quinta-feira, 29 de junho de 2023

Prosaico aperitivo

 

Prosaico aperitivo

 

Domingo é para sentar sossegado, balançar na varanda, bebericar um suco, ouvir o canto dos passarinhos, sintonizar-se com a brisa que farfalha folhas. Domingo é para ignorar latidos, miados e ramerrames. Domingo é para caminhar pela cidade sem que seja preciso ir a algum lugar. Domingo é bom para zanzar até que o corpo diga o momento de voltar. Domingo é dia de errar sem ter perdido a melhor parte. Domingo é esquecer-se de olhos fechados, de suco à mão, no doce balanço de quem não escolhe, apenas intui que o melhor a fazer é não fazer nada. Contudo, que não seja de segunda o que for do domingo.

O telefone toca; o Luisinho diz que está vindo.

Chegando com uma travessa de maionese, Dona Cremilda diz que o Luisinho avisou que o almoço vai ser na minha casa.

Nem temos tempo de comentar o tempo, nisso quem entra em cena é o Aristeu, convidado por dona Cremilda, pra quem almoço sem violão é macarronada sem parmesão, passável porque insossa.

À espera do Luisinho, vamos pra cozinha.

Pitando esquecido do cigarrinho, Aristeu vai dedilhando o que acha mais apropriado a este domingo sem latidos, miados e motocicletas de escapamento estrepitoso.

Dá-nos Noel, Cartola, Caymmi e Jobim.

ꟷ Cadê a Dolores Duran?

E Aristeu capricha: Por causa de você e Estrada do Sol.

Dona Cremilda veste um dos aventais que pouco uso. Ao vê-lo fora do armário, reconheço a graça de tê-lo comprado. Como senhorzinho careca, creio que fica bem em mim a precisão da Mafalda: “Não estou descabelada, meus cabelos é que têm liberdade de expressão”.

Luisinho chega, põe na mesa o frango assado e, mesmo que esteja babando na rede, que pronto o chamem pra fazer a caipirinha.

Dona Cremilda, Aristeu e eu estamos de acordo: o preço de quase tudo está alto, bem alto; o dragão que achávamos extinto está de volta, nem dá mais pra fazer o mercado com menos de cem.

ꟷ Coitado de quem precisa viver de salário-mínimo.

ꟷ Tem que fazer mágica.

ꟷ Mágica é truque; no truque, o mais fraco não tem chance.

ꟷ Quando a chance aparece, o pobre bica pra longe.

ꟷ Pobre não desperdiça nem faz pouco caso, isso é coisa de quem bate o escanteio e corre cabecear.

ꟷ Cadê o centroavante matador que não amarele na área?

ꟷ Pois é, cadê?

ꟷ Gente, domingo fica ótimo se a gente não se lembra da feira, dos políticos e dos boletos de farmácia e padaria.

ꟷ Bom seria a gente não surtar com boataria.

ꟷ Não perco um minuto com minuta do golpe.

ꟷ Pois eu viro num gole quando a cachacinha é de primeira ꟷ caído da rede, com jeito de quem poderia morgar a tarde inteirinha, adorando a carapuça de palhaço, o Luisinho entra na roda.

ꟷ Política não é apenas palhaçada, Luisinho.

ꟷ Dona Cremilda, nem circo é pra amador.

Sem prever esse presente, vamos combinar!, o franguinho assado, a maionese caseira, o papo-furado, A Noite do Meu Bem, putisgrila!, esse nosso almoço promete ser mesmo memorável.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 29 de junho de 2023.

Nenhum comentário:

Postar um comentário