fora, pois éramos os cansados. Agradecemos, e então, dormimos. Vivas!

Foi quando o bêbado entrevado na sabedoria de seus fios cofiados, foi então que levou Dona Cremilda a recordá-lo sábio justamente pelo imponderado, pessoa impulsiva, mente embebida no conhecimento do mundo pela pele que sente, um ser humano belo, estúpido, patético e emocionado, que se deixa emocionar pelo que conhece ao sentir-se à tona do mundo, entregue à vida no instante:

ꟷ Vou buscar pastel. Quem vai querer?

Foi quando a irmã da aniversariante apareceu:

ꟷ Vai comprar ali na esquina?

ꟷ Vou, sim. Eu vi o carrinho ali na esquina.

ꟷ Traz pra mim um pastel de vento.

ꟷ É sério que não leva nada a sério?

ꟷ Não faço piada. Achei cinco reais, e é só o que eu tenho. E pastel de vento custa justo cinco reais, colega.

Dona Cremilda comia um coraçãozinho quando lhe contaram que o pai do marido da aniversariante chegara bêbado, que chegou tomando uma latinha, falava a língua engrolada dos bêbados, achando graça de arrotar a cada gole, que ele estava mesmo se julgando em casa.

Gente que não menospreza a felicidade alheia, quiçá para criticar a alegria desmesurada, Dona Cremilda deu àquele sogro solto no vento a latinha que deram a ela, a ainda abstêmia.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de junho de 2023.

quinta-feira, 1 de junho de 2023

O trivial do instante

 

O trivial do instante

 

Consciente das minhas fraquezas, admito que a que tem produzido mais alegrias que vergonha é o apego à razão: lógico!

Conscientemente lógico, confesso-me outro hedonista que se apraz em fazer do melhor modo o que o dia a dia tem para mim: beleza!

Não me condeno pelo prazer em tomar banho depois de ter corrido bancos e lojas. Me condenaria se, no meio da correria, tivesse deixado de assistir à moça interpretando Trem das Cores: bravo!

É comovente a lembrança vir dar comigo a querer um prodígio que me desperte pro tédio que é sempre ter fé na irritabilidade, embora eu fique embaraçado ao andar pelado pela praça: tô gordo.

É hilariante querer dormir mais do que tenho dormido quando o sol bate nas pernas, como se a manhã comunicasse que tenho de acordar e mandar consertar a TV, mas, mesmo dormindo eu sinto, é óbvio que vou da irritação comigo à raiva com o vizinho que não tem TV, e meus olhos traduzem os algarismos no celular: tô atrasado.

É mimoso pensar no gatinho que toma sol ao lado da cama, ele não finge que dorme nem eu finjo que concordo com quem diz que a pressa é dos outros, porque não tenho nada de me meter na vida alheia, pois ansiedade me dá fome, e fome lembra almoço: oba!

É estimulante pensar que vou almoçar, que tem mais gente em casa e que a mesa estará posta quando eu me sentar, ora, se o alarme não disparou é que a pessoa me conhece e quem agrada o bichano sabe que a manhã continuará ensolarada: maravilha.

É maravilhoso ter quem goste do gato, cuide dele como se cuidasse de mim, embora eu não mie nem quando estou tenso, sei que preciso levantar antes que me telefonem, sei do prazo pro envio do texto, tenho que fazer esse trabalhinho: já tá pago.

É esquisita a sensação de que sou outra pessoa: quem é você?

É salutar o desejo de acordar sem tédios nem melancolias, embora essa outra pessoa não queira papo comigo, porque eu tenho perguntas e quero que as respostas sejam sinceras, porque a verdade é uma só, ou a gente conversa ou o mundo continuará na mesma: uma droga.

É estranho outra pessoa cuidar da gente como se cuidasse do gato que continua dormindo mesmo com o sol forte, porque já é meio-dia e o marmitex em cima da mesa vai precisar do micro-ondas, ou a gente come a comida fria ou a gente fica feliz por compartilhar: eba!

É contagiante a ideia que o mundo pode ser melhorado, desde que se saiba qual seja esse melhor a ser construído, embora eu me enerve só de temer a frustração, porque os meus momentos de lucidez andam escassos, tenho sentido medo; quando estou com medo é que entendo que os dias são tristes, de tristezas pesadas, que me atrapalham, tiram de mim a vagareza, que eu corro e sei que estou correndo: é pra já.

É repentino o mundo que me revela ordinário, porque a gente pode conversar numa boa, embora eu ainda esteja cochilando: peraí!

É tenebroso esse mundo de sol com o gatinho faltando.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de junho de 2023.

terça-feira, 30 de maio de 2023

Sumidade

 

Sumidade

 

Aquele homem nem disfarça, gosta mesmo de ser do contra; sobre seja lá o que seja, diz-se que é pessoa livre, autônoma, independente, um pensador que não se sujeita; no fundo, se o carimbo de gente livre for examinado de perto, é evidente que a tinta ꟷ nem a cor verde nem a azul são empregadas, só o vermelhoꟷ não infunde fundamentos nem enraíza fundamentações, apenas mancham o caráter, contaminando a leitura da sua aura, essa aura em cujo espírito o ser humano de ideias precisamente dignas e sóbrias gera a identidade oportunista de quem sabe ganhar a vida, ainda que não assuma o otimismo.

Tal otimista não avalia como estapafúrdias as opiniões que dispara assim que a comichão acossa-o. Seus dedos são rápidos na digitação, seus olhos são pródigos em leitura enviesada, em seus lábios abunda a saliva do satisfeito. Pelo êxito alcançado: milhares de curtidas a cada postagem, milhões de neurônios recompensados pelo reconhecimento do seu afeto fundamental, que é contrariar a corrente majoritária que impregna com sensatez a mente da nossa gente.

“Tem brasileiro que samba ao ter sofrido outra derrota”: a primeira ideia estapafúrdia que o otimista que sabe contradizer-se teve durante a noite passada foi que a ventania uivante garantia que o final das eras aconteceria assim que a chuvarada caísse, rios transbordassem, ruas restassem alagadas e não fosse mais leviandade afirmar que os raios eram raios tão somente raios.

Duvidar do apocalipse no seio da madrugada? Céus!

Sendo um temporal, cadê que não se escutaram os estrondos? Isso foi o que foi, que o mais assustador da noite foi que houve relampejos, os clarões terríveis, e nada disso foi evidência que o fim do mundo iria ser escuro, silenciosamente apagado, aquele breu só.

Afeiçoado a repentes apocalípticos, o homem foi às compras.

Lá ele encontrou quem gosta de felicitá-lo ao encontrarem-se; e por nada, por qualquer coisa, como se a felicidade girasse feito o girassol, ao léu desses encontros circunstanciais.

A segunda ideia idiota, ele a pensou assim que se livrou do abraço: que o sol da lágrima não aquece a língua da gente porque não é sol, é sal, é amargo, e o sal da lágrima não é dor nem sofrimento, nem sequer dá paixão à alma.

A terceira idiotice veio da segunda, que ele não tinha como assumir a autoria daquela besteira, porque ele diz o que diz e esquece, vai em frente, como se a chuva caída de madrugada não tivesse acarretado o alagamento da rua nem que os bombeiros não vieram socorrer as duas mulheres, a cacatua, a calopsita e aquele gato angorá, que, por conta daquele olho esbranquiçado, é o Simão.

Comentaram que o homem que gosta de ser do contra não merecia audiência, que ele era uma pessoa nefasta, alguém indigno de dó, até porque ele repassou: “a gente quer bem o próximo quando está bem, o contrário é vulgaridade hipócrita”.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 30 de maio de 2023.

domingo, 28 de maio de 2023

Na retranca

 

Na retranca

 

Eu estava pensando em sair, mas chegou visita.

Pra minha diversão, quem veio nem teve o cuidado de perguntar se desagradava-me a sua chegada. Chegou e pronto: que fosse recebido com a simpatia costumeira, sem salamaleques.

Incapaz de mimimi, e por cultivar os bons modos de gente educada, eu não retruquei que fosse logo se sentando na minha poltrona.

Porque visita tem o privilégio de estar sempre com a razão, e antes que as costas indicassem desconforto, até lhe atirei uma almofada.

As pessoas que convivem comigo acham-me razoável. A elas o que vigora é a postura de sujeito que só explode quando bem contrariado.

Irreverências à parte, só tenho louvores a fazer a quem enxerga as qualidades que consideram primordiais em uma pessoa agradável, que nem eu, gente evidentemente nascida para bem servir.

Por possuírem um conhecimento profundo sobre mim, por saberem que sou fleumático, com enraizados acentos civilizados, escusando-as de elogiar-me a afabilidade, sinto-me gente verdadeiramente polida se abusam e tratam de extrair de mim o meu melhor.

Bem-criado, em vez de ter oferecido água, preferi os ouvidos.

Na verdade, ofereci água; não apenas um copo d’água, pois ofereci a escolha: água gelada ou nada.

Ora, estou ciente de que as boas maneiras dão-me consciência de que posso gentilezas e cortesias, que jogar a favor da identidade como bom jogador é apostar em mim como gente pragmaticamente servil.

Se posso ser útil, ainda que isso me vulgarize um serviçal esforçado aos olhos de quem sabe que sou capaz de vaidades menos banais, é perfeitamente natural que eu me realize gentil, cortês e aprovado.

Aprovo minha atitude, que a visita perceba que posso deixá-la leve, motivada a falar, porque eu sei ser o bom ouvinte.

E eu ouço o que o meu coração canta: que o corpo sente que é bom o pulso seguir tranquilo, leve, tão leve e tão tranquilo que minha mente capta o impulso constante que gera uma alegria serena.

Gente amena que sorri quando entende o mundo durante uma visita ao meio-dia, não me abate a felicidade que é a revelação desta faceta de ser humano feliz, alegre e satisfeito.

Se minha generosidade estivesse condicionada a biscoitos e sucos, eu me implicaria em separar as visitas: aquelas merecem ter estragada a saúde com salgadinho de camarão e estas, pessoas amigas que não se rebelam por ninharia, nego-lhes o copo estupidamente gelado.

Camaradinha a quem não me cativam os confrontos com o mundo, prudente ao refletir: que o sorriso de anfitrião desarmado comprovasse a ânsia de ser melhor compreendido, feito tolo.

Como perna de pau que não sabe fintar o instinto, abri o jogo:

ꟷ Vamos almoçar?

Ela tinha acabado de acender um cigarro, baforou-o, bateu a cinza no vasinho de violeta e, na marca da cal, foi elegantemente sábia:

ꟷ O que você ficou fazendo até agora que ainda nem almoçou?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de maio de 2023.